Diálogos entre a ética da Grécia antiga e a ética do Monte Sinai: Uma complementariedade necessária

RESUMO: Este texto aborda algumas das características mais marcantes da ética desenvolvida na Grécia Clássica, especialmente por Sócrates, Platão e Aristóteles, e da ética comunicada por Moisés, realçando a necessidade de serem estudadas e utilizadas em conjunto, pois cada uma faz contribuições importantes para o desenvolvimento da sociedade.

PALAVRAS-CHAVE: Ética; Filosofia; Grécia; Lei Mosaica.

ABSTRACT: This text addresses some of the most striking features of the ethics developed in Classical Greece, especially by Socrates, Plato and Aristotle, and the ethics communicated by Moses, highlighting the need to be studied and used together, as each makes important contributions to the development of society.

KEYWORDS: Ethics; Philosophy; Greece; Mosaic Law.

1. DELIMITANDO OS DIÁLOGOS

Antes de adentrar especificamente no tema proposto, convém alertar que escapa ao objetivo deste texto tecer considerações acerca dos projetos de salvação propostos pela filosofia grega, inclusive segundo o pensamento estoico, e pela ótica monoteísta desenvolvida a partir no Monte Sinai.

Não é escopo desta análise verificar a existência de um Deus pessoal (ou impessoal como no panteísmo grego) e de um Salvador, ou se a salvação é possível alcançar por meio da própria razão e da conformidade com a natureza das coisas.

Aqui serão avaliados os principais pontos dessas duas formas de pensamento, focados naqueles que sejam úteis em atividades diárias no plano horizontal, isto é, na relação entre semelhantes.

Desde logo convém esclarecer que por ética, que provém do grego “ethos”, entende-se os valores, costumes, práticas e hábitos de uma pessoa ou coletividade, que impactam positiva ou negativamente na vida de seus semelhantes. Neste texto, a ética é considerada como sinônima de moral, apesar das opiniões contrárias.

2. A ÉTICA DOS PRINCIPAIS PENSADORES DA GRÉCIA ANTIGA

A presente análise será especialmente voltada para três principais pensadores: Sócrates, Platão e Aristóteles.

Embora esses autores tenham vivido no curto interregno temporal de apenas 147 anos (de 469 a.C. a 322 a.C.), eles romperam com uma visão de mundo baseada em mitos e transformaram a hegemônica forma de pensar, substituindo as crenças mitológicas pelo uso da razão como ferramenta questionadora, reflexiva, dedutiva e investigativa, influenciando nossas vidas até o presente momento.

Sócrates – viveu entre 469 e 399 a.C. e com ele é possível aprender sobre a importância de viver e, se preciso for, até mesmo morrer em conformidade com aquilo que se acredita e prega. Reconhecer a insuficiência dos próprios conhecimentos, buscar analisar situações a partir de outras óticas, ter consciência da perene necessidade de duvidar daquilo que recebemos como informação e saber manter-se em constante busca pela verdade.

Citado por Platão em suas obras, Sócrates indaga, em uma de suas provocações: “… não te sentes envergonhado por te preocupares com a aquisição de riquezas, reputação e honras, enquanto não te importas e nem te atentas para a sabedoria, a verdade e o aperfeiçoamento de tua alma?” (2015, p. 50). Esse questionamento é típico de Sócrates, que tinha por sacerdócio impelir seus semelhantes a uma autorreflexão acerca de suas crenças, atitudes e objetivos.

Platão – nascido em 427 a.C. e falecido em 348 a.C. Com ele a humanidade é convidada a pensar além da realidade material, tentando, por meio da razão, acessar o que seria uma sociedade ideal, uma vida ideal, um casamento ideal, uma justiça ideal, pois parte da premissa de que todos vivem entre sombras imperfeitas dos projetos ideais e atemporais que existem noutra dimensão (ideal), a qual tem-se conhecimento antes do indivíduo vir a este mundo.

Contudo, não é por meio da crença mitológica, mas sim com o uso da racionalidade e da reflexão que se pode inquirir acerca daquilo que é ideal, perfeito e justo, e efetivamente alcançar esse conhecimento. A busca por esse objetivo tem como suporte as virtudes inatas da sabedoria, da coragem e do autodomínio, que dão condições de caminhar sentido à felicidade.

Aristóteles – viveu de 384 a 322 a.C. e completa esse trio de ilustres figuras que, com seus pensamentos, ainda hoje influenciam boa parte do mundo ocidental. Ele ensina que se deve atentar para a realidade material que circunda o sujeito – não para assuntos transcendentes – e dela tirar ensinamentos, conceitos e conclusões de como as coisas realmente são, sistematizando o conhecimento a fim de recorrer a ele quando necessário.

Conforme Aristóteles, a felicidade é posta como condição a ser buscada pelos homens, a qual é possível conquistar ao se atingir as virtudes moral e intelectual, alcançáveis por meio do hábito e do estudo (2016. p. 139). Aliás, o esforço próprio é fundamental, visto que não há uma forma pré-definida do indivíduo, uma vez que as compreensões interiores são reflexas de informações absorvidas pelos sentidos.

Assim, com essas três fenomenais mentes da Grécia Antiga se aprendeu a (1) questionar os conhecimentos que são passados quase de forma automática; (2) viver e até morrer em coerência com o que se acredita; (3) utilizar a razão para estabelecer ideais de justiça; (4) atentar-se à realidade que circunda o indivíduo e (5) buscar a felicidade por meio da virtude adquirida com o hábito e esforço, evitando tanto o vício do excesso como da omissão.

Importante destacar o ensinamento de que um caráter virtuoso não é fruto de atos isolados, mas de uma vida habituada em praticar aquilo que é reto e justo pois, nas palavras de Aristóteles, “…a virtude moral resultada do hábito…” (2016, p. 39).

Evidente que isso é apenas um indicativo da ética desses três colossos da filosofia. Contudo, próximo dos gregos havia outro grupo, os hebreus, que viviam de acordo com um modelo social que também irradiam seus efeitos até o presente dia.

3. MOISÉS, O MONTE SINAI E SUA IMPORTÂNCIA NA HISTÓRIA DO MUNDO OCIDENTAL

Por volta de 1.100 anos antes dos Gregos iniciarem o período áureo de sua filosofia com o nascimento de Sócrates (469 a.C.), há cerca de 1.500 quilômetros da Grécia, em 1.526 a.C., no Egito, nascia Moisés, que seria conhecido na posteridade como o grande legislador, libertador e profeta para nada menos que as três principais religiões monoteístas do mundo, isto é, para o judaísmo, cristianismo e islamismo.

Após receber o chamado de Deus para libertar os hebreus do Egito, desafiando o poder do faraó, é levado a peregrinar pelo deserto com milhares e, talvez, até milhões de pessoas. Como esse povo havia vivido quatro séculos na condição de escravos, havia necessidade de estabelecer leis que regessem todos os aspectos de suas vidas.

Assim, conta a tradição judaico-cristã que Deus chamou Moisés ao Monte Sinai, onde lhe concedeu duas tábuas de pedra contendo os Dez Mandamentos. Segundo os judeus, Deus entregou não apenas estes ensinamentos sagrados, mas toda a Torá, que equivale aos cinco primeiros livros da Bíblia Cristã.

Na Torá estão inseridos todos os mandamentos que o povo de Deus deve guardar. O ilustre Maimônides, importante filósofo e grande autoridade em relação ao estudo da Lei Mosaica, sistematizou todos os Mandamentos Divinos, sendo 613 preceitos positivos (faça) e negativos (não faça) a serem observados.

Após a entrega desses Mandamentos a Moisés, a história dos hebreus passou a ser marcada pelos Profetas enviados por Deus para alertar o povo acerca da necessidade de obedecer aos Comandos Divinos. Depois de muitos altos e baixos, Deus envia seu Filho, Jesus de Nazaré, para ser o Cristo, o Messias, aquele que tinha por missão libertar o povo, não mais das aflições terrenas, mas sim das espirituais, da escravidão do pecado.

Contudo, o próprio Jesus afirma que não tinha por missão acabar com os Mandamentos de Deus, ou seja, com a “Lei” (Mateus 5:17-18, Lucas 16:17, Romanos 3:31, etc.), e tampouco trouxe novos mandamentos, mas sim uma nova interpretação segundo o coração do Pai e não conforme a hipocrisia da religião da época (Mateus 23:23-25), ampliando a aliança do Eterno para todos os povos (Isaías 42:1-4).

Mario Javier Saban corrobora desse entendimento: “… todas las enseñanzas de Jesús son plenamente judias y que todas ellas se encuentran en la más noble tradición del pueblo de Israel.” (2008. p. 19).

Iniciou-se, assim, o cristianismo que, após ser severamente perseguido, tornou-se a religião oficial do grande e poderoso Império Romano, dando condições para o estabelecimento da Igreja Católica Apostólica Romana – no mundo ocidental, pois no oriente a Igreja Ortodoxa caminhou paralelamente após grande cisma – e teve significativa influência na constituição do mundo moderno, não apenas no aspecto geopolítico, como também nas legislações e na própria configuração das sociedades, o que só passou a ser minimizado paulatinamente após o nascimento da filosofia moderna e seu humanismo.

Apesar disso, em toda cultura ocidental, bem como em sua legislação, é possível ver raízes das matrizes principiológicas trazidas à luz ou, melhor dizendo, reveladas a Moisés no Monte Sinai, as quais, junto com as bases lançadas pela filosofia da Grécia Clássica, descritas brevemente acima, formataram o modo de pensar e viver ao longo da história do mundo ocidental.

Até mesmo filósofos declaradamente ateus, como o francês Luc Ferry, reconhecem a importância dos preceitos cristãos – que, como já afirmado, são fundados nos aspectos morais da Lei Mosaica – na forma como pensamos atualmente: “no plano moral, o cristianismo opera, portanto, uma verdadeira revolução na história do pensamento, uma revolução que ainda se fará sentir até a grande Declaração dos Direitos do Homem, de 1789…” (2010, p. 75).

Ainda, nas palavras de Fábio Konder Comparato, “… a mensagem contida no Evangelho, pela inversão completa da hierarquia tradicional de valores, representou uma das maiores revoluções éticas que a humanidade jamais conheceu.” (2016, p. 455).

Livre de dúvidas, portanto, que a ética transmitida no Monte Sinai, há cerca de 3.200 anos, ainda hoje influencia pensamentos, cultura e ordenamentos jurídicos.

4. A ÉTICA REVELADA NO MONTE SINAI

Como já salientado acima, o judaísmo ensina que Moisés recebeu de Deus, no Monte Sinai, não apenas os Dez Mandamentos, mas toda a Torá, equivalente aos cinco primeiros livros da Bíblia (Pentateuco), contendo diversos preceitos positivos e negativos. Nesses comandos há orientações não apenas de conotação religiosa e ritualística, mas também ética e jurídica, que são os que interessam neste momento.

Da leitura do livro de Levítico (Lv) extrai-se que a a ética transmitida no Monte Sinai exige: respeito familiar (18:6-19); respeito ao casamento (18:20); respeito aos pais (19:3); respeito aos idosos (19:32); bondade com relação aos pobres e marginalizados (19:9-10); respeito ao direito e a propriedade alheia (19:11); respeito à vida alheia (24:17); respeito à integridade física do próximo (24:19-20); lealdade e boa fé nas relações com o próximo (19:12); equilíbrio e lealdade nas relações contratuais (19:13); justiça nas relações comerciais (19:35-36); respeito e honestidade com as pessoas em situação de fragilidade (19:14); justiça e equilíbrio nos processos judiciais (19:15); respeito à honra e fama das pessoas (19:16); que reparemos, com acréscimo, os danos que causamos dolosamente às pessoas (6:2-5); que existam períodos de descansos semanais e periódicos, não apenas para os homens, mas até para animais e para a terra (25:-); ferramentas de redistribuição das riquezas (25:13); mecanismos de assistência social (25:35).

Esses princípios morais são adotados por muitas pessoas, não apenas pelas religiosas, uma vez que têm como base, no mínimo, o respeito ao próximo, o que é impossível de observar se não houver um agir ético (de respeito) frente a família, aos pais, aos idosos, aos pobres, à propriedade alheia, aos processos judiciais, à honra e fama das pessoas, às relações contratuais, comerciais e trabalhistas, e ainda com medidas de redistribuição de riqueza.

CONCLUSÃO: GRÉCIA E SINAI EM NECESSÁRIA COMPLEMENTARIEDADE

A forma grega de pensar e o modo de agir exigido pela mensagem revelada no Monte Sinai são absolutamente compatíveis e até complementares.

Deste modo, não se concorda com Luc Ferry quando, no seu já citado livro, denomina o terceiro capítulo de “A vitória do cristianismo sobre a filosofia grega”, uma vez que essa afirmação passa a impressão de uma competição. Conforme afirmado no início desta análise, não há pretensão em abordar aspectos religiosos e transcendentes desses dois referenciais (grego e hebraico), entretanto importa salientar que apenas no que diz respeito à visão de Deus e da salvação da alma é que houve uma “vitória” da divindade cristã sobre as gregas.

Contudo, na parte racional e moral, entende-se que há complementariedade. Com os pensadores da Grécia Antiga foi possível desenvolver a prática do questionar, refletir, raciocinar e investigar. Já com a revelação recebida por Moisés no Monte Sinai (base do cristianismo) aprenderam-se os valores e condutas universais (inclusive eternas – que Platão tanto almejou encontrar) a serem observadas.

Assim, com os gregos usados como marcos referenciais neste texto (Sócrates, Platão e Aristóteles) conheceu-se a necessidade de uma atitude racional, reiterada e reflexiva que o indivíduo deve ter com relação a si próprio, suas crenças, dogmas e com o próximo. Já a partir da Lei Mosaica, a humanidade foi impulsionada a sair da reflexão e da introspecção para o universo da efetiva ação.

Desta forma, se aprendeu a questionar, duvidar e reconsiderar verdades, inclusive as dos semelhantes (Sócrates), passando a formulações acerca dos conceitos de parâmetros ideais de justiça (Platão) e, ainda, com a observação da realidade empírica que circunda o indivíduo, buscando-se entender qual seria a finalidade de cada coisa e ser vivo (Aristóteles). Com toda essa bagagem, o sujeito foi impulsionado a efetivamente agir em favor de seus semelhantes, independente se pobres, marginalizados ou não, respeitando a vida, a família, a propriedade, as relações de trabalho, as relações comerciais e contratuais e o ecossistema.

Tudo isso com escopo de possibilitar o desenvolvimento das virtudes do ser humano, a busca da felicidade e o bem do próximo, em conformidade com os conselhos de dois grandes mestres: Sócrates, citado por Platão, o qual afirma que “… a única coisa a que deve se ater em suas ações é se são justas ou injustas e se age como um homem bom ou um homem mau.” (2015, p. 46-47), e Jesus, o Cristo, que deixou para a humanidade o ordenamento do “amem uns aos outros” (Jo 15:17).

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução e notas Luciano Ferreira de Souza. 1ª ed. São Paulo: Martin Claret, 2016.

CASONATTO, Odalberto Domingos. Quantas pessoas saíram do Egito para Terra Prometida? 2013. Disponível em: <https://www.abiblia.org/ver.php?id=7078>. Acesso em: 14 nov 2019.

COMPARATO, Fábio Konder. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

FERRY, Luc. Aprender a viver. Tradução Vera Lucia dos Reis. 2ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010.

MAIMÔNIDES. Os 613 Mandamentos Divinos. Rio de Janeiro: Editora Beith Lubavitch, 2013.

MORASHÁ. Shavuot: A outorga da Torá. 2005. Disponível em: <http://www.morasha.com.br/shavout/shavuot-a-outorga-da-tora.html>. Acesso em: 14 nov 2019.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução de Edson Bini. 2ª ed. São Paulo: Edipro, 2015

SABAN, Mario Javier. El Judaísmo de Jesús. 1ª ed. Buenos Aires: Saban, 2008.

STETEOLOGIA. O Nascimento de Moisés. 2011. Disponível em: <https://steteologia.wordpress.com/2011/03/17/o-nascimento-de-moises/>. Acesso em: 13 nov 2019

ZIZLER Rosângela. Influência da ética judaico-cristã nos ordenamentos jurídicos da atualidade. 2013. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/24834/influencia-da-etica-judaico-crista-nos-ordenamentos-juridicos-da-atualidade> Acesso em: 13 nov 2019.

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Sobre o autor

Henrique Lima

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Henrique Lima é advogado atuante em defesas de servidores públicos civis e militares, de trabalhadores da iniciativa privada, de profissionais liberais, de associações, sindicatos e empresas em temas envolvendo direito administrativo, tributário, previdenciário (INSS e RPPS), do trabalho e do consumidor.

 

É mestre em direito pela Universidade de Girona – Espanha e pós-graduado (lato sensu) em direito constitucional, direito do trabalho, civil, consumidor e família. É sócio do escritório Lima, Pegolo & Brito Advocacia (www.lpbadvocacia.com.br) que possui unidades em Curitiba-PR, Campo Grande-MS, Cuiabá-MT, Rio Brilhante-MS, Dourados-MS e Aquidauana-MS, mas atende clientes em vários Estados brasileiros.

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