Cuidado com a lashon hará

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Neste texto quero abordar sobre uma prática que apesar de ser pecado, é comum a ponto de ter se tornado quase “cultural”, fazendo muitos crerem se tratar apenas de uma falta de educação ou, no máximo, uma falha de caráter que precisa ser melhorada. 

Estou falando da “maledicência”, conhecida no meio judaico como “lashom hará”.

Como dica de leitura acerca do tema, recomendo o livro “Uma lição a cada dia – O conceito e as leis do falar adequadamente organizadas para o estudo diário” do rabino polonês Yisrael Meir Kagan, conhecido como Chafets Chaim (1839 – 1933). Esse livro foi organizado para ser lido diariamente e fornece valiosas lições que podem auxiliar aqueles que desejam ser mais cuidadosos no falar.

Logo no início da obra, Chafets Chaim traz uma clara definição do que vem a ser a maledicência. Vou transcrever sua lição:

Lashon hará (lit., maledicência) é definida como informação depreciativa ou potencialmente danosa para outro indivíduo. Uma afirmação depreciativa sobre alguém é lashon hará, inclusive se ela não causar nenhum dano definitivo a essa pessoa. Focalizar os defeitos de outra pessoa é um erro em si mesmo.

Uma afirmação que poderia prejudicar potencialmente alguém – seja ela financeira, física, psicológica ou outra – é lashon hará, mesmo que a informação nãos seja negativa. (Deve-se notar que o termo lashon hará refere-se também às informações verdadeiras que são depreciativas ou danosas. Afirmações negativas que são falsas ou inexatas são denominadas hotsaat shen rá, difamação…).

Ao longo da obra, ele detalha aspectos que fazem parte do conceito e que muitas vezes nos esquecemos em nosso dia-a-dia:

– é maledicência (logo, proibido) transmitir uma informação que, embora verdadeira, tenha potencial de prejudicar;

– é maledicência (logo, proibido) transmitir uma informação que, embora verdadeira, seja depreciativa;

– é maledicência (logo, proibido) transmitir uma informação que, embora verdadeira, cause um dano leve e temporário e

– é maledicência (logo, proibido) transmitir uma informação que não é exata ou, muito menos, verdadeira.

Acerca da importância do cuidado com a fala, o rabino explica que o poder da fala está relacionado à essência da pessoa e também que existe uma “grande recompensa, neste mundo e no próximo, por guardar a língua…”.

Vejamos alguns pontos abordados no livro.

I –

Devemos estar atentos para o risco que existe em espalhar informações ruins, isto é, fatos que, embora verdadeiros, tenham potencial de causar sofrimento, pois pode transformar-se num hábito e, com o passar do tempo, até mesmo tornar-se parte da essência da pessoa. Apesar disso, maus hábitos podem ser corrigidos, contudo exige muita vontade, esforço e persistência. 

Segundo o Talmude, “Devemos sempre despertar esta boa tendência para vencer nossa inclinação para o mal” (Becharot 5a), e nas palavras do Chafets Chaim, “A vida é uma eterna luta contra a tendência para o mal”.

II – 

Com base no Sêfer Yereim, Chafets Chaim ensina que praticar maledicência é semelhante a negar a Deus. Por quê? Pela razão de que quem o faz costuma olhar para os lados para ter certeza de que o alvo não está por perto, como se Deus não estivesse ouvindo. Então, em verdade, age como se Ele não existisse.

III –

Ainda que pareça inofensiva, a maledicência é um dos piores pecados que existe porque é bastante fácil acumulá-lo. Num único dia ou evento, uma pessoa pode cometê-lo dezenas de vezes e dificilmente conseguirá se lembrar de todos para pedir perdão a Deus.

IV –

A dificuldade em alcançar uma fala completamente pura não deve ser motivo para não esforçar nela. Ainda que o resultado total seja difícil de alcançar, isso não significa que não seja possível conquistar vitórias parciais na luta contra maledicência. O comentarista bíblico, Rashi conta que Moisés certa vez falou: “Eu cumprirei tudo o que estiver ao meu alcance ser cumprido” (como comentário a Deuteronômio 4:41). O sábio Salomão aconselha: “Tudo o que estiver em seu poder, faça-o”.

V –

Sempre que uma informação sobre alguém é depreciativa (ainda que verdadeira), por exemplo, uma falha de caráter, ela já se torna automaticamente proibida de ser comunicada, e não importa se é algo atual ou antigo. A vedação persiste mesmo que o aspecto negativo seja utilizado apenas como exemplo para apontar uma falha na própria pessoa que está falando.

VI –

Uma boa forma de saber se um fato, mesmo verdadeiro, teria potencial de causar sofrimento psicológico à pessoa, é imaginar ele sendo contado na frente dela. Se houver constrangimento, então não deve ser contado até mesmo em sua ausência.

Também não convém deixar subentendido que possui informações negativas sobre alguma pessoa mas que prefere deixar de comentar, porque, entre outros motivos, o ouvinte pode supor situações ainda mais graves. Tampouco são permitidos gestos e outros sinais não verbais ou escritos pois também tratam de formas de comunicação.

VII –

Fazer comentários negativos sobre outras pessoas com o cônjuge ou familiares, também é maledicência. O fato de o ouvinte ser uma pessoa íntima, não torna menos errado.

VIII –

Mesmo se a informação não for depreciativa para as pessoas em geral, mas se ela for em seu íntimo (em seu coração), então se torna proibida. Por quê? Porque Deus conhece os corações e sabe a íntima motivação ao transmitir uma informação.

IX –

Mesmo que a pessoa autorize, não se pode falar algo ruim sobre ela. Por quê? Porque estar-se-ia depreciando uma criação de Deus, feita à imagem e semelhança dEle.

X – 

A princípio, falar sobre gostos pessoais não tem problema. Contudo, é necessário sempre deixar claro que não se trata de ineficiência ou de falta de qualidade daquilo que não se gosta. Ainda se deve atentar para as circunstâncias em que ocorre o comentário, para que não seja recebido como crítica ou como informação depreciativa.

XI – 

Diante de tudo isso, quando é permitido fazer comentários de fatos depreciativos ou potencialmente danosos? Chafets Chaim (ob. Cit., pag. 100) ensina que, com muito cuidado, somente é possível falar de aspectos negativos (mas verdadeiros) de uma pessoa se forem preenchidas as seguintes condições:

É permissível falar negativamente sobre uma pessoa:

1. para ajudar a pessoa, ou

2. para ajudar alguém prejudicado pela pessoa, ou

3. para resolver grandes disputas, ou

4. para capacitar os outros a aprenderem dos erros dessa pessoa, sempre que:

4.1 as nossas observações sejam baseadas em informação de primeira mão e investigações cuidadosas, e

4.2 seja evidente que a pessoa está errada, e

4.3 a pessoa tenha sido procurada, mas se recusa a mudar seu comportamento, e

4.4 a afirmação a ser feita seja verdadeira e exata, e

4.5 a intenção de quem fala seja somente positiva (e que haja uma chance razoável de que a meta desejada possa ser atingida), e

4.6 não haja nenhum meio alternativo de produzir o resultado desejado, e

4.7 nenhum dano indesejado seja causado pela afirmação.

Como se nota, apenas e tão somente quando há intenção construtiva, preventiva, protetiva e, mesmo assim, com extremo cuidado – porque Aquele que sonda os corações, estará atento às motivações – e permanente zelo para não haver exagero, pois passaria da veracidade à difamação.

Algo que sempre deve estar presente é a certeza da veracidade da informação, por isso, a preferência de que tenha sido testemunha direta do fato. Passar para frente algo que “alguém disse ter visto” ou que “ouviu dizer” é absolutamente temerário. Mesmo que tenha presenciado o fato, ainda precisa ser analisado todo o contexto e as circunstâncias antes de chegar a conclusões, pois a precipitação pode levar ao pecado por transmitir algo que não foi exatamente o que e como ocorreu.

Mesmo com todo esse cuidado, a informação negativa somente pode ser transmitida se houver razoável chance de ela produzir o resultado que se pretende (construção, proteção, prevenção, etc.).

Quando a intenção é a proteção ou a prevenção, é aconselhável primeiramente tratar do assunto com a pessoa para averiguar se não houve mudança de atitudes.

Por fim, com todas essas cautelas, ainda antes de falar é preciso sondar o próprio coração para ver se o propósito é unicamente construtivo. Se houver qualquer algo a mais (inveja, rancor ou mesmo um leve prazer no mal do outro), não se deve falar.

XII –

Também revela baixeza emprestar o ouvido para quem pratica a maledicência. Segundo Chafets, só o fato de “prestar atenção a lashon hará equivale a dar-lhe algum tipo de crédito, e portanto, é uma violação desta proibição”. Assim, nunca devemos dar atenção a discursos depreciativos e danosos.

XIII –

Quando uma conversa parte para a maledicência, a recomendação é que se esforce para mudar o rumo ou simplesmente afaste-se, pois, segundo o Talmude, é “melhor ser considerado um tolo a vida inteira [neste mundo] do que ser considerado perverso por um instante que seja perante o Onipresente” (Mishná Ediyot 5:6). Da mesma forma que cuspiríamos rapidamente uma comida que soubéssemos envenenada (que no máximo mata o corpo), devemos nos apartar rapidamente de uma conversa venenosa (que tem força de extinguir a alma).

Se tivermos a postura de evitar essas conversas, não demorará para as pessoas se acostumarem a não nos usarem como recipientes de suas maledicências.

XIV –

De modo geral, recomenda-se advertir, mas sem causar constrangimento, quem está praticando a maledicência, contudo, se essa pessoa desconhece que isso é errado ou que a está praticando, deve-se ponderar se é o caso de simplesmente se afastar, pois qualquer repreensão poderia transformar um pecador inadvertido em um pecador intencional. Ainda é desaconselhado advertir quem a pratica quando se tem certeza de que continuará praticando de qualquer forma. Uma boa forma de evitar cair em lashon hará é cuidando das companhias.

OBSERVAÇÕES FINAIS

Chafets Chaim ensina que a palavra tem poder de redefinir a realidade e, por isso, precisamos ser muito cuidadosos ao fazer uso dela.

Antes de transmitir algo depreciativo ou potencialmente danoso acerca de alguém, devemos ter em mente que, às vezes, essa pessoa se arrependeu profundamente daquilo que fez ou daquele traço de caráter que manifestava, e quando se pratica a maledicência, o que acontece é a eternização daquela falha, dificultando e, quem sabe, até tornando impossível a reabilitação da pessoa. Isso traz graves consequências para a vida natural e espiritual do maledicente.

Como salientado no início, falar mal de outras pessoas tornou-se tão comum que parece até que deixou de ser pecado e, portanto, ofensivo a Deus.

As redes sociais estão repletas de maledicência (ainda que de fatos verídicos) e os alvos favoritos são: os políticos; as pessoas que torcem para outro time; aqueles que possuem outra linha de ideologia político; os que professam uma fé diferente (ou mesmo apenas uma igreja diferente), enfim, os alvos são todos os que pensam diferentes do maledicente.

Espero que este texto cumpra um duplo objetivo: 1) despertar a atenção para o fato de que a maledicência é pecado e, mesmo que quase todos façam, deve ser evitada; e 2) incentivar as pessoas a procurarem conhecer mais sobre o assunto, pesquisando, meditando e se esforçando pacientemente para se libertar. O livro que utilizado como base para este texto é profundo no assunto e vale ser estudado: Chafets Chaim: uma lição a cada dia: os conceitos e as leis do modo respeitável de falar, organizado para o estudo diário / Shimon Finkelman, Yitzchak Berkowitz; [tradução de Esther Eva Horovitiz]. – São Paulo: Maayanot, 1998.

Enfim, o maior de todos que já passaram por este mundo, Jesus, Filho de Deus, teve a compaixão em alertar expressamente sobre o cuidado que se deve ter com a fala: “Por isso, vos afirmo que de toda a palavra fútil que as pessoas disserem, dela deverão prestar conta no Dia do Juízo” (Mateus 12:36). Além disso, deve-se ter em mente que de nada adianta tentar praticar a maledicência de maneira secreta, uma vez que “… Deus conduzirá a Juízo tudo quanto for realizado e até mesmo o que ainda está escondido; quer seja bem, quer seja mal.” (Eclesiastes 12:14).

pessoas leram esse artigo
Sobre o autor

Henrique Lima

Sobre o autor

Henrique Lima

Henrique Lima é advogado atuante em defesas de servidores públicos civis e militares, de trabalhadores da iniciativa privada, de profissionais liberais, de associações, sindicatos e empresas em temas envolvendo direito administrativo, tributário, previdenciário (INSS e RPPS), do trabalho e do consumidor.

 

É mestre em direito pela Universidade de Girona – Espanha e pós-graduado (lato sensu) em direito constitucional, direito do trabalho, civil, consumidor e família. É sócio do escritório Lima, Pegolo & Brito Advocacia (www.lpbadvocacia.com.br) que possui unidades em Curitiba-PR, Campo Grande-MS, Cuiabá-MT, Rio Brilhante-MS, Dourados-MS e Aquidauana-MS, mas atende clientes em vários Estados brasileiros.

Saiba mais sobre o autor

Vamos conversar sobre esse assunto?

Preencha o formulário para que eu ou alguém de minha equipe possa entrar em contato com você.

Exames, atestados, apólice, etc. e tudo que você acredita que possa me ajudar entender seu caso

Fale comigo por E-mail ou