A Arte de Envelhecer, segundo o filósofo Cícero

“Qual seria sua idade
se não soubesse quantos anos tem?”
(Confúcio
)

Marco Túlio Cícero, filósofo, senador, advogado e orador que viveu na Roma antiga, no século I antes de Cristo, escreveu um interessan­te livro acerca da questão da velhice.

Na obra, Cícero apresenta lições valiosas tanto para os que já atingiram a “melhor idade” como também para os que caminham em direção a ela. Os ensinamentos apresentam pontos de vista capazes de fazer com que se encare com otimismo e coragem essa importante fase da vida.

Espero que o leitor goste. Faço a ressalva, co­mo sempre, de que a leitura da obra original é deleitosa e, se tiver tempo, indispensável.

Lições sobre a velhice, segundo Cícero

Ele analisa, e refuta, quatro aspectos que fazem com que a velhice seja frequentemente indesejada: impede a con­tinuação das atividades; debilita o corpo; afasta os prazeres e deixa próximo da morte.

Aptidões da velhice

Cícero considera falsa a “acusação” de que a idade avan­çada impede que se continue à frente de negócios, porque as únicas atividades desaconselhadas são aquelas em que se exige o mesmo vigor físico da juventude, isto é, os trabalhos braçais.

Por outro lado, a velhice coloca os idosos em condições de contribuir em funções mais louváveis, que exigem experiência, maturidade e sabedoria. 

O filósofo faz um paralelo com um navio. Seria injustiça se os mais jovens e vigorosos, que sobem mastros, cuidam das velas, percorrem o convés, acusassem o coman­dante de nada fazer pelo fato de ele ficar tranquilamente segurando o leme.

Afirma Cícero que: “não é a força física ou a presteza ou a rapidez do corpo que geram coisas grandiosas e, sim, a sabedoria, a experiência e o discernimento. Dessas qualidades o idoso não só não está destituído, mas, antes, é ele que costuma prestigiá-las”.

Relata que em determinado lugar os magistrados mais importantes são chamados de “velhos”, como uma forma de enaltecimento e não como algo pejorativo. Por fim, ele arremata ser “evidente que a irreflexão assinala a idade juvenil, enquanto a prudência qualifica a velhice”. 

Por isso, as pessoas que atingiram a velhice normalmente têm maior aptidão para funções nobres em que são necessárias sabedoria, sensatez, reflexão e experiência.

Sobre a debilidade do corpo e da mente

A memória só é afetada se a pessoa deixa de exercitá-la. Em suas palavras: “o engenho persiste nos idosos, desde que deem continuidade aos estudos e ao trabalho”. Diz nunca ter ouvido falar de algum velho que tenha esquecido onde enterrou algum tesouro. 

Cita várias pessoas que, mesmo com idade avançada, fi­ze­ram grandes coisas e menciona o caso do filósofo Sófocles. Este, em sua velhice, foi acusado pelos familiares (que queriam sua interdição e posse dos bens) de já não ter condições de administrar seu patrimônio, pois era negligente em assuntos familiares, o que seria indicativo de debilidade. Então, diante do juiz, Sófocles leu um trecho da grandiosa obra Édipo em Colona, que escrevera naqueles dias, o que convenceu os juízes a seu favor, pois alguém incapaz não poderia ter escrito uma obra daquela magnitude. 

No aspecto da condição física, Cícero afirma que, do mesmo modo que um jovem não deve querer ter a força de um touro, um ancião também não precisa da de um jovem, pois a capacidade física que se deve ter e desejar é aquela que se precisa usar, segundo os ofícios mais pertinentes à própria idade.

Ressalta que ter relevantes limitações físicas não é uma condição inerente à velhice, pois, em verdade, elas estão mais relacionadas com as doenças provenientes dos exageros e da falta de cuidado com o corpo durante a mocidade. Para ele “a intemperante e libidinosa juventude repassa para a velhice um corpo debilitado”. A verdade é que existem tanto velhos como jovens com limitações físicas.

Se não houver um descuido com a mente e com o corpo, a velhice não será marcada como uma fase da vida desprovida de vigor. Ele aconselha: “O que importa é usar as próprias forças com parcimônia e desenvolver o esforço dentro dos próprios limites. Quem por isso opta, nunca exagera”.

Conta que Milão entrou num estádio carregando um boi nos ombros e então questiona o leitor acerca do que prefere, a força de Milão ou a genialidade de seu professor, Pitágoras. De qualquer forma, recomenda que se faça bom uso da força física enquanto se a tem, mas que não se lamente quando faltar.

Quanto à saúde, ele aconselha que ela “deve ser preservada pela prática de exercícios moderados, usando do alimento e da bebida para refazer as forças e não para deprimi-las”, porque se “o corpo se fadiga com o peso dos tra­balhos, o espírito se alivia quando exercitado”.

Sobre a ausência de prazeres na velhice

Se a velhice é marcada pela redução da volúpia e dos impulsos libidinosos, então, citando Arquitas de Táranto (filósofo, general e astrônomo da antiguidade), Cícero afirma que nada mais proveitoso para o ser humano do que essa fase da vida, pois é quando melhor pode reinar a dádiva divina, que é a razão.

Lembra que todo crime, todo ato repugnante ao pudor, todo adultério e coisas semelhantes não ocorreriam com tanta frequência se não estivesse presente o impulso libidinoso que empurra o ser humano aos prazeres que geralmente estão por trás dessas transgressões.

A redução da volúpia ainda permite afastar-se da embriaguez, da glutonaria e de outras imoderações, com o be­ne­fício de passar-se a ter mais satisfação na presença do próximo, na conversa, no companheirismo do que na repetição dos cálices e dos pratos. Em suas palavras: “… apreciava-se menos o prazer sensitivo e mais a companhia dos amigos e a conversação”. 

CONTINUA...

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Sobre o autor

Henrique Lima

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Henrique Lima

Henrique Lima é advogado atuante em defesas de servidores públicos civis e militares, de trabalhadores da iniciativa privada, de profissionais liberais, de associações, sindicatos e empresas em temas envolvendo direito administrativo, tributário, previdenciário (INSS e RPPS), do trabalho e do consumidor.

 

É mestre em direito pela Universidade de Girona – Espanha e pós-graduado (lato sensu) em direito constitucional, direito do trabalho, civil, consumidor e família. É sócio do escritório Lima & Pegolo Advogados Associados (www.limaepegolo.com.br) que possui unidades em Curitiba-PR, Campo Grande-MS, Cuiabá-MT, Rio Brilhante-MS, Dourados-MS e Aquidauana-MS, mas atende clientes em vários Estados brasileiros.

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