Midá Kenégued Midá, a régua de Deus

Imagine que você é um rei muito poderoso e que precisa estabelecer uma maneira de quantificar a medida que usará tanto para beneficiar como para punir seus súditos pelas atitudes que praticam. Certamente, muitas seriam as possibilidades, porém todas apresentariam, em alguma proporção, aspectos que poderiam não ser tão justos em determinadas circunstâncias.

Pois bem, em algum momento da eternidade Deus precisou firmar esse critério e, como em tudo o que faz, lançou mão da simplicidade e da perfeição.

 Em sua infinita sabedoria, fez o seguinte: deixou que, por meio da maneira como nos comportamos com nossos semelhantes, nós mesmos forjássemos a régua que Ele usará conosco para nos abençoar ou nos punir, conforme obedeçamos ou não seus Mandamentos.

Em outras palavras, a mesma medida que usarmos com o próximo, Ele usará conosco.

Assim, na mesma intensidade que formos generosos, bondosos, misericordiosos, criteriosos ou exigentes com as outras pessoas, igualmente o Céu será conosco.

Atente-se para a ótima notícia: temos total liberdade para estabelecer a medida que será usada conosco!

No judaísmo, os rabinos ensinam que esse é um princípio aplicável a todas as áreas da vida: finanças, honra, socorro, perdão, justiça, etc., e o denominam de MIDÁ KENÉGUED MIDÁ, ou seja, MEDIDA POR MEDIDA.

No Talmude aprendemos que “… O céu mostra misericórdia àquele que é misericordioso para com os outros, mas não mostra àquele que não o é.” (Shabat 151b) e ainda “Com o instrumento de medida com que o homem mede, ele será medido.” (Tsedacá e Chessed, capítulo 1, página 11). O rabino Zusha (1718 – 1800) certa vez asseverou: “… o Todo-Poderoso conduz-se conosco conforme nós nos conduzimos com os outros.”.

Mas seria esse um princípio religioso específico do judaísmo, capaz de produzir efeitos apenas entre os adeptos dessa religião ou é algo universal, isto é, aplicável a todos os seres humanos? Minha opinião é que se aplica a todos nós.

Jesus não apenas o utilizou em seus ensinamentos, mas ainda fez questão de chamar nossa atenção para ele, dada sua especial relevância.

Na oração do Pai Nosso, vemos uma de suas facetas: “… perdoa nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido…” (Mateus 6:12). Nesse caso, foi utilizado para a questão do perdão, contudo, como já expliquei, ele influencia todas as áreas da vida. O escritor norte-americano John Bevere, em seu livro “A recompensa da honra”, aborda como a honra que dedicamos às outras pessoas, atrai a honra dos céus em nosso favor.

Em outro momento, Jesus fala ainda mais abertamente desse princípio: “Porque Deus julgará vocês do mesmo modo que vocês julgarem os outros e usará com vocês a mesma medida que vocês usarem para medir os outros” (Mateus 7:2).

Isso é tão importante que Jesus chega a insistir para que tenhamos cuidado: “Prestem bem atenção no que vocês ouvem. Com a medida com que tiverem medido vocês serão medidos e mais ainda lhe será acrescentado.” (Marcos 4:24).

Diante da revelação desse poderoso princípio celestial, que foi afirmado e ensinado pelos profetas, pelos sábios e até mesmo por Jesus, nosso Sumo Sacerdote Eterno diante de Deus, temos que ficar absolutamente atentos quanto a maneira como nos comportamos com nossos semelhantes.

Às vezes, podemos ser levados a acreditar que somos melhores do que outras pessoas por termos nos dedicado mais a alguma atividade e, consequentemente, estarmos, pelo menos naquele aspecto, numa situação aparentemente melhor. Essa crença pode facilmente nos conduzir a sermos severos, escrupulosos, exigentes, criteriosos e até orgulhosos em nossos julgamentos, pensamentos e em nossa disposição em ajudar, não apenas financeiramente, mas também em atividades que exijam tempo e empenho pessoal. É exatamente contra esse tipo de forma de pensar e de agir que Jesus chamou nossa atenção.

Parafraseando o Rabino Zusha: se alguém fizer o bem “… até ao indigno, o Céu será leniente e bondoso para com ele, mesmo que ele também seja indigno.”.

Mas antes que alguém pense “não sou indigno”, já me adianto: perante Deus, todos somos. Em questão de santidade e dignidade, estamos muito mais próximos do mais terrível e abominável dos pecadores que já existiu neste mundo, do que de Deus. Isso por uma simples razão: diante de quem é absoluta e infinitamente puro, qualquer sujeira é uma imundícia. Já entre dois pecadores (pois todos somos), é apenas uma questão de mais sujo e menos sujo, pois ambos estão contaminados e, não fosse o sacrifício expiatório do Cristo, estaríamos todos definitivamente separados dEle.

Enfim, devemos evitar ser “demasiadamente justos” (Eclesiastes 7:16) em nossas relações interpessoais, pois, assim agindo, nos depararemos com um Céu também “demasiadamente justo” conosco e que sonda não apenas nossas atitudes, mas até mesmo nossos pensamentos e motivações. Portanto, ao contrário, sejamos misericordiosos, benevolentes, desapegados, generosos, ainda que isso resulte em eventuais prejuízos financeiros. No final, só temos a ganhar quando “fazemos o bem, sem olhar a quem…”.

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Sobre o autor

Henrique Lima

Sobre o autor

Henrique Lima

Henrique Lima é advogado atuante em defesas de servidores públicos civis e militares, de trabalhadores da iniciativa privada, de profissionais liberais, de associações, sindicatos e empresas em temas envolvendo direito administrativo, tributário, previdenciário (INSS e RPPS), do trabalho e do consumidor.

 

É mestre em direito pela Universidade de Girona – Espanha e pós-graduado (lato sensu) em direito constitucional, direito do trabalho, civil, consumidor e família. É sócio do escritório Lima, Pegolo & Brito Advocacia (www.lpbadvocacia.com.br) que possui unidades em Curitiba-PR, Campo Grande-MS, Cuiabá-MT, Rio Brilhante-MS, Dourados-MS e Aquidauana-MS, mas atende clientes em vários Estados brasileiros.

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