27/02/2019

"... Aqui no Céu não aceitamos cheques, apenas recibos."

AUTOR:Henrique Lima - 356 visitas

“... AQUI NO CÉU NÃO ACEITAMOS CHEQUES, APENAS RECIBOS.”

Existe um conto rabínico que revela uma interessante verdade acerca do Reino que Deus e que Jesus, quando esteve conosco, ratificou.

Vou transcrever a história rabínica:

Um homem muito rico, que fora miserável ao longo de toda a sua vida e nunca fizera qualquer caridade, morre e chega ao mundo vindouro. Enquanto aguarda na fila, ele ouve as pessoas à sua frente sendo questionadas: “Quanto você doou para a caridade?” Quando chega a sua vez e também lhe fazem a mesma pergunta, ele responde: “Bem, para ser honesto com você, eu não fiz muita caridade, mas meu talão de cheques está bem aqui comigo. Estou disposto a assinar um cheque de qualquer valor, o quanto você quiser. Sou um homem rico com um patrimônio enorme – nenhuma quantia será problema.”
A resposta vem em seguida: “Eu lamento muito, mas aqui no Céu não aceitamos cheques, apenas recibos.”


Esse conto não fala sobre a “salvação”, mas aborda a questão do galardão, ou seja, da recompensa que cada um receberá de acordo com os atos praticados aqui neste mundo.

Para nós, cristãos, a “salvação”, ou melhor, o “direito de viver no Céu”, já foi conquistado por meio do sacrifício de Cristo, bastando crer nEle. Não há nada que possamos fazer para “merecer” viver a eternidade próximos do Criador, pois na mesma medida em que Ele é valioso demais, nós somos muito imperfeitos.

No entanto, a própria bíblia é repleta de passagens que demonstram que, além da “salvação”, existe a chamada “recompensa” ou “galardão”. Vejamos alguns desses trechos bíblicos:

E, eis que cedo venho, e o meu galardão está comigo, para dar a cada um segundo a sua obra. (Apocalipse 22:12)

Porque o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então dará a cada um segundo as suas obras. (Mateus 16:27)


Esse conto rabínico chama atenção para a importância de praticarmos a ajuda aos necessitados, que, na cultura judaica, é chamada de TSEDACÁ.

Os rabinos ensinam que ter riquezas terrenas não é ruim, pelo contrário, é melhor ser próspero do que ser pobre, pois os bens materiais, se bem utilizados, possibilitam ao homem realizar muitas boas obras que, ao final, serão computadas a seu favor, sopesando-as junto com a intenção de seu coração (que só Ele conhece).

Existe um ditado popular que diz que “caixão não tem gaveta”, numa referência ao fato de que “dessa vida nada se leva”. Isso é uma meia verdade, pois de material realmente nada se leva. Contudo, é possível “enviar” enquanto ainda estamos aqui.

Em Mateus 6:20, Jesus orienta: “... acumulem para vocês tesouros nos céus...”.  Então, surge nossa pergunta: como juntar tesouros nos céus?

É o próprio Senhor Jesus quem responde: “Vendei vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não desgastem, tesouro inextinguível nos céus...” (Lucas 12:33).

Você pode perguntar: “mas é para vender tudo que tenho?”. Não, não foi isso que Jesus pregou. Aliás, até falou, mas foi apenas para o Jovem Rico que praticava a idolatria, pois colocava sua esperança no deus Mamón (dinheiro) (Mateus 19:16-30). Porém, para outras pessoas Ele apenas pede que façam caridade.

Então, surge mais uma pergunta: “com quanto devo ajudar?”

No judaísmo, eles doam um mínimo de 10% (dez por cento) até o máximo de 20% (vinte por cento) da renda que Deus lhes confia para as obras sociais. Existe explicação acerca do porquê desse mínimo e desse máximo, se quiser conhecer, tenho um livro sobre o tema “Tsedacá – Justiça dos Judeus, Boas Obras dos Cristãos” (na internet é possível encontrar ou nesse link: http://henriquelima.com.br/artigos/tsedaca-justica-dos-judeus-boas-obras-dos-cristaos-106).

Mas, e para nós, cristãos, quanto devemos doar para a caridade, isto é, para ajudar os necessitados?

Primeiro precisamos entender que o termo “esmola” é muito ruim e dá a impressão errada de que basta doar algumas moedas e que está tudo resolvido. O próprio Senhor Jesus disse que nossa justiça precisaria superar, em muito, a dos fariseus (Mateus 5:20), então, no mínimo, devemos fazer mais (quantitativamente) do que eles faziam e com o coração muito melhor (qualitativamente).

A verdade é que, sobre o “quanto devemos doar”, para nós, cristãos, não existe uma “regra” impondo mínimo e máximo.

Entretanto, há um princípio: deve ser algo que nos custe, algo além daquilo que “sobra”.

Sobre esse “quanto”, gosto do que escreveu C. S. Lewis, o famoso escritor das Crônicas de Nárnia:

“Não acredito que alguém possa estabelecer quanto cada um deve dar. Creio que a única regra segura é dar mais do que nos sobra. Em outras palavras, se nossos gastos com conforto, bens supérfluos, diversão etc. se igualam ao do padrão dos que ganham o mesmo que nós, provavelmente não estamos dando o suficiente. Se a caridade que fazemos não pesa pelo menos um pouco em nosso bolso, ela está pequena demais. É preciso que haja coisas que gostaríamos de fazer e não podemos por causa de nossos gastos com caridade.” (Cristianismo Puro e Simples. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2013. Páginas 113-114).


Analise a vida de uma pessoa que você conhece e que ganha mais ou menos o mesmo que você. Seu “padrão de vida” (tipo de roupas, carro, passeios, viagens, lazer) é semelhante ao dela? Se for, então, infelizmente, você está destinando muito pouco de sua renda para a ajuda aos necessitados. O ideal é que você não consiga ter o mesmo “padrão de vida” que essa pessoa justamente porque você tem compromissos financeiros com a caridade, que pode ser feita de maneira direta (você doando para alguém) ou por meio de trabalhos sociais idôneos.

A moral do conto rabínico é que o que precisamos fazer, devemos fazer enquanto aqui (na Terra) estamos. Podemos viver na mais absoluta riqueza, porém nossos investimentos no Mundo Vindouro devem ser proporcionalmente deslumbrantes, pois podemos ter doado milhares de dólares e ainda assim ter sido apenas “sobra”.

O rabino Benjamin Blech ensina que “... após a morte, não há mais nada que você possa fazer. As suas oportunidades de fazer boas ações estão todas vencidas.” (Blech, Benjamin. Se Deus é bom, porque o mundo é tão ruim? Editora Sêfer. 2006. Página 72). Lembremo-nos que na história do rico e de Lázaro, o pecado do rico não foi ter sido rico, mas ter deixado de ajudar Lázaro (Lucas 16:19-31).

Por fim, devemos nos lembrar que existem inúmeras promessas bíblicas de prosperidade para aqueles que estendem as mãos aos necessitados. Vale lembrar que não são apenas recompensas no Mundo Vindouro, mas também abundância nesta trajetória terrena.

Forte abraço,
 
Henrique Lima*
Fevereiro/2019
 
 
*HENRIQUE LIMA. Advogado (www.henriquelima.com.br). Mestre em direito pela Universidade de Girona – Espanha e pós-graduado em Direito Constitucional, Civil, do Consumidor, do Trabalho e de Família. Autor de livros e artigos, jurídicos e sobre temas diversos. Currículo lattes: http://lattes.cnpq.br/5217644664058408
 

 
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