Se Deus é Bom, Justo e Todo Poderoso por que o sofrimento existe?

“Há coisas que não sabemos, e elas pertencem
ao Senhor, nosso Deus…”
(Dt 29:29)

Introdução 

Essa é uma pergunta que desde sempre “martelou” a mente do ser humano e para a qual muitos já tentaram dar explicações, algumas razoáveis, outras nem tanto.

Na Bíblia existem diversas passagens que abordam a questão da prosperidade dos maus e do sofrimento dos justos. Aliás, nela há até um livro cujo personagem principal é descrito como alguém “íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal” (Jó 1:1), mas que ainda assim sofreu muito.

Na filosofia, esse tema também despertou interesses. O polímata (indivíduo que conhece ou estuda muitas ciências) e filósofo alemão G. W. Leibniz, a partir de 1710, escreveu seus Ensaios sobre teodiceia, sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal e, sob a óptica racionalista do pensamento filosófico, tentou desvendar alguns dos mistérios do Criador.

Mais um grande pensador a se debruçar sobre o tema foi C. S. Lewis. Na obra O problema do sofrimento (1940), ele aborda temas como a onipotência divina, a bondade divina, a maldade humana, a queda do homem, o sofrimen­to humano, tudo com a intenção de lançar um pouco de luz sobre essa tão antiga questão.

Um livro mais atual e de grande repercussão sobre o assunto é Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas (1981), do rabino Harold Kushner, que parte da premissa (que, data venia, reputo falsa) de que Deus não é onipotente. Ele tenta nos dar conforto com o fato de que o Criador nos dá força para enfrentar qualquer situação.

Contudo, com o devido respeito a essas colossais figuras de nossa história, nenhuma delas conseguiu lançar tanta luz ao assunto quanto o rabino Benjamin Blech, na obra Se Deus é bom, por que o mundo é tão ruim?. Ele parte da ideia de que não podemos simplificar o assunto, reduzindo-o a apenas uma ou outra resposta. Mas devemos analisar o sofrimento sob diversos prismas, para, quem sabe, chegarmos à compreensão do porquê de algo estar acontecendo.

É parte de seus ensinamentos que pretendo descrever doravante neste texto, com o objetivo de trazer entendimento àqueles que sofrem, principalmente na época atual, tão marcada por rotineiras tragédias.

O sofrimento nos outros, não julgue. O sofrimento em si mesmo, reflita

O rabino começa a jornada em busca de respostas para questionamentos tão profundos, explicando que diante do sofrimento devemos ter basicamente duas posturas: se é outra pessoa que está sofrendo, não devemos julgar ou tampouco apontar erros, mas agir com compaixão e dar-lhe o benefício da dúvida, porque talvez a dor que ela sente não tenha a ver com nenhuma transgressão praticada, mas seja por razões que só o Criador conhece. 

Por outro lado, se somos nós mesmos que sofremos, devemos agir com introspecção e avaliar sincera e intimamente nossas atitudes, estilo de vida, forma de pensar, de crer, enfim precisamos fazer uma autorreflexão para descobrir por que estamos passando por determinada situação. 

Às vezes, devido ao princípio da medida por medida (onde crime e castigo correspondem), pode haver uma relação clara entre um ato errado praticado e algo que se está sofrendo, por exemplo, enganou nos negócios, está sendo enganado. 

Contudo, se nada for encontrado, não se deve colocar culpa onde não existe, pois pode haver vários outros motivos para o sofrimento.

As ações, nós escolhemos; as consequências são automáticas

Ao criar o homem, Deus estabeleceu que ele teria livre-arbítrio e, para que esse atributo fosse respeitado, resolveu não interferir em nossas escolhas e ações. A partir de então, é como se Ele “pairasse” sobre os homens, procurando apenas influenciá-los para que eles ajam em conformidade com Seus mandamentos. Contudo, a decisão é sempre do homem. 

Uma vez colocada em prática a atitude escolhida, as consequências serão inevitáveis. Ou seja, Ele estabeleceu prin­cípios que implicam desdobramentos conforme as opções que fazemos.

É evidente que em alguns casos, segundo Sua exclusiva vontade, Ele poderá interferir em determinadas situações realizando aquilo que conhecemos por “milagre”. Inclusive, essa é uma das razões pelas quais em todos os momentos devemos perseverar nas orações.

Então, por vezes, coisas ruins acontecem simplesmente porque o ser humano usou mal seu livre-arbítrio e Deus, de antemão, decidiu que não interferiria. Apesar disso, as consequências são inevitáveis, ainda que aparentemente demorem.

Só Ele conhece o todo e a verdade sobre cada um de nós

Quando vemos coisas ruins acontecendo a pessoas que consideramos “boas”, ou também o inverso, isto é, coisas “boas” a pessoas “ruins”, devemos evitar julgar o que aparentemente está acontecendo.

Apenas e tão somente Deus sabe quem é realmente bom e quem é verdadeiramente mau. Nós julgamos segundo as aparências, enquanto Ele (só Ele) conhece as verdadeiras intenções dos corações. Às vezes temos certeza de que determinada pessoa é boa e é temente a Deus, entretanto ninguém pode estar completamente seguro acerca daquilo que ela faz quando está sozinha, quando não está sendo observada, ou mesmo que tipo de pensamentos e também de sentimentos alimenta em seu interior.

Por outro lado, também devemos considerar que determinado acontecimento que parece ser ruim às vezes não é. Nossa visão é demasiadamente limitada e só Ele, que conhece o todo, tanto o pretérito como o porvir, tem condições de fazer essa avaliação.

Com frequência, com o passar dos anos, algo que inicial­mente parece muito ruim revela que não poderia ter sido melhor. Além do mais, também existem acontecimentos que só compreenderemos na Eternidade.

Precisamos confiar na sabedoria d’Ele, por mais doloroso que isso possa ser, e muitas vezes é.

Este mundo é apenas uma temporada para decidirmos como será a morada eterna

Ao tratar do assunto da morte, o rabino Benjamin Blech aborda uma temática judaica que se diferencia bastante da visão cristã dominante.

Antes de virmos a este mundo, somos todos espíritos junto ao Pai. Porém, mesmo estando num lugar pleno, ansiamos por descer à Terra a fim de realizar boas obras (afastando-nos do mal e fazendo o bem, segundo os parâmetros dos Mandamentos Divinos), para consequentemente acumular mérito (galardão) e, assim, efetivamente merecer um local e uma posição no Reino Celestial.

O problema é que, quando chega a este plano, a maioria simplesmente desperdiça a grande oportunidade da existên­cia terrena e passa a dedicar muito tempo a coisas que não terão valor real quando suas obras (atitudes) forem julgadas.

A morte como decreto divino

Algumas vezes, a morte ocorre simplesmente porque a pessoa já cumpriu aquilo que veio fazer. Até pode ser que ela tivesse um propósito que em nada se relacionava com sua própria vinda, pois tinha como função influenciar outras pessoas, os familiares, uma comunidade etc.

Também pode ser que Deus tenha recolhido a pessoa por misericórdia dela mesma, uma vez que, antevendo o futuro, sabe que no exercício de seu livre-arbítrio o caminho que ela está trilhando a levará a lugares muito ruins. Diz-se, inclusive, que Enoque foi levado justamente por isso, porque sua geração estava tão corrompida, que até ele acabaria se corrompendo.

Outras vezes, uma vida inocente é prematuramente ceifada não por um decreto de Deus, mas pela maldade ou até mesmo simples imprudência do próprio homem, o que não significa, entretanto, que deixará de haver justiça. 

Enfim, a morte ainda pode ser o alívio para um sofrimento.

Envelhecimento, dor e doença

Segundo o pensamento ocidental, a velhice, a dor e a doença são maldições e não deveriam existir. Entretanto, a partir das concepções judaicas, o rabino Benjamin Blech apresenta uma visão bastante diferente e ensina que essas três condições da vida humana são “presentes” de Deus em resposta a orações feitas pelos três patriarcas: Abraão, Isaque e Jacó.

Para melhor compreender o que será explicado, é importante saber que os sábios do Talmude ensinam um princípio segundo o qual a primeira aparição de algo na Bíblia é de suma importância, pois, antes de ser relatado nela, não acontecia. Por isso, analisar as circunstâncias da primeira vez que um fato é descrito é de grande importância.

Segundo contam esses sábios, Abraão pediu a Deus que Ele distinguisse os homens maduros dos jovens, para que as pessoas soubessem a quem deveriam render mais honras (lembremos: o pensamento oriental é bem diferente do ocidental). Abraão não pediu as doenças e as limitações da velhice, mas apenas os sinais exteriores que demonstrassem que a pessoa está amadurecendo. Então, Deus percebeu que era algo bom e concedeu, a começar por Abraão.

Até Isaque, todo sofrimento descrito na Bíblia ocorria como forma de punição, mas, a partir dele, isso mudou. Contam os sábios que Isaque pediu a Deus que houvesse sofrimento porque, como todos somos imperfeitos, teríamos muitas “contas a acertar” no Mundo Vindouro, então, se pudéssemos ir adiantando os pagamentos aqui neste mundo, o tormento ao qual seremos submetidos na Eternidade seria reduzido. Diante disso, Isaque foi o primeiro a passar pelo sofrimento, ao ficar cego.

Jacó questionou Deus sobre o fato de as pessoas morrerem de modo súbito, sem tempo de se despedirem de suas famílias, de pedirem perdão, de consertarem algumas coisas que pudessem estar pendentes. Deus respondeu ao questionamento, fazendo Jacó ser o primeiro a sofrer com uma doença que logo o levaria à morte.

Assim, tanto a velhice quanto a doença terminal servem para que tenhamos a consciência de que nosso tempo nesta jornada terrena está acabando e para que nos preparemos para o encontro com o Eterno, que avaliará cada uma de nossas atitudes, pensamentos, palavras e motivações. 

Os sábios nos ensinam que o arrependimento adequado e sincero pode desfazer toda uma vida de trans­gressões, ou seja, existe a oportunidade de com­pensar pecados contra Deus e contra outras pessoas que só elas poderiam perdoar aqui na Terra. Há tem­po, nesses últimos momentos antes da morte, para retificar muitas coisas que poderiam ter passado sem correção caso a pessoa tivesse morrido de repente. (B. Blech, op. cit., p. 120)

A meu ver, essas explicações acerca da velhice e da doença que anuncia a morte são razoáveis. Entretanto, talvez nossa maior dificuldade seja compreender a função do sofrimento humano, especialmente quando nos parece imotivado e injusto, e esse é o tema que o rabino Benjamin Blech mais tenta explorar.

Por que o sofrimento?

Não foi à toa que o imperador romano Júlio César certa vez disse que “é mais fácil encontrar homens que irão se voluntariar para morrer, do que encontrar aqueles dispostos a suportar a dor com paciência”.

Até mesmo no âmbito dos processos judiciais se percebe a distinção do sofrimento e da morte. Muitos juízes atribuem maior indenização para as vítimas de lesões permanentes do que para os herdeiros que perdem um ente querido, exatamente pela ideia de que a dor permanente é pior que a morte.

A ideia aqui não é tratar da dor e do sofrimento que tenham causa (por exemplo, uma punição por algo errado que se fez), mas do que é considerado injusto e sem motivo. Esse é o que intriga.

Nietzsche afirmava que “o que realmente eleva a in­dignação de uma pessoa em relação ao sofrimento não é o sofrimento em si, mas sua falta de sentido”. Conhecendo a razão ou o propósito, podemos suportar quase qualquer dor.

Diante do sofrimento aparentemente sem causa, muitos questionamentos surgem, especialmente com relação à presença de Deus durante todo o tempo de dor, sua onipotência, sua bondade, sua justiça. Enfim, num mundo governado por um Deus Bom, Justo e Todo-Poderoso, não faz sentido uma pessoa inocente sofrer.

O rabino Benjamin Blech alerta para a inexistência de uma única resposta para a enormidade de questionamentos decorrentes do sofrimento. O que se pretende é abordar o assunto por alguns pontos para que cada um faça uma reflexão acerca do assunto.

ESTÁ GOSTANDO DESTE TEXTO? NELE EU AINDA ABORDAREI OS SEGUINTES TEMAS:

Alguns aspectos do sofrimento

Sofrimento pedagógico

Sofrimento fortalecedor 

Sofrimento como concretização do potencial

Sofrimento como convite ao arrependimento

Sofrimento como expiação

VEJA UM POUQUINHO DA CONCLUSÃO…

Considerações finais

Como alertei no início deste texto, compreender por que os bons sofrem mesmo Deus sendo Bom, Justo e Todo-Poderoso é um questionamento filosófico e religioso que persegue os homens desde sempre.

Grande parte daquilo que aqui compartilhei foi extraída das lições do rabino Benjamin Blech, o qual conseguiu discorrer de forma didática e lúcida sobre esse tema, que é bastante complexo.

Vale deixar registrado que ele mesmo reconhece que “nenhuma das explicações individuais pretende solucionar todas as nossas vivências semelhantes às de Jó. Contudo, cada uma delas se aplica a uma situação e para algumas pessoas” (B. Blech, op. cit., p. 159).

A intenção foi mostrar algumas facetas acerca do sofrimento, da dor, do pesar, para que, nesses tristes momentos de nossas vidas, possamos refletir e, quem sabe, encontrar um pouco de alento e nos aproximar ainda mais do Eterno.

O rabino Yanai certa vez disse que “não podemos compreender nem a serenidade [o bem-estar] do malvado nem as tribulações do reto” (Pirkê Avot, Ética dos Pais, 4:15). Com isso, ele quis dizer que só o Eterno tem essas respostas e, se decidirmos nos empenhar nessa reflexão, devemos fazê-lo com “humildade intelectual e espiritual” (B. Blech, op. cit., p. 175).

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Sobre o autor

Henrique Lima

Sobre o autor

Henrique Lima

Henrique Lima é advogado atuante em defesas de servidores públicos civis e militares, de trabalhadores da iniciativa privada, de profissionais liberais, de associações, sindicatos e empresas em temas envolvendo direito administrativo, tributário, previdenciário (INSS e RPPS), do trabalho e do consumidor.

 

É mestre em direito pela Universidade de Girona – Espanha e pós-graduado (lato sensu) em direito constitucional, direito do trabalho, civil, consumidor e família. É sócio do escritório Lima, Pegolo & Brito Advocacia (www.lpbadvocacia.com.br) que possui unidades em Curitiba-PR, Campo Grande-MS, Cuiabá-MT, Rio Brilhante-MS, Dourados-MS e Aquidauana-MS, mas atende clientes em vários Estados brasileiros.

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