07/02/2019

Comentários sobre o livro “O Caminho dos Justos”, escrito por Ramchal em 1740

AUTOR:Henrique Lima - 266 visitas

COMENTÁRIOS SOBRE O LIVRO: “O CAMINHO DOS JUSTOS” ESCRITO POR RAMCHAL (Moshe Chaim Luzzatto, em 1740)

ÍNDICE
Sobre o autor e a obra
Meu objetivo com este resumo
Introdução
1 O dever do homem no mundo
1.1    A finalidade da criação do homem
2    A Precaução
3    A Presteza
4    A Integridade
4.1    Furto
4.2    Relações ilícitas (imoralidade sexual)
4.3    Opressão verbal
4.4    Mau conselho
4.5    Intriga, calúnia e vingança
4.6    Mentira
4.7    Orgulho
4.8    Ira
4.9    Inveja
4.10    Ambição e cobiça
4.11    Meios para alcançar a integridade
5    A Separação
6    A Pureza
7    A Devoção
8    A Humildade
9    O Temor pelo pecado
Conclusão



SOBRE O AUTOR E A OBRA

Moshe Chaim Luzzatto, também conhecido como Ramchal, foi um rabino que viveu de 1707 a 1746, ou seja, viveu apenas 39 anos de idade e, apesar desse pouco tempo, fez muito.

É conhecido por ter sido um dos fundadores da poesia hebraica moderna. Aos 11 anos de idade dominava completamente o Talmude e com a idade de 14 anos escreveu o livro Lashon Limudim,  Foi bastante polêmico entre os eruditos de sua geração, afirmava que “... os homens se dedicavam ao estudo, mas não à essência da vida. Mesmo os mais religiosos e sábios não procurariam a verdadeira integridade e a profunda devoção a Deus.” (10-11)

Aliás, esse ponto de vida foi que o motivou, aos 33 anos de idade, escrever o livro objeto deste texto: “O Caminho dos Justos”.

Ao contrário de outros livros onde há divagações acerca de Deus e do mundo espiritual, O Caminho dos Justos tende a ser um livro prático, com o objetivo de guiar o homem na busca de um caráter de integridade, santidade e devoção.

Sobre esta obra, os estudiosos diziam: “sem conter sequer ‘uma única palavra supérflua’” (Gaón de Vilna – 1720 a 1797) e ainda “Messilat Iesharim (O Caminho dos Justos) deve ser sua bússola” (Chaim de Volojin – 1749 a 1821). 

Isso nos dá um indicativo da relevância desses ensinamentos para nossas vidas.



MEU OBJETIVO COM ESTES COMENTÁRIOS, RESUMO, RESENHA...

Imagino que poucas pessoas conseguiriam dispor de tempo, de interesse em ler completamente uma obra rabínica do século 18 e até mesmo de entendimento sobre alguns conceitos judaicos básicos necessários referidos no livro.

Por outro lado, certamente  muitas pessoas apreciariam se conseguissem ter acesso, pelo menos, à informação básica sobre o caminho que o autor indica como o necessário para ser uma pessoa “justa”, no sentido de correta aos olhos do Criador.

Diante disso, encarei o desafio de selecionar as partes que me pareceram principais do livro – veja que é um livro do qual se disse que que não há “um única palavra supérflua”.

Em alguns momentos, o leitor perceberá que fiz longas citações diretas, simplesmente porque considerei o texto original perfeito e não me sentido capaz de reescrever de modo mais claro. Em outras ocasiões, procurei extrair a essência daquilo que o autor queria transmitir e escrevi com minhas palavras para diminuir a extensão deste texto. Nesses trechos, as palavras são minhas, mas as ideias são completamente do RAMCHAL Perdoem-me se, em algum momento, compreendi mais o texto original e falhei ao transmitir a ideia.

Preciso explicar que em vários momentos parafraseei a redação original, mas sempre com o objetivo de melhor contextualizar o assunto e, principalmente, de transformar a obra num texto mais curto e acessível à maioria das pessoas.

Sempre que coloquei o texto entre aspas (“ “) é porque transcrevi igual ao original. Apenas não destaquei usando maior “recuo” no parágrafo, pois como fiz várias citações diretas (transcrições), ficaria ruim na organização. Após cada citação direta, inclui entre parênteses o número da página na obra comentada.

O livro utilizado foi “O Caminho dos Justos”, escrito por Moshe Chaim Luzzatto, traduzido para o português por Sérgio M. Cernéa, publicado pela excelente Editora e Livraria Sêfer (www.sefer.com.br) em 2002. ISBN 85-85583-31-2.

Enfim, espero que este texto seja útil para a vida do leitor, servindo, como já se disse, como bússola no caminho para se alinhar à vontade e aos mandamentos do Eterno.



INTRODUÇÃO

Em primeiro lugar, devemos ter consciência de que “os sentimentos de santidade, temor e amor a Deus e a pureza de coração não estão enraizados na pessoa de forma natural a tal ponto que não necessite esforços para adquiri-los.” (Pag 16), assim, “... o que responderemos no dia do julgamento se fraquejarmos neste estudo e deixarmos de cumprir a essência do que o Eterno, nosso Deus, espera de nós?” (Pag. 17)

“Se não nos aprofundarmos e analisarmos as questões sobre o que constitui, de fato, o temor a Deus e suas derivações, como será possível consegui-lo e como poderemos escapar das futilidades terrenas que levam nosso coração a esquecê-lo?” (Pag. 17) Importante a lição de “Salomão (Provérbios 2:4): ‘Se você o buscar como quem busca a prata e o procurar como quem procura um tesouro, então você compreenderá o temor a Deus’. Ele não diz que ‘então você compreenderá a filosofia’; ou ‘então você compreenderá a medicina, a astronomia ou o direito legal’. Percebemos, então, que para que o temor a Deus seja compreendido, ele deve ser buscado tal como a prata ou procurado como um tesouro.” (Pag.17-18)

É o mesmo que disse Moisés, em Deuteronômio 10:12: “‘E agora, Israel, o que pede de ti o Eterno, teu Deus? Senão que o Temas, que andes por Seus caminhos, ames e O sirvas, com todo o teu coração e com toda a tua alma; que guardes Seus mandamentos e Seus estatutos...’. Nesta frase se encontram todos os aspectos da perfeição no serviço Divino, realmente apropriados em relação ao Altíssimo, louvado seja. Ou seja: temer a Deus, caminhar por seus caminhos, dedicar-lhe amor e devoção e cumprir Seus mandamentos”. (Pag. 18).

O temor a Deus não é algo de pouco valor, devemos ter “temor à Majestade do Santíssimo; temê-lo como temer-se-ia um poderoso rei, anulando-se a cada momento ante Sua grandiosidade...”. (Pag. 18) E quando se fala em “‘Trilhar seus caminhos’ engloba tudo que está relacionado com o desenvolvimento e a correção dos predicados de caráter”. (Pag. 19) Já, por Amor, devemos ansiar “Que o amor pelo Eterno seja implantado no coração de cada um, para que se eleve sua alma e busque fazer o que agrada ao Santíssimo...”. (Pag. 19)

Quanto a “devoção”, o sentido é de “que o serviço ao Eterno seja caracterizado pela pureza de intenção, e que sua finalidade seja somente servi-lo e nada mais.” (Pag. 19) Por fim, sobre o cumprimento dos mandamentos, devemos entender o “cumprimento de todo conjunto...”. (Pag. 19)



1 O DEVER DO HOMEM NO MUNDO

O fundamento da santidade e a perfeição naquilo que fazemos para Deus depende de termos claro nosso dever neste mundo e a meta a qual devemos voltar toda nossa atenção. 

O propósito de nós, raça humana, termos sido criados é para nos alegramos em Deus e nos satisfazermos “do esplendor de sua Presença”. (Pag. 21). Contudo, esse estado de pleno gozo e contemplação ao Eterno apenas será integralmente atingido no Mundo Vindouro, porém a estrada para alcançar esse lugar está aqui neste mundo. (Pag. 21). São nossas escolhas e atitudes nesta existência terrena que determinarão nosso lugar no Mundo Vindouro.

“Por isto, o homem foi colocado primeiro neste mundo para que, por estes meios, que lhe são proporcionados aqui, ele possa ser capaz de alcançar o lugar que lhe foi preparado – o Mundo Vindouro, onde será recompensado pelos méritos adquiridos através das Mitsvót”. (Pag. 21)

Esse, e apenas esse, tem que ser o objetivo da nossa existência terrena, tudo o mais não passa de distração, vaidades, falsos valores, decepção e vazio.

Neste mundo estamos em constantes provações, muitas coisas esforçam-se em nos afastar de Deus. Tanto a abundância quanto a falta de bens materiais são perigosos. De fato, estamos em uma guerra, tanto a nossa frente como em nossa retaguarda. Apenas se conseguirmos, com o autodomínio, reprimir nossas inclinações malévolas, nossos desejos terrenos e evitar tudo aquilo que nos afasta de Deus é que seremos aprovados e contados como íntegros e fieis.


1.1 A finalidade da criação do homem

Apenas reforçando, “... o homem foi criado não para sua estada neste mundo, mas para sua permanência no Mundo Vindouro, sendo a primeira etapa apenas um meio para alcançar a segunda, que é a meta final.” (Pag. 23) ... “Este mundo é como um corredor em direção ao Mundo Vindouro. – Avot, 4,21” (pag. 21)

Convenhamos, é irracional acreditar que a permanência num mundo com tanto sofrimento, doenças e mazelas de todos os tipos, em que a vida não passa de algumas décadas, possa ser o propósito da criação do homem pelo Eterno. Se é apenas esse nosso propósito, por que recebemos uma alma tão valiosa, que até os anjos exaltam?

Assim, o homem foi criado para que um dia possa estar no Mundo Vindouro, sendo que é neste mundo terreno que tem condições de alcançar seu galardão. Apenas por isso e nessa medida é que deve amar este mundo, pois lhe possibilita preparar caminho para um lugar muito melhor.

Nosso cuidado em andar nos caminhos de Deus e cumprir sua vontade deve ser tanto quanto e muito mais ainda do que aquele que os negociantes de ouro e pedras, que com rigor pesam e avaliam seus produtos.

“Disto depreende-se que a essência da existência do homem neste mundo é o cumprimento das Mitsvót, o serviço a Deus e a resistência às provações, e que os prazeres da vida deveria prestar-se apenas a ajudá-lo, proporcionando-lhe a alegria e a paz mental necessárias à libertação de seu coração para dedicação a objetivos de que foi incumbido.” (25)

Para ajudar no cumprimento desse propósito Divino, baseando-se nos estudos do Rabi Pinchas ben Iair, Ramchal aborda os estágios necessários: a precaução, a presteza, a integridade, a separação, a pureza, a devoção, a humildade, o temor ao pecado e à transgressão, e a santidade.

“A Torá leva à precaução e esta conduz à dedicação; a dedicação leva à integridade e esta conduz a separação; a separação leva à pureza e esta conduz à devoção; a devoção leva à humildade e esta conduz ao temor pelo pecado; o temor pelo pecado leva à santidade e esta conduz à Inspiração Divina que, por sua vez, nos conduz à Ressurreição dos Mortos”. (Rabi Pinchas ben Iair) (Pag. 20).

Doravante, Ramchal aborda diversos aspectos positivos (fazer) e negativos (não fazer) que afastam ou aproximam o ser humano de seu Criador e, de modo muito claro, apresenta ferramentas que podem ajudar aqueles que querem se empenhar nessa empreitada.



2 A PRECAUÇÃO 

Nesse capítulo, Ramchal aborda a necessidade de sermos “precavidos” com relação não apenas ao pecado em si, mas a situações que possam nos levar à transgressão, o que exige que cada um de nós reconheça nossas fraquezas, de modo a estabelecermos limites mesmo dentro do que é lícito, mas que, entretanto, não convém, seja por nós mesmos ou pelos outros.

“O conceito de Precaução indica que o homem deve ser cauteloso em suas ações e empreendimentos; isto é, que ele pondere e esteja vigilante tanto em relação a seus atos como a seus caminhos, avaliando-os de forma a não sujeitar sua alma a perigos (Deus não permita!), e que não se conduza simplesmente por impulsos estabelecidos por hábitos, tal como um cego em total escuridão. Este é o comportamento exigido por sua inteligência. Considerando que o homem possui conhecimento e capacidade de raciocínio para salvá-lo e afastá-lo do perigo da destruição de sua alma, acaso seria concebível que ele, intencionalmente, ficasse cego à sua própria salvação? (...) Quem age assim é inferior às bestas e aos animais selvagens, que por sua natureza procuram se proteger, afastar-se e fugir de tudo aquilo que lhes pareça perigoso ou ameaçador.” (27)

Devemos ter consciência de que o inimigo de nossas almas trabalha constantemente para que não tenhamos tempo (Êxodo 5:9) ou mesmo para que não percebamos a necessidade de frequentemente analisarmos o caminho que estamos trilhando. Ele é astuto e pode facilmente nos enganar, porém temos um Deus sempre ao nosso lado (Salmos 37:32-33). Jeremias já se queixava dessa aparente cegueira em que as pessoas vivem, sem refletir para onde seus caminhos o estão levando (Jeremias 8:6). 

Essa permanente auto-análise é uma obrigação (Agai 1:7 e Provérbios 6:4) e consiste na verificação crítica de todos nosso cotidiano para sinceramente extirpar qualquer ato ou hábito que seja contrário aos mandamentos de Deus e aumentar aqueles que são bons e significam mérito. Cada um de nós deveria separar um tempo diário para fazer essa valiosa auto-reflexão. Provérbios 4:26 orienta: “Reflete sobre a trajetória de teus pés e todos os teus caminhos serão firmes. Busquemos e pesquisemos nossos caminhos e então retornaremos a Deus”.

Ainda no livro de Provérbios (4:19) a palavra diz que “O caminho do maldoso está coberto por negras trevas; ele nem sequer sabe o que o faz tropeçar”, o que significa que uma pessoa que está envolta em maus sentimentos e objetivos perversos, nem conseguirá avaliar seus próprios atos, pois a escuridão, isto é, as “negras trevas” possuem dois efeitos: (1) fazer com que não se enxergue o que há na frente, em outras palavras, a pessoa não reconhece os obstáculos e problemas que tem e terá no caminho que está seguindo e (2) a escuridão faz com que não consigamos identificar corretamente as coisas, confundindo-as, assim, pratica-se o mal, acreditam-se ser algo bom.

Segundo Ramchal, o que mais ajuda a despertar em si a necessidade de Precaução é a leitura e estudo da palavra de Deus. Esse hábito despertará o anseio por uma vida de santidade. Tornando-os bem aventurados, conforme disse Salomão em Provérbios 28:14: “Feliz é o homem que sempre teme.” Teme o que? O pecado. O temor a Deus leva a temer o pecado e a ser precavido.

Diante da evidencia da necessidade de constante afastamento do pecado, alguns podem questionar do porquê de um nível tão elevado de santidade, pois basta a salvação, pouco importando se serão mais recompensados ou não no Mundo Vindouro. Os que assim pensam se lamentarão quando se surpreenderem com algumas pessoas que conquistarão lugares elevados na eternidade e que elas próprias poderiam desfrutar de semelhante intenso nível de gozo e júbilo, e que agora nada mais poderão fazer para melhorar sua situação, conforme ensina o rei Salomão em Eclesiastes 9:10: “Tudo o que a tua mão puder fazer, faze-o com empenho; pois no mundo dos mortos, para onde vais, não existe trabalho, nem reflexão, nem sabedoria, nem conhecimento...”.

A auto-reflexão que leva ao afastamento das más atitudes (Precaução) também é importante diante da severidade do julgamento pelo qual passaremos, quando não apenas as transgressões mais graves, mas todas elas serão levadas em consideração e influenciarão em nossas agradáveis ou desagradáveis recompensas. Salomão afirma: “Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más” (Eclesiastes 12:14).

Diante de tudo isso, alguém pode questionar acerca da misericórdia, que é um dos atributos do Eterno. Se o julgamento é severo e se todas nossas obras serão consideradas, onde está a misericórdia divina?

Ora, é justamente pela misericórdia divina que não somos imediatamente consumidos como punição por nossos pecados. A misericórdia do Eterno se revela em sua paciência para conosco, dando-nos tempo e chance de demonstrarmos genuíno arrependimento e retorno ao caminho correto.

“Ou seja, quando aquele que se arrepende reconhece sua transgressão e admite ter pecado, passando a refletir sobre o mal praticado e se penitencia, desejando fervorosamente que aquele ato jamais tivesse sido praticado, tal como desejaria que uma certa promessa jamais tivesse sido formulada, levando-o a um completo arrependimento, fazendo-o lamentar o ato que jamais deveria ter sido praticado e sofre em seu coração uma grande angústia por já tê-lo praticado, e no futuro dele se afasta e foge – então o ato praticado será erradicado e creditado, levando-o à expiação.” (39)

Por isso, devemos buscar desenvolver um verdadeiro hábito de Precaução, pois quanto menos pecados, menos sofrimento aqui (para sermos perdoados) ou no Mundo Vindouro (para pagarmos nossas dívidas).

Apesar de termos consciência da importância de nos precavermos contra o pecado, ainda assim sofremos para efetivamente conseguir isso. Três obstáculos são decisivos em nos atrapalhar: as atividades e envolvimento terrenos; o sarcasmo e a leviandade; e as más companhias.


a)    Atividades e envolvimentos terrenos

Veja o conselho do Talmude: “Reduza as suas ocupações e ocupe-se com a Torá” (Avot 4,10). Uma pessoa que está completamente ocupada com as coisas terrenas não consegue tempo adequado para se dedicar ao estudo da Palavra de Deus e para a prática das boas obras. Isso vale até mesmo para atividades terrenas que não sejam consideradas em si mesmo pecados, isto é, mesmo que sejam todas elas lícitas e justificáveis, podem se tornar pedra de tropeço e fazer com que a pessoa não tenha tempo para se relacionar com o Eterno, por meio da leitura de sua palavra, da oração, da ajuda a quem precisa, tempo para a análise dos próprios atos, por exemplo.

Existe um ciclo virtuoso, porque a leitura da palavra de Deus fortalece em nós a necessidade da Precaução com relação ao pecado.


b)    Sarcasmo 

O sarcasmo, a leviandade e o riso fácil são obstáculos difíceis de vencer porque “afeta(m) de tal forma o coração da pessoa, que o sentido e a razão deixam de prevalecer, fazendo com que ela se torne como um bêbado ou um tolo simplório que, por não estar apto a aceitar uma direção, impossibilita seu aconselhamento. Como disse o Rei Salomão, que a paz esteja com ele (Eclesiastes 2:2): ‘Em relação ao sarcasmo concluí: ‘É loucura!’, e em relação à alegria me perguntei: ‘A que conduz?’”. (43)

Ainda que a pessoa tenha completa consciência dos efeitos danosos de seu pecado, tanto para esta como para a vida no Mundo Vindouro, a frivolidade faz com que perca o temor a Deus. A pessoa passa, pouco a pouco, a afastar de seu coração às censuras e reprovações, fazendo com que deixe de fazer uma auto-avaliação de suas atitudes, de maneira que apenas com um julgamento punitivo de Deus é que poderá retornar ao caminho. (43) “Preparados estão os juízos para os escarnecedores e os açoites, para as costas dos insensatos” (Provérbios 19:29).


c) Más companhias

Mesmo que já tenhamos cultivado a prática de uma vida de santidade, buscando conectar-se com Deus por meio de Sua Palavra, de orações, de jejuns, de boas obras etc., as más companhias possuem uma influência sobre nós que podem, pouco a pouco, nos levar ao enfraquecimento dessa vida de Precaução e, por fim, nos fazer pecar. 

A bíblia nos alerta para esse perigo: “Quem anda com os sábios será sábio, mas o companheiro dos insensatos se tornará mau” (Provérbios 13:20); “Foge da presença do homem insensato...” (Provérbios 14:7); “Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.” (Salmos 1:1); “Não me tenho assentado com homens vãos, nem converso com os homens dissimulados” (Salmos 26:4).



3 A PRESTEZA

Uma vez precavidos em não fazer aquilo que desagrada nosso Criador, agora trataremos da Presteza, que significa a dedicação, a agilidade, o fervor, o entusiasmo em cumprir os mandamentos divinos. Em Salmos 34:14 está escrito: “Aparta-te do mal e pratica o que é bom...”. (47)

Da mesma forma que o mal tenta nos fazer o que é errado, esforça-se também em nos impedir de fazer o que é certo, por isso, em ambas as situações, é necessário empenho e inteligência.

Um dos grandes empecilhos para a Presteza no cumprimento dos mandamentos é a preguiça. Sobre ela, a Bíblia faz alertas: Provérbios 24:30 e Eclesiastes 10:18. Por outro lado, o próprio Rei David demonstra que a Presteza fazia parte de seu caráter: “Apressei-me, nem por um momento me detive, a fim de cumprir Teus mandamentos” (Salmos 119:60). (50)

Um das facetas da Presteza é o período que antecede a ação. Quando chega o momento de realizar ou quando se tem a ideia de fazê-la, não se pode demorar, pois quanto mais demora, novos obstáculos podem surgir. Outra faceta é que, após iniciada, a pessoa deve apressar-se em concluir a boa ação, não por querer livrar-se dela, mas pela consciência de que ela apenas lhe será computado a favor, quando concluída.

Na Presteza, assim como na Precaução, o estudo da Palavra de Deus e a auto-reflexão de seus atos são os caminhos para fortalecer em si a importância do entusiasmo e dedicação no cumprimento das obrigações positivas exigidas pelo Eterno (ajudar os pobres, v.g.).

Nessa auto-análise, importante considerar todas as bênçãos que Deus lhe concedeu e concede ainda hoje. Não importa a circunstância que esteja vivendo, sempre há o que agradecer e esse sentimento de gratidão, entre outras coisas, ajudará a despertar em si um desejo de retribuir (ainda que seja impossível) por todo bem recebido, fazendo aquilo que O agrada. (55)

Dentre os fatores que atrapalham a Presteza no cumprimento da vontade de Deus, o maior deles é o desejo pelo descanso físico, que é atrelado intimamente ao desejo pelos prazeres. Quem vive segundo essa realidade, certamente que acha o serviço ao Eterno algo pesado.

“Aquele que quiser ter a sua refeição em completo relaxamento e repouso, dormir sem ser incomodado, andar somente num passo folgado e despreocupado e assim por diante, achará extremamente difícil acordar cedo para os serviços matutinos, ou abreviar o jantar para poder orar o seu serviço vespertino antes do anoitecer, ou sair para praticar uma mitsvá se o tempo não lhe convier.” (57) “A pessoa deve entender que ela não está neste mundo para repousar, mas para trabalhar e se esforçar.” (57) “Mas o homem nasce para o trabalho...” (Jó 5:7).

Devemos enfrentar qualquer coisa que se interpuser entre nós e o serviço a Deus, contudo, existe uma advertência com relação aquilo que coloca em risco nossa vida, porque ainda que sejamos justos e praticantes de boas obras, devemos evitar situações perigosas. Em Deuteronômio 4:15 está escrito “Guardai, pois, cuidadosamente, a vossa alma...”. Ou, ainda, “O sábio vê o mal e se esconde; os ingênuos vão em frente e sofrem o dano” (Provérbios 22:3). 

Entretanto, devemos discernir que existe o medo justificável e o medo todo, e Deu nos proveu de discernimento. A orientação é de que devemos nos esconder do mal que podemos enxergar e não ficar imaginando ou prevendo situações mirabolantes. “Não devemos pressupor uma imperfeição onde não a vemos” (Chulin 56b) e “O sábio deve guiar-se apenas por aquilo que seus olhos podem ver” (Baba Batra 131a). A preguiça conduz ao medo. (59)

Enfim, a Presteza está acima da Precaução, porque quem está empenhado em realizar aquilo que Deus mandou, geralmente é uma pessoa que já conseguiu dominar os desejos mundanos, que já está menos suscetível a ceder aos hábitos que o afastam do Eterno, que não é mais controlado pela má inclinação.



4 A INTEGRIDADE

Afastando-se do mal e praticando o bem, Ramchal explica que o homem deve se esforçar em atingir o nível de Integridade, sobre o qual, esclarece:

“Este conceito é alcançado pela pessoa que está completamente isenta de traços negativos e de pecados; não apenas os que como tal são reconhecidos, mas também aqueles que, racionalmente, parecem ser atos legítimos, mas quando encarados com honestidade, mostram que foram admitidos apenas para atender ambições e desejos do coração ainda não totalmente liberto das paixões terrenas, que provocam um relaxamento nos padrões e critérios de julgamento.” (61)

Existe uma notável diferença entre o Precavido e o Íntegro. O precavido apesar de se afastar dos atos pecaminosos, isso ainda é uma luta para conseguir, precisando estar sempre atento e batalhando para vencer sua inclinação malévola. A condição de Íntegro é alcançada quando se habitua a se afastar do mal – ainda que com muito esforço no começo – e a se dedicar a fazer a vontade de Deus. A inclinação ao mal vai diminuindo e vai se acostumando com a condição de pureza, de maneira que o pecado passa a não mais atrair, não mais fazer sentido. Os assuntos terrenos e mundanos vão perdendo valor, até que sua mente limpa e clarificada.

Ser Íntegro é muito difícil porque exige limpar-se não apenas do pecado visível e aceito, mas de qualquer traço de pecado na ação ou na motivação. Os sábios alertam “Muitos sucumbem ao pecado do furto, poucos ao pecado da relação ilícita, e todos a ‘poeira’ da calúnia e da difamação” (Baba Batra 165a). “Estas últimas, em razão da grande sutileza de sua natureza e de sua concomitante dissimulação, levam muitos a sucumbir.” (62)

Dentre os diversos tipos de pecados, dois são muito atraentes aos homens: o furto e a imoralidade sexual, que serão abordados a seguir. Mas há ainda diversos outros que estão relacionados a vida em sociedade e acerca dos quais dificilmente alguém poderá se considerar completamente limpo dele, a saber: a opressão verbal, a desonra, o mau aconselhamento, a intriga, a difamação, a calúnia, o ódio, a vingança e a desforra, o falso testemunho, a mentira e a profanação do nome de Deus. (75)


4.1 Furto

É interessante que quase todos nós não nos consideramos ladrões, porque acreditamos que a ilicitude está apenas quando ocorre a violência (roubo) ou quando se faz algo que é moralmente inaceitável do ponto de vista dos bens materiais. Porém, a verdade é que em muitos aspectos furtamos. Alguns até chegam a acreditar que “Nos negócios, as coisas são diferentes” (65), isto é, que na vida empresarial é permitido levar alguma vantagem além daquela que seria justa. Raba, no Talmude diz: “A primeira pergunta feita a uma pessoa no Julgamento depois da morte é: ‘Você conduziu seus negócios com boa-fé?’”.

Lembremos que “...muitas proibições foram estabelecidas em relação ao furto: ‘Não roubarás’, ‘Não oprimarás’, ‘Não negarás’, ‘Não levantarás falso testemunho contra teu próximo’, ‘Não enganarás o teu próximo’, ‘Não invadirás as fronteiras de seu próximo’”. (65)

Quando o empregador deixa de pagar os direitos de seu empregado, está cometendo o pecado do furto. De igual maneira, quando o empregado furta o tempo que vendeu ao seu empregador, está igualmente furtando-o.

Os antigos rabinos chegavam dispensar os judeus que trabalhavam como empregados de, durante a jornada de trabalho, recitar todas as partes de determinas rezas, para que não usurpassem o tempo vendido ao seu patrão. Era exatamente essa a lição ensinada: quando você aceitava ser empregado de outra pessoa, você estava vendendo aquela parte do seu dia. (66)

“O que dirão, então, aqueles que se ocupam de seus prazeres e abandonam o trabalho? Ou aqueles que durante o seu período de trabalho empenham-se em seus próprios negócios visando ganhos pessoais?” (66)

Nem mesmo para realizar “boas ações” era permitido utilizar o tempo do trabalho, de modo que se o fizesse, essa boa ação não seria creditada em seu favor.

No judaísmo eles acreditam que existe um dia do ano, Yom Kippur, em que o Eterno julga todos os seres humanos e estabelece como será o ano que está se iniciando. Ensinam, contudo, que a expiação no dia de Yom Kippur não tem o poder de perdoar o pecado cometido contra o próximo, pois a transgressão horizontal precisa ser perdoado pela pessoa que foi ofendida. Roubar o tempo é considerado roubo tanto quanto roubar um objeto material.

“... Jó disse sobre si mesmo (Jó 31:7): ‘Meus passos se desviaram do caminho? Meu coração seguiu meus olhos? Alguma nódoa se apegou às minhas mãos?’ Repare a beleza desta comparação: o roubo disfarçado, oculto ou encoberto é comparado a algo que gruda, que fica impregnado na mão da pessoa. Embora ela não tenha tido a intenção de praticá-lo, permanece o fato de a transgressão estar em sua mão.” (67)

Já o pecado do engano está muito presente nos negócios. As pessoas acreditam ser adequado preparar seus produtos de modo a esconder as imperfeições e conseguir vender mais ou usar bons argumentos para praticamente impelir uma pessoa a comprar algo que não deseja e talvez nem precise. “Porém, se a pessoa não analisar e ponderar cuidadosamente suas ações, gerará espinhos ao invés de trigo, pois estará transgredindo e se tornará vítima do pecado do engano, sobre o qual fomos advertidos (Levítico 25:17): ‘E não enganareis cada um a seu companheiro...’.” (68) “É proibido pintar velhos vasos para dar-lhes aparência de novos...” (Baba Metsia 60a). “Mesmo que a pessoa roube menos que uma prutá (centavo) de seu semelhante, é como se tivesse tirado sua alma” (Baba Cama 119a). 

“Se nos perguntarmos: ‘Como é possível que, em nossos negócios, não tentemos influenciar favoravelmente um potencial comprador de nosso produto, seja quanto à qualidade do produto ou se valor de venda?’, saiba que uma grande diferença deve ser estabelecida. O esforço aplicado para mostrar ao comprador o verdadeiro valor e beleza do objeto é adequado e apropriado; porém, o que venha a ser feito para disfarçar ou encobrir as imperfeições daquele objeto constituirá um engano, ou uma fraude e, portanto, é proibido. Trata-se de um princípio elementar de honestidade comercial”. (69)

No Talmude, os sábios chegam a afirmar que “A punição por pesos e medidas desonestos é mais severa do que a das relações ilícitas...” (Baba Batra 88b). (69)

“Há muitos que conseguem a santidade em muitas áreas, mas que não conseguem a perfeição em disfarçar lucros e vantagens desonestas. Como disse Tsofar, o naamateu, a Jó (Jó 11:14-15): “... se lançares para longe de ti a maldade que está em tua mão e não deixares alojar-se a injustiça em tua tenda, então poderás levantar teu rosto sem mancha, estarás firme e nada temerás...”. (69).

Portanto, se pensarmos apenas no ato de se apossar de algum bem material que pertence a outra pessoa, então podemos ser levados a crer que não cometemos o pecado do “furto” ou do “roubo”, entretanto, se tivermos consciência de que objetivo furtado ou roubado também pode ser algo “imaterial”, como o tempo ou as ideias, então certamente perceberemos que facilmente podemos estar em falta nesse quesito perante o Eterno e que, diante disso, precisamos nos corrigir, reparar e voltar ao caminho correto.


4.2 Relações Ilícitas (Imoralidade Sexual)

Com relação a esse pecado, a dificuldade em vencê-lo decorre do fato de que tanto o próprio ato em si deve ser evitado, como tudo o que pode levá-lo a sua prática. Segundo os sábios de Israel, a proibição inclui tocar, abraçar, beijar, admirar, olhar, conversar, falar ou ouvir obscenidades, comentários acerca das relações sexuais e até os pensamentos impuros são proibidos. Orientam que qualquer aspecto da vida que envolva o sexo, deve ser dentro do matrimônio.


4.3 Opressão Verbal

Ramchal fala sobre a opressão “verbal”, contudo, adaptando para nossos dias, a ideia transmitida é a opressão que decorrente da comunicação, pois essa pode acontecer de diversas formas, até mesmo por meio de “curtidas”, comentários, transmissões, encaminhamentos e compartilhamentos em redes sociais ou quaisquer outros meios de comunicação.

“No pecado da tirania e opressão verbal inclui-se o ato de envergonhar o próximo mesmo em conversa privada; mais ainda ao envergonhá-lo em público ou fazer-lhe algo que o leva a ser envergonhado publicamente” (75)

Portanto, sempre que se faz alguma pessoa ser envergonhada, humilhada, constrangida, ainda que essa pessoa esteja realmente errada, se a intenção de quem fala não for apenas e sinceramente ajudar, então, haverá cometimento desse pecado.


4.4 Mau Conselho

Jamais se deve aconselhar uma pessoa com algo que não seja puro e verdadeiro. Algo que o próprio aconselhador faria se estivesse na mesma posição. Aconselhar algo, tendo em vista ter algum benefício pessoal é odioso. Sempre se deve guiar por aquilo que é reto. A única hipótese de se enganar é se o aconselhado pretender cometer o mal, então é um mandamento desviá-lo. “Com o puro Te mostras reto, com o perverso Te mostras sutil” (Salmos 18:26). (76)

A palavra diz que “... diante do cego não porás tropeço...” (Levítico 19:14), o que significa que devemos ajudar aqueles que são fracos e insensatos, não os levando a situações em que poderão ser prejudicados.


4.5 Intriga, Calúnia, Vingança

Ramchal explica que “qualquer declaração ou afirmação que a pessoa faça em relação ao próximo, seja ou não na sua presença, que possa causar-lhe dano ou vergonha, faz parte do pecado da calúnia e difamação;...”. (77)

Em Levítico 19:17-18 está escrito: “Não odiarás a teu irmão em teu coração... Não te vingarás e nem guardarás ódio contra os filhos de teu povo...”. Apesar disso “... é muito difícil ao coração malévolo escapar dos sentimentos de ódio e vingança...”, contudo deve esforçar-se em “... abandonar o impulso de sua natureza e revelar a ofensa para que não odeie aquele que lhe despertou este sentimento...”, de modo que “... se ele conseguir assim fazer, será verdadeiramente um corajoso e forte.” (77)

A má inclinação causa intriga em nossos corações quando apesar de termos perdoado quem nos ofendeu, não nos deixa fazer por completo, assim, quando tivermos a oportunidade, por exemplo, de ajudar aquela pessoa, fazemos menos do que poderíamos e até gostaríamos. Ou deixamos de ser inimigos da pessoa, mas também não nos tornamos amigas. “... a Torá estabelece um abrangente princípio (ibid): ‘... e amarás o teu próximo como a ti mesmo’...”. (78)


4.6 Mentira

Existem vários níveis para esse pecado. 

Há aqueles que são mentirosos por profissão, ou seja, por hábito, que sempre mentem e são falsos. Fazem isso para tirarem proveito de situações. Sobre eles, está escrito: “Os lábios mentirosos são abomináveis ao Senhor...” (Provérbios 12:22). (79)

Há os que “... não costumam inventar ocorrências ou relatar incidentes que jamais ocorreram, mas que, ao darem conta de algo, introduzem na história algumas mentiras conforme suas fantasias, manias ou caprichos. (...) (San’hedrin 89) ‘Eis a punição ao mentiroso: mesmo ao falar a verdade, ninguém nele acredita’”. (79)

“Existem outros cuja doença é mais amena do que aquela dos dois tipos anteriores. Os que se incluem neste terceiro grupo não são contumazes na mentira e na falsidade, mas não têm o cuidado de delas se afastar, e mentem quando a oportunidade se apresenta, muitas vezes por meio de gestos ou trejeitos, sem uma intenção má ou negativa.” (80).

Enfim, não importa se a mentira é praticada de modo frequente, esporádica ou mesmo raramente, não deixa de ser mentira e afastará a pessoa de seu Criador.


4.7 Orgulho

Essa é uma falta que pode prejudicar bastante a pessoa, pois ela deixa de reputar os créditos apenas ao Eterno e passa a atribuir a si mesmo determinada habilidade ou situação, pondo-se no lugar do Criador. Ora, “...somos claramente advertidos (Deuteronômio 8:14): ‘... se orgulhe o teu coração e te esqueças do Eterno, teu Deus’”. (83)

“O orgulho consiste na autocongratulação, fazendo com que a pessoa se considere sempre digna de louvor. Muitas razoes podem ser a causa deste sentimento. Alguns se consideram inteligentes; alguns se acham belos e formosos; outros julgam ser honrados e ilibados; alguns, grandiosos e magnânimos; alguns, certos de serem sabidos e espertos. Afinal, quando um homem atribui a si próprio qualquer mérito extraordinário, ele se coloca no iminente perigo de cair na armadilha preparada pelo orgulho.” (84)

O orgulho pode se expressar de diversas maneiras: na forma de andar, sentar, falar, fazendo tudo com arrogância; quando se pensa ser digno e merecedor de todos os louvores; até quando a pessoa dispensa honrarias por acreditar não mais necessitá-las, então procura demonstrar uma falsa modéstia; quando quer ser conhecida e famosa pelas incríveis qualidades e singularidades que acredita possuir; existem até aqueles que o orgulho não se nota em seus atos, mas está incrustado em seus corações o sentimento de que “... são grandes sábios, que conhecem as coisas a fundo e que não são muitos os que podem esperar se igualar a eles.” (85)

Enfim, acerca dos orgulhosos, a Palavra diz: “Todo soberbo é uma abominação para o Santíssimo...” (Provérbios 16:5).


4.8 Ira

Existem vários níveis de ira. Num deles, a pessoa se irrita por qualquer oposição a sua vontade, perdendo a capacidade de discernimento e de raciocínio. Noutro, a pessoa dificilmente se ira, seja por pequenas ou por grandes razões, mas uma vez irada, dificultoso é conseguir acalmá-la. Outras pessoas, apesar de dificilmente se irarem, quando assim estão, não perdem a inteligência e a capacidade de raciocínio, em que pese continuarem alimentando a cólera. Há, por fim, aquelas que são pouco inclinadas à ira e quando assim estão “não é nem destrutiva nem desgastante; trata-se de uma modalidade amena e branda. Não dura mais do que minutos...” (...) “... tal pessoa é, certamente, digna de louvor”. (87)

A bíblia diz: “Não sejas fácil em irritar-se interiormente: a irritação se aloja no peito do insensato” (Eclesiastes 7:9) e os sábios do Talmude confirmam: “Um homem é reconhecido de três formas: através de seu copo, de seu bolso e de sua ira.” (Eruvin 65b).


4.9 Inveja

Ramchal alerta pra o fato de que “... o invejoso nada ganha para si e de nada priva o outro a quem inveja. Somente ele tem a perder...”. No mesmo sentido, a palavra de Deus diz: “... a inveja acaba com o imbecil.” (Jó 5:2) e ainda “... a inveja é a cárie nos ossos.” (Provérbios 14:30).

Poucos de nós, contudo, nos consideramos invejosos num nível tão severo, contudo é comum sentir alguma mágoa, algum abatimento espiritual “... ao ver algum de seus amigos, desde que não aqueles mais próximos e queridos, elevar-se a um nível superior...”. Para agravar a situação, a falsidade ainda se instala porque “estas pessoas podem dizer coisas que podem parecer refletir sua felicidade e gratidão pela boa sorte que possuem, porém seus corações estarão abatidos em seu interior.” (89)

“Esta é uma reação bastante comum que acomete muitas pessoas que, embora não possam ser classificadas como invejosas, não podem ser consideradas totalmente isentas de inveja. Tais pessoas são especialmente afetadas quando alguém que milita no mesmo campo de trabalho prospera...” (88). 

“Se elas reconhecessem que tudo provém de Deus conforme seu prodigioso julgamento e incomensurável sabedoria, não teriam quaisquer razões para sofrer quanto ao bem-estar do próximo.” (88-89)

O que o autor quis deixar claro e, creio, conseguiu, é que se trata de um pecado “interior”, isto é, que permanece mais no campo de nossos sentimentos, emoções e que, por isso, podemos tentar ocultá-lo, mas que nem por isso deixa de existir e de nos fazer os mais prejudicados por cultivá-los.


4.10 Ambição e Cobiça

Ramchal afirma que “as irmãs da inveja e do ciúme são a paixão, a ambição e a cobiça...”. Já os sábios do Talmude ressaltam: “O homem não morre com metade de seus anseios realizados” (Cohêlet Rabá 1:34). Explica ainda que na natureza humana existem dois anseios são marcantes: “...desejo por riqueza e desejo por honra...”. (89).

“É o desejo por riqueza e por glória que prende o homem aos grilhões mundanos...”. “Quem ama o dinheiro, dele não se fartará...” (Eclesiastes 5:10). “É este anseio que afasta uma pessoa do serviço Divino, pois muitas orações são perdidas e muitas Mitsvót são esquecidas em virtude da excessiva preocupação e da busca pela glória e pelo poder material”. (89)

“O desejo pela glória é ainda maior do que o desejo pela riqueza, pois é possível que a pessoa domine sua inclinação pela riqueza e demais prazeres e, ainda assim, ser pressionado pelo desejo da glória e das honrarias, não podendo tolerar a ideia de estar ou ver-se abaixo de seus amigos”. “Muitos foram pegos e destruídos pelo desejo e pela ânsia da glória.”. (90)

“Se não pela preocupação por sua própria glória, a pessoa estaria satisfeita em comer aquilo que tem ao seu alcance, de vestir-se com aquilo que cubra sua nudez e morar numa casa que lhe proporcionasse abrigo e proteção. A pessoa obteria seu sustento com pouco esforço e não sentiria necessidade de esforçar-se para se tornar uma pessoa rica. Porém, para evitar ver-se abaixo ou inferior a seus amigos, coloca sobre si um cabresto, e não estabelece um paradeiro para sua labuta.” (91)

“Em resumo, o desejo pela glória é um dos maiores tropeços ou obstáculos do homem. Ele não poderá ser um fiel servidor do Eterno...” (91).


4.11 Os Meios para Alcançar a Integridade

“Quando a percepção da responsabilidade para alcançar a Integridade, bem como o anseio por ela, estiverem inculcados na pessoa através da obtenção prévia dos sensos de Precaução e Presteza...” (93) então, com a permanência no estudo dos mandamentos de Deus, assim a pessoa conseguirá alcançar a Integridade.

Deve-se lembrar que “... o cultivo das virtudes de caráter pedem um estudo dos pronunciamentos éticos das autoridades antigas e recentes.” (93). 

“Frequentemente, mesmo depois que a pessoa resolver ser inteiramente íntegra, está sujeita a cometer erros em determinadas áreas, por não ter chegado a penetrar nos domínios de seu entendimento”. (93)



5 A SEPARAÇÃO

A Separação, também chamada de abstinência ou de afastamento, envolve um posicionamento necessário à santificação. Enquanto a Precaução é necessária para a retidão, a Separação é para a Santidade.

No nível da Precaução, evita-se tudo aquilo que é proibido. Por outro lado, na Separação, evita-se aquilo que, embora sendo permitido, pode levar ao que é proibido.

Parte-se do entendimento de que a pessoa deve estabelecer três níveis de proibições: (1) aquilo que a Palavra de Deus proíbe, isto é, o pecado propriamente dito; (2) aquilo que os sábios estabelecem como proteção contra as práticas pecaminosas e (3) aquilo do qual, embora permitido, a própria pessoa resolve se Separar porque conhece suas fraquezas e sabe que pode conduzir ao pecado.

“Pode ocorrer uma pergunta: ‘Se a Separação é tão necessária, e até essencial, por que nossos Sábios não a instituíram, assim como fizeram com as ‘cercas’ de proteção e outras medidas semelhantes?’. A resposta é clara e simples (Baba Cama 79b): ‘Nossos Sábios somente promulgavam leis e decretos que a maioria do povo pudesse com eles conviver’; e a maioria das pessoas não consegue ser santa. Já seria suficiente se fossem justos. Porém, sobre aqueles poucos que desejam conseguir maior proximidade ao Santíssimo e, assim, beneficiar todos aqueles que deles dependem, cabe o cumprimento dos mais elevados deveres, inclusive aqueles que os demais não podem cumprir, ou seja, as medidas de Separação ora descritas.” (99)

A Separação (Santificação) envolve três aspectos: os prazeres, as leis e a conduta.

Quanto aos prazeres, consiste em envolver-se apenas no estritamente necessário com aquilo que representa prazeres desta vida. Nisso incluem-se comidas, conversas, lazeres, atividades físicas, viagens etc.

Quanto as leis, significa que sempre que houver discordância razoável com relação a algum ponto, deve-se optar pelo caminho mais rigoroso. Se as pessoas discutem se algo é ou não pecado, ainda que a maioria decida por não ser pecado, deve abster-se.

Quanto a conduta, implica em separar-se, o máximo possível, dos envolvimentos com as questões e relacionamentos terrenos, para poder dedicar-se apenas ao propósito de Deus. Se tem que trabalhar, envolva-se apenas o necessário para garantir a subsistência. Deve procurar relacionar-se com pessoas que sejam respeitáveis e honradas.

A santificação decorrente da separação das coisas que que afastam de Deus não é atingida de modo repentino, mas aos poucos. Algo que ajuda nesse processo é a pessoa constantemente fazer uma reflexão sobre todos os possíveis efeitos maléficos que aquela conduta, embora permitida, possa trazer, de modo que se limite a desfrutar apenas do mínimo necessário. Por exemplo, se alguém tem a tendência de se fartar do prazer de comer, deve sempre refletir sobre todos os efeitos indesejados que a completa satisfação desse desejo pode trazer. Se é a atividade física, deve-se ponderar sobre os malefícios que podem advir se realizá-las além do necessário para uma vida saudável.



6 A PUREZA

“A pureza se refere à perfeição do coração e dos pensamentos...” (105).

Nesse nível, a pessoa se acostumou a usufruir apenas daquilo que é estritamente necessário (Separação), mas conseguiu até mesmo eliminar de si a inclinação malévola de querer desfrutar de mais que, embora permitido, não seria conveniente.

Noutro aspecto, sempre que cumprir um mandamento de Deus, seja fazendo ou mesmo se abstendo de algo, a motivação não deve ser outra senão agradar ao Eterno, sem esperar qualquer recompensa, honra ou louvor. “... pois o Santíssimo examina todos os corações e percebe as intenções que guiam os pensamentos...” (1 Crônicas 28:9).

Ajuda atingir esse nível, além da cuidadosa reflexão acerca de todos os aspectos negativos daquilo que se quer evitar, também fazer uma adequada preparação e análise do que se vai fazer, isto é, não fazer a s coisas de modo repentino. Por exemplo, se vai orar, antes de começar, fazer uma análise dos benefícios que isso pode trazer para sua vida, para que o coração esteja alinhado (“firmado”) com aquilo que quer fazer, no caso, a oração. “Se, pois, firmares teu coração e para Deus estenderes as tuas mãos...” (Jó 11:13).



7 A DEVOÇÃO

Enquanto a Separação está relacionada aos mandamentos negativos, afastando-se deles a ponto de nem mesmo ter mais o desejo ou inclinação de fazê-los, limitando-se ao mínimo necessário naquilo que nem chega ser proibido e afastando-se até daquilo sobre o qual há divergência, na Devoção o mesmo nível elevadíssimo de comprometimento é buscado mas para os mandamentos positivos, isto é, o Devoto não apenas faz aquilo que as ordenanças determinam, mas vai muito além, através de uma sábia interpretação daquilo para o qual os Mandamentos apontam, tenta extrair qual seria o desejo mais profundo do Eterno e busca satisfazê-lo, ainda que Ele não o tenha exigido e nem mesmo expresso, mas que pode ser inferido através do conjunto de preceitos para determinado aspecto da vida. E mesmo no cumprimento dos mandamentos estabelecidos, quando os cumpre, procura fazê-los de maneira a torná-los ainda mais belo, mais formoso.

Ainda mais profundo é o nível da comunhão, quando ao homem nada mais tem qualquer valor a não ser fazer a vontade do Pai e só com isso se envolve.

Tudo que é feito ao Eterno precisa ser feito com inerente alegria pela consciência de que é um privilégio poder servir, adorar e envolver-se com Seus mandamentos. Até mesmo a Ira, decorrente do Zelo para com Ele é algo que demonstra um alto nível de amor ao Criador, porque repudia todos aqueles que se colocam contra Suas ordenanças.



8 A HUMILDADE

Nesse alto nível de aproximação com o Eterno, a humildade deve ser algo buscado, praticado e preservado, com a consciência de que a pessoa não deve dar muito valor a si mesma, pois não passa de alguém de carne e osso, sujeito a falhas. Algo presente não apenas em seus pensamentos, mas também em suas ações, isto é, na forma de andar, caminhar, falar, sentar etc.

Nesse sentido, a pessoa não deve receber honrarias ou elogios, pois a consciência de suas falhas e limitações devem estar sempre a sua frente.

Algumas coisas atrapalham o atributo da humildade, a abundância de bens terrenos e a satisfação exaustiva com os mesmos. Outra pedra de tropeço é a companhia de bajuladores, a qual deve ser evitada, pois esses têm o poder de roubar o coração da pessoa para o orgulho.



9 O TEMOR PELO PECADO

Chegando ao final, revelando sua nobreza, após a pessoa ter adquirido todas as outras qualidade, deve desenvolver em si o “temor pelo pecado”, não no fácil nível de apenas temer as consequências físicas e espirituais decorrentes pecado, como num sentimento de autopreservação presente em todos homens, mas de temer a própria transgressão em si mesma, como demonstração de honra e respeito ao santíssimo.

A primeira forma de temor – pelas consequências – é mais fácil de desenvolver, contudo a segunda – temor pela Majestade Divina – é bem mais difícil e envolve até mesmo temer que haja algum traço de pecado inclusive em algum de seus atos de cumprimento aos preceitos divinos. Quando ajudou quem precisa, sua motivação era completamente pura em exclusiva honra ao Eterno?

Em Deuteronômio 17:19 está escrito: “e o terá consigo e nele lerá todos os dias de sua vida, para que aprenda a temer o Senhor, seu Deus...”. Isso revela que o temor do Senhor não surge naturalmente, mas precisa ser aprendido com estudo e dedicação diárias.



10 A SANTIDADE

A santidade começa com a pessoa, por esforço próprio, santificando-se um pouco – pois esse é um atributo que ela não consegue atingir sozinha – e depois sendo completamente santificada por obra do Santíssimo, como recompensa pelo sincero esforço. Salmos 84:11 garante: “... e não nega qualquer bem aos que trilham os caminhos da retidão.”.

“O que ajuda a pessoa conseguir esta virtude é muito isolamento e separação, que, ao eliminar as pessoas que agem sobre a pessoa, permite que sua alma cresça em poder e se uma ao Criador” (166).

O que impede atingir esse nível é a falta de entendimento sobre as questões divinas e o demasiado envolvimento com as pessoas e com as questões terrenas. “Aquele que procura a Purificação, nela será ajudado” (Shabbat 104a).



CONCLUSÃO


 
Enfim, espero que os leitores destes comentários fiquem tão impactados quanto eu fiquei com a obra desse importante estudioso da palavra de Deus, que viveu no século XVIII e se sintam motivados a ler e estudar a obra original, que é facilmente encontrada tanto na versão impressa quanto em plataformas digitais.

De modo muitíssimo superficial, poderia dizer que Ramchal nos impulsiona a buscar:
  1. o afastamento das atitudes que significam pecado – isto é, transgressão à Palavra de Deus;
  2. o cumprimento das ações que o Senhor espera de nós;
  3. a extirpação dos maus desejos, das más intenções e de tudo aquilo que possa contaminar nosso interior, para que exterior e interior sejam coerentes;
  4. o fortalecimento de que nosso único desejo consista em fazer aquilo que agrada o Eterno, buscando atingir um estado em que nada mais importa, a não ser viver num espírito de devoção em que todas nossas atitudes e intenções sejam apenas para louvor ao Deus Criador dos céus e da terra.
 
Enfim, tudo isso serve como uma boa meta para nossa existência e, com este texto, creio que podemos ter pelo menos uma indicação de como, pelo menos, começar a buscar atitudes e sentimentos que nos levem ao alvo.

Lembremo-nos que toda jornada, seja ela curta ou longa, começa com o primeiro passo.

Forte abraço,
 
Henrique Lima*
Fevereiro/2019
 
 
 

*HENRIQUE LIMA. Advogado (www.henriquelima.com.br). Mestre em direito pela Universidade de Girona – Espanha e pós-graduado em Direito Constitucional, Civil, do Consumidor, do Trabalho e de Família. Autor de livros e artigos, jurídicos e sobre temas diversos. Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/5217644664058408
 
 

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