04/02/2019

Tsedacá - Justiça dos Judeus, Boas Obras dos Cristãos

AUTOR:Henrique Lima - 104 visitas

DEDICATÓRIA

Dedico este livro em primeiro lugar a Deus, o Eterno, Aquele que Criou os Céus, a Terra e tudo que existe, por ter me dado a oportunidade de viver e, de alguma maneira, colaborar com o Seu propósito. O que mais quero é, no final de tudo, ser aprovado por Ele.

Dedico também a todos os que, assim como eu, anseiam por ver a Igreja de nosso Senhor Jesus Cristo servindo nas mãos de Deus como ferramenta de transformação de vidas, cuidando não só das necessidades espirituais, mas também das carências materiais daqueles que padecem.




AGRADECIMENTOS

Agradeço primeiramente minha esposa, Raquel Casal A. O. Lima, pelo simples fato de ser, no plano natural, a pessoa mais importante de minha vida e que me presenteou com os tesouros que são nossos filhos, Enzo, Giovanah e Vitório, os quais chamamos, respectivamente, de Esforçado, Corajosa e Determinado, pois diz muito do caráter de cada um.

Aos amigos que procuraram me incentivar com valiosos livros que foram fontes inestimáveis de consulta, dos quais destaco o Pr. Fernando Loureiro, que sempre me presenteia com tesouros literários.

Ao Pr. Dinho, que me fez entender que não há nada mais valioso do que uma vida focada em tentar cumprir o propósito individual pelo qual cada um de nós está neste mundo.

Aos meus sócios de escritório, Dr. Paulo de Tarso Pegolo e Dr. Guilherme Brito, que, por estarem ao meu lado diuturnamente na jornada profissional, permitem-me concentrar meus esforços cada vez mais naquilo para o qual Deus me capacitou com dons e talentos.

À irmã de fé, pastora e colega de trabalho, Mourâmisse de Moura Viana, pela paciência em ler e reler esse material, ajudando-me na correção, adequação e disposição dos textos. À colega de trabalho, Dra. Jhenny Andrade Viana, por sua valiosa ajuda também na revisão do texto.

Ao meu pai, Dr. Cícero Alves de Lima, que, através do exemplo, ensinou-me a ter amor pela leitura.

Ao ministério IHOP que, por meio de seus arquivos de “devocional”, forneceu o fundo musical que tornou a elaboração deste livro ainda mais agradável.




PREFÁCIO

No decorrer dos tempos e com as mudanças da sociedade, muitos valores e tradições antigas acabam se perdendo e dando lugar a uma nova mentalidade e forma de organização social. Esse processo normalmente traz alguns benefícios para o ser humano, mas também carrega enormes prejuízos, tornando o homem cada vez mais egoísta e distante de princípios divinos.

O cuidado com o necessitado é um dos princípios quase esquecidos pela igreja cristã das últimas décadas. É impressionante como um tema tão claro e de tão grande relevância na Palavra de Deus tenha sido ofuscado, a ponto de não encontrar mais espaço nos púlpitos e no ensino da fé cristã. A priorização da evangelização mundial, sem ensinar os discípulos a guardarem “todos” os mandamentos de Jesus, gerou um cristianismo fraco e sem o poder transformador vivido pela igreja cristã dos primeiros séculos.

Dos mandamentos que praticamente foram abandonados na fé cristã, o maior deles, provavelmente, foi o de fazer justiça ao necessitado. Jesus não deixou esse mandamento para o governo, mas sim para a Sua igreja. O que importa agora não é explicar o que aconteceu com o cristianismo, onde a igreja errou e em que momento da história princípios e valores foram perdidos. O mais importante é retornar imediatamente à essência do evangelho. Para isso, é necessário que homens de Deus se levantem e recuperem o ensino abandonado.

Para mim, é um privilégio e uma grande responsabilidade ser pastor do autor desta obra. O Dr. Henrique Lima é um cristão sincero, que sempre que compreende um mandamento da Palavra de Deus, passa a praticá-lo imediatamente. Sua capacidade racional aguçada faz dele um investigador dos princípios da Palavra de Deus. É um cristão que não se move pela emoção, mas sim pelo conhecimento da verdade. Como os bereanos, examina cuidadosamente na Bíblia tudo aquilo que lhe é ensinado.

Lembro-me de quando o Dr. Henrique, que já havia recebido algumas palavras proféticas sobre prosperidade financeira, manifestou uma grande preocupação em não se deixar corromper pelo dinheiro. Apesar de bastante jovem, vinha tendo um excelente desempenho em sua carreira profissional, o que lhe dava rendimentos acima de suas expectativas e necessidades. Temeroso em não saber lidar com um eventual enriquecimento, e não querendo elevar o padrão de consumo de sua família, quis estabelecer limites para seu patrimônio, de maneira que lhe pudesse dar um sustento razoável e depois passar a viver para a obra. Porém Deus usou um profeta, que nada sabia a respeito do assunto, para perguntar “quem era ele para estabelecer limites naquilo que Deus queria fazer?”. Desde então, o Dr. Henrique passou a buscar um entendimento profundo em Deus a respeito de finanças.

A resposta de Deus não tardou. Aos poucos o Dr. Henrique foi se deparando com textos de grandes expoentes do cristianismo do passado e da sabedoria rabínica. Os textos bíblicos e o entendimento sobre o princípio da justiça ao necessitado explodiram diante de seus olhos. Imediatamente, ele começou a praticar o princípio e a compartilhar o assunto com todos ao seu redor. Estou certo de que Deus revelou algo precioso ao Dr. Henrique para que ele anunciasse a igreja de Cristo e a chamasse de volta às origens.

Acredito que esta obra seja o melhor material cristão, escrito na língua portuguesa, sobre o assunto. Não é um livro de conhecimento teórico-científico e de posições teológicas, é um chamado vivo de Deus para a igreja cristã voltar às boas práticas do amor ao próximo. Creio que sua vida será impactada por esse tema e será canal de benção para você e para muitas pessoas que vivem ao seu redor. Boa leitura e boas práticas da fé cristã!

Gladiston Riekstins de Amorim (Pr. Dinho)
Pastor presidente do Ministério Atos de Justiça




SUMÁRIO

Dedicatória 
Agradecimentos 
Prefácio 
Introdução
Significado de Tsedacá
A Reciprocidade Do Céu
A Parábola Do Bom Samaritano
O Mandamento Das Obras de Justiça Com Amor
Quem Deve Praticar Tsedacá
Quem Pode Receber Tsedacá
Como Dar Tsedacá
Das Contribuições aos Fundos Destinados Às Boas
Obras, Ação Social, Solidariedade, Caridade, Etc.
Quanto Destinar Para as Obras Sociais
Consequência: “Até Que Seus Lábios Se Cansem De
Falar Basta”
Um Exemplo Interessante
Passagens Bíblicas Que Revelam O Cuidado Especial De
Deus Com As Pessoas Em Situações De Necessidade
Conclusão
Referências




INTRODUÇÃO

O assunto finanças é sem dúvidas de grande importância, e foi constantemente abordado por Jesus quando veio nos ensinar como viver. Apesar das divergências sobre quantas parábolas Ele contou (30, 36, 40, 46, 60), o que chama a atenção é que cerca de 15 delas tratavam do tema e, pelo menos, 20% de seus ensinamentos tinham esse foco. Vários demônios são citados nas escrituras, mas apenas um foi chamado de “senhor”: Mamon, espírito das trevas que age nos assuntos relacionados aos bens materiais. A razão de tudo isso foi bem expressada por Billy Graham, o mais proeminente evangelista do século XX e conselheiro espiritual de vários presidentes americanos: “Se uma pessoa tiver uma atitude reta em relação ao dinheiro, isso ajudará a endireitar quase todas as outras áreas de sua vida.” 

Dos 613 mandamentos judaicos, ou mitsvas, atualmente apenas cerca de 270 ainda são observáveis e, desses, boa parte, por volta de 120, referem-se ao relacionamento do homem com os bens materiais. Apesar de Deus e Jesus dedicarem tanto esforço para nos orientar nessa área, percebo que o tema causa constrangimento em muitas pessoas que procuram ter uma vida de verdadeira santidade. A impressão que tenho é que ler, falar ou procurar entendimento sobre finanças, para parte dos cristãos, parece incompatível com uma vida espiritual.

Entretanto, acredito que essa rejeição será quebrada, porque existem promessas de Deus em transferir recursos dos ímpios para os justos, ou seja, daqueles que não buscam andar nos caminhos do Senhor para aqueles que se esforçam nisso. Mas, é necessário conhecermos o propósito da prosperidade que virá, e este é o objetivo deste livro, ajudar a evitar que a Igreja se perca utilizando os recursos apenas para seu próprio conforto e, consequentemente, atraia o juízo de Deus sobre si.

É saudável a busca por uma condição financeira que possibilite para si e para a família uma vida confortável. O que não condiz com os princípios cristãos, tampouco com aquilo que Yahweh falou por meio dos profetas, é o acúmulo do dinheiro apenas para o próprio deleite, sem o propósito de ser canal de bênçãos na vida de pessoas e no Reino de Deus.
Para os cristãos católicos, a avareza é considerada pecado capital por ser raiz que induz a prática de outros pecados como o egoísmo, a idolatria e até mesmo o ciúme. No Evangelho de Lucas (12:15), Jesus nos alertou a termos cautela e a nos guardarmos de “(...) toda e qualquer avareza; porquanto a vida de uma pessoa não se constitui do acúmulo de bens que possa conseguir”.

Entendo que “Semeadura e Colheita” é um princípio bíblico, porém, há muitos que, fundamentados na Teologia da Prosperidade, pecam por tentarem barganhar com Deus. Essas leviandades no trato do assunto “dinheiro” geraram nos cristãos que são fiéis aos princípios bíblicos uma resistência em aceitar que uma vida próspera e abençoada inclui o aspecto financeiro, que não se confunde com o acúmulo para interesses egoístas. Pode até haver profusão financeira, mas não necessariamente (como uma regra), o mais importante é o sincero sentimento de satisfação com aquilo que se tem.

É comum na história da humanidade que um determinado assunto, antes de atingir sua maturidade, primeiramente penda para o fundamentalismo, e depois, por conta de abusos, penda para a outra extremidade. São fases importantes de serem experimentadas a fim de encontrar o equilíbrio entre os dois opostos. Y. David Weitman, rabino belga, chefe da sinagoga Beit Yaacov, articulista e palestrante, no prefácio de seu livro “A arte de ser mais gente: aperfeiçoando nosso caráter”, cita Maimônides, grande filósofo judaico do século XII, e explica que existe um “caminho de ouro”, no equilíbrio entre dois extremos.

Maimônides nos ensina que de acordo com a filosofia judaica existe um caminho mediano, o caminho de ouro, entre dois extremos. Ele prossegue dizendo que, enquanto as extremidades são negativas, o caminho mediano é o caminho correto que devemos seguir. A título de exemplo, a virtude da generosidade é o caminho do meio entre a avareza, em um extremo, e o esbanjamento, no outro; ambas sendo características indesejáveis. 


Como houve uma época em que a busca por conquistas materiais predominava na igreja, e por consequência alguns líderes eclesiásticos atualmente rejeitam abordar a prosperidade, é esperado que doravante se passe a viver um momento de busca por discernimento sobre o propósito dos bens materiais e os princípios que o regem. Movido por muitas indagações, busquei entender a visão de Deus sobre esse assunto. Tive o privilégio de ter, como discipulador, o Pastor Gladiston Amorim, carinhosamente chamado de Pr. Dinho, presidente do Ministério Atos de Justiça. Ele me ensinou acerca da importância de procurarmos conhecer o propósito de Deus para nossas vidas, isto é, da necessidade de saber aquilo que Ele planejou “(...) antes da fundação do mundo” para nossa existência e, uma vez encontrado, caminhar nesse sentido.

Sempre que Deus usou profetas para falar comigo (Ap. Luiz Hermínio - MEVAM, Pr. Rafael Conrado e Mis. Amaro de Melo), a mensagem central era a mesma: ser provisão no Reino. Entendi que nesse aspecto está incluído conhecer a visão do Pai sobre tão importante área da vida, praticá-la e compartilhá-la a fim de abençoar outras pessoas. Para começar minha jornada, foram-me úteis dois conselhos, o primeiro do filósofo libanês Khalil Gibran, que disse:

Procure o conselho dos mais velhos, pois os olhos deles já viram as faces dos anos e os ouvidos já se fortaleceram diante das vozes da vida. Mesmo que os conselhos que derem forem desagradáveis para você, preste atenção neles. 


O segundo foi do jurista brasileiro J.J. Calmon de Passos: “Os gigantes de ontem só nos são úteis se permitirem que, subindo em seus ombros, possamos ver além do que foram capazes de vislumbrar” . Assim, minha busca por revelação se iniciou pedindo orientação ao Espírito Santo, que me levou a procurar, principalmente, nos sermões dos antigos pregadores do Evangelho. Destes o meu favorito é John Wesley, que viveu de 1703 a 1791, considerado um dos maiores avivacionistas protestantes. Pregava a necessidade de uma vida cujas atitudes estejam alinhadas com os princípios que Jesus ensinou e não baseada em momentâneos sentimentos. Calcula-se que pregou cerca de 40.000 sermões, os quais influenciam ainda hoje a vida de milhões de pessoas.

Muitos citam John Wesley, contando, inclusive, fatos notórios como as marcas que seus joelhos deixaram no chão da sala de sua casa de tanto orar e permanecer na presença de Deus, mas são poucos os que leem suas pregações e menos ainda os que procuram viver segundo aquilo que exortou. Tal como Jesus, o assunto dinheiro era algo frequente em suas pregações, pois sabia a importância que representava e ainda hoje representa na vida das pessoas. No sermão “As causas da ineficiência do cristianismo”, ele sustenta que o apego ao dinheiro  faz com que o Evangelho deixe de alcançar todo o mundo e, em um determinado momento do sermão, lembra o conselho que deu aos seus irmãos metodistas, de que deviam ganhar tudo que pudessem, economizar tudo que pudessem e dar tudo que pudessem:

Das três regras que estão colocadas no título do sermão sobre “O Espírito de Cobiça da Iniquidade”, você pode encontrar muitos que observam a primeira regra, ou seja, “Ganhe tudo o que puder”, você pode encontrar poucos que observam a segunda, “Economize tudo o que puder”; mas quantos você tem encontrado que observam a terceira regra, “Dê tudo o que você puder?” 


Ele afirma que por terem sido muito hábeis em praticar as duas primeiras regras, ou seja, “ganharem o máximo e gastarem o mínimo”, é natural que enriquecessem, porém se esqueceram da terceira parte: ‘dê o máximo’. Esclarece que talvez tenham deixado de doar o dinheiro por medo de empobrecerem, mas lembra na sua pregação que há um grupo de irmãos, os Quakers, que praticaram o ato de dar o máximo e tornaram-se dez ou cinquenta vezes mais ricos que os metodistas!

Mas é possível suprir todos os pobres em nossa sociedade com as coisas necessárias à vida? Foi possível, uma vez, fazer isso em uma sociedade maior do que essa. Na primeira igreja de Jerusalém não havia alguém entre eles que passava necessidade, mas a distribuição era feita para cada um, de acordo com o que precisava. E nós temos provas completas de que é possível se fazer dessa forma. É assim entre o povo chamado Quakers. Sim! Entre os Morávios, assim chamados. E por que não poderia ser conosco? Por que eles são dez vezes mais ricos do que nós? Talvez, cinquenta vezes! E ainda assim nós somos capazes o suficiente se nós temos, igualmente, boa-vontade para fazer isso! Um cavalheiro (um Metodista) disse-me alguns anos atrás: “Eu devo deixar quarenta mil libras entre meus filhos”. Agora, suponha que ele deixasse para eles vinte mil, e desse os outros vinte mil para Deus e para o pobre, poderia Deus dizer a ele: “Tu, tolo?”. E isso colocaria toda a Sociedade acima das necessidades.

Mas eu não irei falar, em dar para Deus, ou deixar metade de sua fortuna. Você pensaria que é um preço muito alto para o céu. Eu virei para condições menores. Não existem alguns poucos entre vocês que podem dar cem libras; talvez alguns que podem dar mil, e ainda deixar para seus filhos, tanto quanto os auxiliaria trabalhar para a própria salvação deles? Com duas mil libras, e não, muito menos, podemos suprir as necessidades presentes de todos os nossos pobres, e colocá-los em um caminho para que possam suprir as próprias carências para o tempo vindouro. Agora suponha que isso possa ser assim; nós somos transparentes, diante de Deus, enquanto isso não é feito? Não é a negligência disso uma das causas porque muitos ainda estão doentes e fracos, entre vocês, de alma e corpo? Que eles ainda afligem o Espírito Santo, por preferirem as modas do mundo aos mandamentos de Deus? E eu muitas vezes duvido, se não é uma espécie de inclinação. Eu duvido se não é um grande pecado mantê-los em nossa Sociedade. (...)


Ressoava essa pregação em meus ouvidos. Mas permaneciam dúvidas, então busquei orientação em livros de outros autores e também nos ensinamentos judaicos para aprender mais sobre a visão de Deus a respeito de finanças. Foi assim que cheguei ao conceito de TSEDACÁ, TZEDAKA ou TZEDAKAH, em volta do qual gravita a temática deste livro. Existem muitas informações e bastante material judaico sobre o assunto, entretanto, infelizmente, pouquíssimo ou nada encontrei na literatura cristã protestante. 
Como não tenho dúvidas de que será útil na vida dos irmãos, assim como tem sido na minha, dediquei-me a melhor compreender esse conceito para tentar transmiti-lo da maneira mais didática e clara que for possível. Apesar de o judaísmo e o Antigo Testamento serem as fontes primordiais de pesquisa, considerei essencial analisar o assunto também sob a ótica da revelação do Novo Testamento, pois, conforme disse Aurélio Agostinho, mais conhecido como Santo Agostinho (354 a 430 d.C.), e reconhecidamente um dos teólogos mais importantes do cristianismo: “O Novo Testamento está oculto no Antigo, e o Antigo é revelado no Novo”.




I – SIGNIFICADO DE TSEDACÁ

Tsedacá é a prática judaica de auxiliar os pobres e os necessitados em suas carências, destinando regularmente parte das rendas e dos bens para tornar isto possível. Essa prática, porém, é feita não como um ato de caridade ou benevolência, porque há o entendimento de que os recursos e os bens não pertencem aos homens, mas a Deus, O qual confiou a posse deles às pessoas para que os administrem como bons mordomos e pratiquem aquilo que é justo, não os utilizando somente para as necessidades e para o conforto da própria família, mas também para dar assistência aos que se encontram em estado de vulnerabilidade.

Os estudos judaicos a descrevem como uma das 613 mitsvas (obrigações positivas e negativas - fazer e deixar de fazer) que o povo judeu deve observar, sendo apontada em vários textos como uma das mais importantes obrigações. Eles inclusive acreditam que a salvação vem por meio das três práticas: teshuvá (arrependimento, voltar aos caminhos da Torá) ; tefilá (orações) e tsedacá (atos de justiça). Eis uma boa definição:

Tsedacá é a palavra hebraica para os atos que denominamos “caridade” em português: dar apoio, auxílio e dinheiro para o pobre e necessitado. A essência da tsedacá, porém, é muito diferente da ideia de caridade. O termo “caridade” sugere benevolência e generosidade, um ato magnânimo realizado pelo homem rico e poderoso em benefício do pobre e necessitado. A palavra “tsedacá” deriva-se da raiz hebraica “tsadi, dalet, cof”, que significa “retidão”, “justiça” ou “equidade”. Segundo o judaísmo, dar ao pobre não é visto como um ato generoso e magnânimo; trata-se, simplesmente, de um ato de justiça e honradez, o cumprimento de um dever, dando ao pobre o que lhe é devido. 


Uma de suas características é a compreensão de que os bens e a provisão são dados por Deus, não sendo frutos de merecimento pessoal, e qualquer mérito somente será devido se a pessoa se mostrar fiel depositária daquilo que lhe foi confiado. Sobre isso o rabino Weitman afirma:

O Compassivo colocou alguns dos recursos da terra em nossa posse, e através do mitzvah de tzedakah, compartilhamos esses recursos com os necessitados. Para cumprir adequadamente a mitzvah de tzedakah, no entanto, é preciso primeiro lembrar que somos apenas os guardiões, e não os proprietários da terra e seus recursos. 


É por isso, inclusive, que ele diz que deveríamos agradecer ao desprovido que aceita ajuda: 

Teoricamente, ao fazermos tsedacá, deveríamos falar “muito obrigado” para o pobre pelo simples fato dele aceitar a caridade, visto que o rico apenas restituiu algo que de fato nunca pertenceu a ele, mas tão somente ao pobre. 


A ajuda aos necessitados não é algo baseado na bondade, mas na “justiça”, entregando bens a quem eles pertencem por direito. Essa concepção é reforçada com o que explica o rabino americano Naftali Silberberg: “O sentido literal de tsedacá é “justiça”. É simplesmente a coisa certa e justa a fazer; ao passo que a palavra caridade denota um ato que vai além do chamado do dever, um ato eletivo, embora louvável.” 

Deus não conhece limites e poderia suprir os carentes sem a nossa participação. Entretanto, Ele quer que sejamos instruídos com o espírito de bondade e humildade. Mas, para isso ser gerado e fortalecido em nós, precisamos ter atitudes com características de justiça, quais sejam: o dar e o receber. Sobre isso, o rabino Eliezer Shemtov relata uma história descrita no Talmud:

Turnus Rufus (o governador romano) perguntou a Rabi Akiva: “Por que vocês judeus agem em contrário de Deus? Se Deus criou ricos e pobres, qual o sentido de dar dinheiro aos pobres? Se Deus quisesse que aquele pobre tivesse dinheiro, Ele o daria diretamente!” E assim respondeu-lhe Rabi Akiva: “É justamente para cumprir com o plano Divino, para que haja bondade no mundo. Se todos tivessem tudo aquilo que necessitam, e não precisassem nada de ninguém, como seria possível gerar-se bondade e generosidade?  Um dos principais motivos pelo qual Deus criou o mundo é justamente para que haja bondade. E é por meio da tsedacá que se consegue que este objetivo se cumpra! 


Além do mais, a riqueza e a pobreza são dois testes. No primeiro, serão testados nossa fidelidade, desprendimento, generosidade e bondade. É considerado o mais difícil. Já no segundo, serão provadas nossa humildade e nossa confiança N’Ele. Mas os rabinos ensinam que os grandes sofrimentos provenientes da privação de bens como alimento, roupa e moradia, farão com que o critério do julgamento eterno seja menos rigoroso. O apóstolo Paulo foi submetido a essas provas e aprendeu a contentar-se tanto na abundância quanto na escassez e ensina que isso foi possível porque mantinha a confiança no Criador, por meio de seu Filho (Filipenses 4:11-13).

Hashem testa a pessoa de duas maneiras: com a riqueza ou com a pobreza (vide Shemot Raba 31). E por isso, os pobres acham que seria preferível serem testados com riqueza ao invés de pobreza. Eles não percebem que o teste da riqueza é mais difícil do que o da pobreza. “Remova a falsidade e as mentiras para longe de mim; não me dê pobreza nem riqueza, alimente-me com o pão a mim designado. Pois talvez eu fique saciado e renegue, dizendo: ‘Quem é Hashem?’. Ou talvez eu seja pobre, e roube, e profane o Nome de meu Deus.” (Mishle 30:8-10) Porque o pobre pode pecar ao jurar em vão e ao roubar, enquanto o rico pode pecar ao negar Hashem, um pecado cardeal que equivale a transgredir toda a Torá. Baseado em Rabi Moshe Alshich sobre a Torá, Parashat Behar. 


 Apesar de os judeus ressaltarem que tsedacá é diferente de “caridade”, “boas obras”, “obras sociais” ou de “obras de misericórdia” (neste livro usaremos indistintamente esses termos), não temos como deixar de notar a semelhança no resultado, que é ser fonte de auxílio ao pobre, ao faminto, ao necessitado, aos órfãos, às viúvas e a todos os vulneráveis. A diferença não é em relação ao resultado final, mas sim em relação à motivação, pois enquanto eles a praticam por obrigação, “por ser a coisa certa e justa a fazer’, nós, cristãos, devemos fazer por amor ao próximo, do contrário, “nada disso me aproveitaria” (1 Coríntios 13). Dessa forma, podemos reconhecer que a prática da tsedacá assemelha-se às obras de misericórdia, tão ensinadas e vividas por Jesus e também pelos apóstolos.




II - A RECIPROCIDADE DO CÉU

O céu age conosco “medida por medida” ou, como ensinam os rabinos, midá kenégued midá, isto é, seremos tratados na proporção em que nos comportamos com nossos semelhantes. Jesus também insistiu nisto e nos alertou para essa realidade. Ele esperava que guiássemos nossas obras a partir desse entendimento, pois, se pretendemos que haja bondade, generosidade e misericórdia do céu para conosco, igualmente devemos agir para com o outro. O critério é o da reciprocidade.

Muitas vezes deixamos de socorrer alguém porque analisamos sua história e concluímos que não merece nossa assistência. Pode ser que a pessoa tenha desperdiçado várias oportunidades na vida, que não tenha se esforçado tanto quanto nós e, por isso, não faz jus ao que alcançamos. Talvez seja ociosa e procrastinadora, insista em erros que já tenha cometido, seja ingrata ou tenha aplicado mal a ajuda que recebeu anteriormente. Enfim, são motivos razoáveis e, quem sabe, até justos do ponto de vista humano, os quais usamos para não ajudar. Porém, Deus quer que sejamos condescendentes com nossos semelhantes, porque é assim que Ele quer ser conosco.

Se analisarmos nossa condição espiritual e a santidade de Deus, seremos forçados a constatar que estamos proporcionalmente muito mais afastados d’Ele do que de qualquer ser humano que possa ter falhado conosco. Apesar de nossas dificuldades em alcançar a santidade e permanecermos nela, as misericórdias d’Ele se renovam a cada manhã. Assim, porque nos ama e quer nos abençoar, Deus utilizou um instrumento que representa o equilíbrio perfeito entre justiça e bondade, isto é: permitiu que nós mesmos forjássemos a medida que Ele usará conosco, que é a maneira como agimos com nossos semelhantes. Desse modo, ao praticarmos boas ações e atitudes misericordiosas com o próximo, possibilitamos ao céu agir conosco na mesma proporção.
A respeito disso, a doutrina judaica conta a seguinte história:

Rabi Zusha respondeu: ‘Veja você, meu filho, o Todo-Poderoso conduz-se conosco conforme nós nos conduzimos com os outros. Enquanto você esteve disposto a ajudar na manutenção de alguém tão indigno quanto Zusha, Hashem também se comportou generosamente contigo, fosse você merecedor, ou não, de tais bênçãos. Mas uma vez que você se tornou seletivo e exigente, passando a ajudar somente o maior dos tsadikim, o Todo-Poderoso reagiu à altura, tornando-se mais seletivo, escolhendo apenas os recipientes mais dignos de sua generosidade.’ (...)
No céu, o comportamento com as pessoas é “medida por medida”. Se alguém for escrupuloso e exigente, somente dando tsedacá a indivíduos que mereçam, o Céu apenas lhe concederá Suas bênçãos caso ele as mereça. (...) 


Nessa mesma perspectiva, o Rabino Chaim Tsanzer expressa esse princípio:

Rabi Chaim Tsanzer vivia para a tsedacá, e a distribuía fartamente. Uma vez ele deu uma quantia considerável a alguém que se mostrou ser um impostor. Isso magoou muito os seus chassidim, e eles perguntaram ao rebe o porquê de ele ter dado tsedacá a essa pessoa indigna. (...) Rabi Chaim Tsanzer concluiu: “Enquanto eu não for excessivamente seletivo quanto aos receptores da minha tsedacá, eu poderei esperar que Hashem seja misericordioso e generoso para com alguém tão indigno quanto eu. 


Não foi por menos que o profeta Obadias afirmou: “Como fizeste ao teu próximo, assim se fará contigo; o teu feito retornará sobre a tua própria cabeça!’’ (Ob 1:15). Jesus também tratou dessa reciprocidade, conforme passaremos a ver.

Em Mateus 6:12, Jesus nos ensina a orar ao Pai, dizendo: “(...) perdoa-nos as nossas ofensas, assim como nós temos perdoado aos nossos ofensores”. Essas palavras de Jesus demonstram claramente que seremos perdoados na “mesma medida” que perdoamos. Equivale a dizer que se alguém “perdoa, mas não quer mais relacionar-se com quem a ofendeu”, está pedindo a Deus que a perdoe por seus pecados, mas que também não faz questão de relacionar-se com Ele.

Um pouco mais adiante, Ele reforça, explicando: “Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados, e com a medida que usardes para medir a outros, igualmente medirão a vós.” (Mateus 7:2). É nítida a correlação. Se recusarmos ajuda a um necessitado por acharmos que ele não é digno, Deus simplesmente usará o mesmo critério conosco. Se quisermos que Ele seja bondoso e generoso para conosco, é assim que devemos agir com aqueles que precisam de nossa ajuda. Jonathan Edwards, teólogo e filósofo do século XVIII, lembra que: “Em primeiro lugar, a Escritura ensina que Deus nos tratará como lidamos com nossos semelhantes, e que, com a medida com que medirmos os outros, Deus vai medir a nós novamente.”  

É maravilhoso o cuidado de Jesus em nos alertar sobre esse princípio, quando diz “Considerem atentamente o que vocês estão ouvindo” e continua “Com a medida com que medirem, vocês serão medidos; e ainda mais lhes acrescentarão.” (Marcos 4:24). Antes de falar da reciprocidade, Ele pede que haja de nossa parte uma atenção especial para com essa verdade.

Em Lucas 6:38, nosso Mestre continua: “Deem, e lhes será dado: uma boa medida, calcada, sacudida e transbordante será dada a vocês. Pois a medida que usarem, também será usada para medir vocês”. A palavra utilizada é exatamente aquilo que queremos deixar claro: “medida”. No original é “metron”, cujo significado é justamente “instrumento para medir”. É óbvio que Jesus não está dizendo apenas sobre dar dinheiro, mas fala de modo abrangente e aplicável a tudo: amor, compaixão, respeito, honra, entre outros. Na passagem de Mateus 7:12, Ele deixa clara essa aplicação geral ao dizer: “Portanto, tudo quanto quereis que as pessoas vos façam, assim fazei-o vós também a elas, pois esta é a Lei e os Profetas.”

No livro “A recompensa da honra”, John Bevere discorre acerca desse mesmo princípio, sob o enfoque da honra. Sustenta que honrar a Deus é a chave para “atrair o favor e a benção do céu”, porque Ele nos honrará. Esse autor descreve a parábola do bom samaritano como um cumprimento da orientação “tratai todos com honra”, dada por Pedro (I Pedro 2:17).

Ainda nesse enfoque, podemos citar Provérbios 14:31, no qual o Rei Salomão afirma que: “(...) quem ao necessitado trata com bondade, honra a Deus”. É em decorrência do princípio da reciprocidade que Deus honrará, na mesma proporção, aquele que agiu com bondade para com o próximo. Se fizermos a seguinte comparação: de um lado a nossa condição espiritual e a santidade de Deus, e do outro lado a nossa “santidade” e a de um mendigo extremamente pecador, veremos que estamos muito mais próximos desse último do que de Deus. Por isso, devemos ser misericordiosos sem jamais nos considerarmos superiores a quem quer que seja, já que o próprio Deus não faz essa comparação conosco e ainda nos ajuda e nos provê independentemente de nossa condição.

Misericórdia é uma atitude de benevolência exercida com aqueles que não a merecem, que não são dignos, porque estão no pecado. Do contrário, se merecessem o perdão, então não seria misericórdia, mas justiça, pois seria “justo” perdoá-lo. Jesus afirma que “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mateus 5:7). Apesar disso, infelizmente é comum vermos cristãos se alegrarem com a justiça humana, isto é, com a penalização de quem fez algo errado, por outro lado, poucos ficam felizes em ver o perdão sendo praticado. Almejam muito mais a justiça do que o perdão. Entretanto, Jesus explicou claramente que Deus terá misericórdia de quem pratica a misericórdia. Apenas os perfeitos, isto é, aqueles que andam em total santidade e que por isso não precisam de misericórdia, é que deveriam se alegrar com a justiça divina penalizando um pecador.

Como está escrito: “Não há nenhum justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer”. (Romanos 3:10- 12)


Devemos lembrar que o maior exemplo de misericórdia foi Deus ter enviado para este mundo seu maior amor, para sofrer, ser cruelmente castigado e morto no lugar de pessoas que não o mereciam. Por isso Ele insiste “(...) considerem atentamente (...)” (Mc 4:24) que façamos o mesmo com nossos semelhantes, pois um dia estaremos diante do Grande Trono sendo julgados pelas nossas obras, que indicarão a nossa respectiva medida.

Da mesma forma que Hashem é misericordioso, você deve ser misericordioso. (... )

O céu mostra misericórdia àquele que é misericordioso para com os outros, mas não mostra àquele que não o é. (Shabat 151b) 


Misericórdia não é apenas deixar de “julgar” as pessoas em nossos pensamentos. Louvado seja Deus porque não apenas “pensou” em nos ajudar, mas porque também agiu enviando seu Filho, demonstrando assim que há o aspecto intrínseco e extrínseco. Aliás, quando perguntado sobre o que fazer para herdar a vida eterna, Jesus contou uma pequena parábola de alguém que, em sua misericórdia, não apenas “sentiu”, mas também “agiu” em favor do necessitado, para que entendêssemos bem o comportamento que Ele espera de nós. É o que vamos tratar no próximo capítulo.




III - A PARÁBOLA DO BOM SAMARITANO

Essa maravilhosa parábola contada por Jesus Cristo está transcrita no Evangelho de Lucas (10:25-37) e reforça o aspecto prático da misericórdia. Vamos relembrá-la:

E eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?
E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês?
E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.
E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso, e viverás.
Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?
E, respondendo, Jesus disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram e, espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.
E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo.
Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele
e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão; e, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele;
E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu te pagarei quando voltar.
Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?
E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira.


Com essa história, Jesus respondeu uma pergunta feita no plano individual, pois perceba que o doutor da lei questionou: “... o que farei...?”, na primeira pessoa do singular. Isso revela que provavelmente a misericórdia não era praticada por ele. Entretanto, a resposta dada pelo Filho de Deus aplica-se à vida de todos aqueles que nos dias atuais estão igualmente em falta com esse mandamento de amor prático ao próximo.

A bíblia ensina que no Dia do Juízo seremos julgados pelo que fizemos, ou seja, por nossas obras: “foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras” (Ap. 20:12). E, novamente: “Mas o Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então recompensará a cada um de acordo com suas obras” (Mt. 16:27). Nesse Dia, a justiça de Deus poderá ser a nossa condenação, porque, se formos analisados pelo filtro da santidade d’Ele, certamente será encontrada em nós alguma ação ou omissão pecaminosa. Logo, o que almejaremos naquele Dia será a “misericórdia” divina e foi por isso que Jesus ensinou que essas são obras que devemos realizar, obras de misericórdia, tal como a do samaritano.

Nessa parábola, a palavra “misericórdia” no original em grego é “eleos” e significa: “1) misericórdia: bondade e boa vontade ao miserável e ao aflito associada ao desejo de ajudá-los.”  É a mesma expressão utilizada quando Ele insiste acerca da necessidade de aprendermos o significado de “misericórdia quero e não sacrifício” (Mt. 9:13 e 12:7). Portanto, nota-se no tal samaritano, que ele não apenas “sentiu” a compaixão, mas também “agiu”, envolvendo-se e investindo dinheiro na assistência àquele desconhecido, ou seja, praticou tsedacá, amor ao próximo, boas obras, caridade, filantropia, tanto faz o nome. No livro “Justiça Generosa”, Timothy Keller, palestrante e pastor norte-americano, explica o seguinte:

O que Jesus estava querendo com essa história? Estava respondendo de forma ousada à pergunta: “O que significa amar meu próximo? Qual é a definição de ‘amor’?” Como resposta, Jesus descreveu um homem preenchendo as necessidades materiais, físicas e econômicas de alguém. Cuidar das necessidades materiais e financeiras dos outros não é opcional. 


Para o pastor Juliano Son , quando Jesus rearranja a pergunta feita pelo mestre da Lei, passando de, “Mas, quem é o meu próximo?” (Lc. 10:29) para “Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?” (Lc. 10:36), está nos demonstrando que devemos parar de nos preocupar em querer conhecer quem é o nosso próximo, para passarmos a nos empenhar em sermos, nós mesmos, o próximo daqueles que padecem, perguntando-nos: “eu posso ser o próximo daquele que está ali padecendo?”.

Há tanta “espiritualidade” em alguns meios cristãos e, ao mesmo tempo, tão pouca demonstração prática do amor ao próximo que não gosto de pensar que sou “evangélico”, mas apenas cristão. Usa-se, no cotidiano, jargões e outros “dialetos” para parecer “crente”, mas, às vezes, se é tão distante dos ensinamentos de Jesus na conduta pessoal, profissional, familiar e financeira, que isso faz mais mal do que bem para a propagação do Evangelho. Um relato feito por Aristides, cristão do século II, de como era o estilo de vida de nossos irmãos naquela época serve para que possamos analisar se nossas condutas e de nossa comunidade se parecem e se, com base no que vivemos hoje, poderíamos ser considerados seguidores de Cristo:

Eles [os cristãos] ajudam aqueles que o ofendem, fazendo deles seus amigos; fazem o bem aos seus inimigos. Não adoram a ídolos; são agradáveis, bons, modestos, sinceros, amam-se uns aos outros; não desprezam as viúvas; protegem os órfãos; aqueles que têm muito dão àqueles necessitados, sem reclamar. Quando conhecem estrangeiros, os convidam para suas casas com alegria, pois os reconhecem como irmãos verdadeiros, não naturais, mas espirituais.

Quando morre um pobre, se tomam ciência, contribuem de acordo com suas posses para seu funeral; se vêm a saber que algumas pessoas são perseguidas ou enviadas para a prisão, ou condenadas pelo amor ao nome de Cristo reúnem suas dádivas e as enviam ao que tem necessidade. Se não puderem fazer, tentam conseguir sua libertação. Quando um escravo ou um mendigo precisa de ajuda, eles jejum dois ou três dias, e lhes dão a comida que haviam preparado para si mesmos, porque acham que ele também deveria estar alegre, pois foi chamado para ser alegre tanto quanto eles 


O Evangelho não pode ser interpretado por meio da leitura de textos isolados. Quando era indagado sobre Salvação, Jesus procurava expor o pecado específico daquela pessoa ou daquele grupo que era seu interlocutor. Para o jovem rico, o problema era ter o dinheiro acima de Deus (Mateus 19:21). Para Nicodemos, que o procurou no meio da noite, faltava fé (João 3:12). Para aquele mestre da Lei que perguntou “que farei para herdar a vida eterna?”, a resposta é bem clara: exerça a misericórdia, ajudando os que necessitam (Lucas 10:37). Por isso, devemos meditar na Palavra de Deus de “dia e de noite”, para que possamos conhecer, compreender e, então, praticar os diversos princípios que regem cada área de nossa vida.

Jesus classificou três preceitos (Mateus 23:23) como os mais importantes da Lei dada por Deus: justiça, misericórdia e fé. Por justiça, entendo que devem ser consideradas as práticas que nos fazem estar em conformidade com a vontade do Pai: jejum, oração, leitura da bíblia, vida de santidade (não mentir, não cobiçar, não adulterar com os olhos, mente e corpo, não enganar, não roubar, não julgar etc.), vida de adoração, entre outras. Misericórdia é aquilo que Ele nos conta que o Samaritano fez, ou seja, expressar o amor ao próximo, cuidando-o e auxiliando-o em suas necessidades. Por fé, acredito ser a atitude de crermos nos aspectos sobrenaturais do cristianismo, tais como: que Jesus nasceu de uma virgem por obra do Espírito Santo; que ele é o Salvador prometido por Deus por meio de seus profetas; que Ele é o filho do Deus vivo; que ressuscitou ao terceiro dia e foi elevado ao Céu; que voltará; que Ele operou e ainda opera milagres; ou seja, tudo aquilo que vai além da razão e, por isso, somente pela fé é possível crer.

Nenhum desses três mandamentos isoladamente é suficiente. Não basta só a justiça, nem só a misericórdia, nem mesmo só a fé. A genuína prática de um desses preceitos, deve levar naturalmente à observância do outro. Muita fé no sobrenatural de Cristo deverá levar à prática das boas obras (Efésios 2:10). Por outro lado, o cumprimento daquilo que se entende por justo precisa ser motivado pela fé para não se tornar religiosidade sem vida (Romanos 3:28). A fé em Cristo Jesus, mas desacompanhada das atitudes que Ele mesmo nos ensinou (Mateus 7:21), incluindo-se nelas tanto as práticas pessoais (jejum,  oração, leitura bíblica, fuga do pecado, transformação da mente, etc.), como também as obras de misericórdia em favor dos que padecem, poderá prejudicar a salvação, pois pode significar uma fé débil ou não genuína (Tiago 2:14).

É comum ouvir pessoas que são apegadas ao dinheiro, ou seja, que são avarentas, mas que obviamente negam essa condição, dizendo que não ajudarão o próximo porque foram salvas apenas “pela fé”. O mesmo argumento é utilizado por aqueles que preferem não abandonar outras práticas pecaminosas, como a pornografia, a lascívia ou a desonestidade nos negócios, e se justificam dizendo que não serão salvos pelas “obras”. Na bíblia desses, talvez não existam os ensinamentos éticos e práticos que Jesus transmitiu no conhecido Sermão do Monte (Mateus 5, 6 e 7).

A prosperidade material, a abundância de dinheiro e as riquezas não são pecados. Na verdade, o dinheiro é “neutro”. É tal como a televisão ou a internet, depende de como é usado. Sem dúvida que, como já dissemos, o teste da riqueza é bastante difícil e Jesus afirmou isso porque o risco ao apego (avareza: subproduto da idolatria) é muito grande, como veremos adiante. 
Nisso a prática da tsedacá é fundamental, pois quando a pessoa começa a dar atenção e a suprir as necessidades dos desvalidos, tira-se o foco do próprio “umbigo” e isso ajuda a diminuir o egoísmo. Você pode ter milhões de dólares em patrimônio e não ser avarento, porque você investiu também milhões em ajuda aos pobres e nas obras do Reino de Deus. Você é apenas um mordomo que também desfruta daquilo que Deus lhe confiou, quando lhe deu a capacidade para conseguir, sem reter e sem deixar de ajudar a quem padece.

Independentemente da controvérsia acerca do que Jesus contou sobre Lázaro e o Rico (Lucas 16) ser real ou apenas uma parábola, o fato é que Ele quis nos ensinar algo. A lição está em absoluta concordância com a que foi transmitida na parábola do Bom Samaritano. Ao contrário do que pode parecer, a intenção de Jesus não foi condenar o dinheiro, mas a forma como ele é utilizado, porque é isso que importa. O pecado não foi ser rico, porém errou ao ser avarento e não ajudar Lázaro, preferindo viver exclusivamente para seu próprio conforto. Tal como no caso do sacerdote e do levita da parábola do Bom Samaritano, a falta de amor ao próximo fez com que o rico fosse condenado por, podendo, não ter ajudado quem precisava.

Jesus falou que sempre haverá pobres (João 12:8), o que significa que ninguém, por mais bem intencionado e rico que seja, conseguirá extinguir a pobreza do mundo. Entretanto, ambas as parábolas revelam a mesma obrigação: expressar amor e compaixão ao próximo por meio de atitudes que supram efetivamente as necessidades dos que padecem.




IV – O MANDAMENTO DAS OBRAS DE JUSTIÇA COM AMOR

Jesus nos ordena a ser sal para a terra e luz para o mundo, deixando nossa luz resplandecer com o seguinte objetivo: verem nossas boas obras e glorificarem nosso Pai que está nos céus.

Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. (Mateus 5:14-16)


Aqui há uma verdadeira chave para o evangelismo: o exercício de obras que sejam consideradas boas, externando assim, o amor de nosso Pai ao mundo. E boas obras são todas as práticas consideradas justas, corretas, louváveis e em conformidade com os ensinamentos contidos na Palavra de Deus. Dentro delas incluem-se tanto os atos de caridade, como também um casamento saudável, uma adequada educação dos filhos, a honestidade nos negócios, a ética profissional, o correto relacionamento com Deus, o respeito e o amor ao próximo, ou seja, todas as áreas da vida. Apesar dessa distinção entre boas obras, obras sociais e obras de caridade, algumas vezes utilizarei neste livro indistintamente essas expressões, principalmente quando cito outros autores, pois muitos ainda as tratam como sinônimas.

Portanto, as obras sociais são uma espécie do gênero boas obras. Por outro lado, incluem-se no conceito das obras sociais as atitudes de misericórdia e de assistência aos que precisam, como, por exemplo, dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, vestir os nus, dar pousada aos viajantes, assistir os enfermos, visitar os presos, entre outras. Timothy Keller  aborda a característica que elas têm de atrair o interesse para o Evangelho:

As ações práticas dos cristãos para ajudar os necessitados foram, dessa forma, surpreendentes aos observadores e fizeram com que estes se interessassem pela mensagem do evangelho. O imperador romano Juliano desprezava a fé cristã, mas admitiu honestamente que ela continuava conquistando seguidores porque a generosidade dos cristãos para com os pobres era cativante:
Nada tem contribuído mais para o avanço da superstição dos cristãos do que a caridade para com os estranhos [...] os galileus ímpios cuidam não apenas de seus pobres, mas também dos nossos. 


No caso do imperador Juliano, ele estava se referindo especificamente às obras de caridade, ou obras sociais. Mas vale o alerta de que somente elas não são suficientes, pois de nada adianta ajudar o próximo e ao mesmo tempo ter uma vida totalmente bagunçada. Por isso, em Mateus 5:16, Jesus usou o gênero Boas Obras, que, como vimos, abrange todas as áreas da existência. Inclusive, os atos de justiça referidos em Apocalipse 19:8, no original, significam “dikaioma”, que é aquele que foi julgado justo segundo os preceitos da vontade de Deus. Quais preceitos? A revelação não especifica, então são todos. Seremos julgados por nossas “obras”, sejam elas boas ou más, cada aspecto de nossa vida será pesado e avaliado segundo a Palavra de Deus e conforme o padrão que nós mesmos estabelecemos ao julgar nossos semelhantes.

O pastor Luciano Subirá, na pregação “Brilhe sua Luz - parte 2” , faz uma inteligente comparação entre santidade e boas obras (referindo-se às obras de caridade). Explica que, apesar de a santidade não salvar, ninguém ousa ser displicente com essa característica da vida cristã, a fim de não colocar em risco a própria salvação. Ele lembra que o mesmo raciocínio deve ser aplicado às boas obras, pois se fomos salvos por elas, deveríamos ter a preocupação de praticá-las, assim como temos de buscar uma vida longe do pecado. A partir do Evangelho de João, o Pr. Subirá apresenta uma revelação importante. Alguns discípulos, ao ouvirem Jesus dizer a Judas para realizar depressa aquilo que estava para fazer, somente conseguiram pensar em duas opções: compraria o necessário para a festa ou daria algo aos pobres. Isso evidencia que dar de comer a quem tem fome era uma característica marcante no ministério de Jesus, do contrário, numa situação como aquela em que Ele não disse abertamente o que era para ser feito, eles não teriam cogitado essa alternativa.

Tão logo Judas comeu o pão, Satanás entrou nele. “O que você está para fazer, faça depressa”, disse-lhe Jesus. Mas ninguém à mesa entendeu por que Jesus lhe disse isso. Visto que Judas era o encarregado do dinheiro, alguns pensaram que Jesus estava lhe dizendo que comprasse o necessário para a festa, ou que desse algo aos pobres. (João 13:27-29)


Sermos chamados de “cristãos” nada significa se não exercitarmos aquilo que Jesus ensinou. Em várias oportunidades, Ele nos exorta a pegarmos nossa cruz e trilharmos Seus caminhos, seguindo-O numa vida que inclui a ajuda aos que precisam. John Wesley, ao tratar desse assunto, explica:

A vocês, que acreditam na Revelação Cristã, eu posso falar de uma maneira ainda mais incisiva. Vocês creem que seu abençoado Mestre “deixou a vocês o exemplo de que vocês deveriam trilhar seus passos”. Agora, vocês sabem que toda a vida Dele foi um trabalho de amor. Vocês sabem “como ele empreendeu fazer o bem” e isso sem intermissão, declarando a todos, “O que meu Pai fez, assim faço eu!”. Não é esta, então, a linguagem de seus corações? Oportunidades de fazer isto nunca faltará; porque “sempre haverá pobres com vocês”. Mas que oportunidade peculiar a solenidade deste dia lhes fornece de “trilharem os passos de Jesus” de uma maneira que vocês nunca conceberam antes? 


Quando Jesus ensina solenemente acerca de algo, é porque espera que o façamos. Ele nos ensinou como orar, pois, espera que oremos, nos ensinou como jejuar, porque espera que jejuemos; nos ensinou a obedecer não só em palavras, mas também em atitude, porque espera que obedeçamos. Em Mateus (25:35-46), Ele ensina que ao darmos de comer a quem tem fome, ao vestirmos os que estão nus, ao visitarmos os enfermos e presos, ao acolhermos os estrangeiros, ao darmos água a quem tem sede, ao fazermos tudo isso aos “pequeninos”, estamos fazendo a Deus. Ele chama de “justos” os que isso fazem e garante que estes irão “para a vida eterna”. Sobre essa característica de “dever”, Jonathan Edwards diz: 


Este é um dever para com o qual o povo de Deus tem obrigações muito rigorosas e indispensáveis. Não é meramente uma recomendação o fato de que um homem deva ser bondoso e generoso para com os pobres, mas sim um dever sagrado, tal como orar ou participar das reuniões, ou qualquer outra coisa; e sua negligência traz grande culpa sobre qualquer pessoa.


Na “Bíblia Almeida Revista e Atualizada com os números de Strong”, no livro de Mateus 25:46 consta que, no original, em grego, a palavra utilizada para “justos” é “dikaios”, que significa aquele “que observa as leis divinas num sentido amplo, reto, justo, virtuoso, que guarda os mandamentos de Deus (...)”. Ou seja, Jesus equiparou aquele que faz essas boas obras como aquele que guarda os mandamentos de Deus. É o que Ele espera de nós.

Em Mateus 6:1-4, ao se referir à oferta aos necessitados, Jesus utiliza a palavra “eleemosune” que significa: “1) misericórdia, piedade, dar esmola, caridade 2) o benefício em si mesmo, doação ao pobre, esmola”; e se origina de “eleos”, cujo significado é: “misericórdia: bondade e boa vontade ao miserável e ao aflito, associada ao desejo de ajudá-los”. Nas diversas traduções bíblicas para esse texto, são utilizadas como sinônimas as palavras justiça, obras de caridade, donativos e esmolas. Mas o que quero frisar é que, independentemente de como foi traduzido para nossa língua, o que Jesus estava ensinando era sobre como praticar o auxílio aos pobres, pelo que insisto: se Ele ensinou, é porque espera que façamos. Transcrevo essa passagem incluindo a palavra no original para melhor compreensão:

Guardai-vos de fazer a vossa caridade e obras de justiça (eleemosune) diante dos homens, com o fim de serem vistos por eles; caso contrário não tereis qualquer recompensa do vosso Pai que está nos céus.
Por essa razão, quando deres um donativo (eleemosune) não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Com toda certeza vos afirmo que eles já receberam o seu galardão.
Tu, porém, quando deres uma esmola ou ajuda (eleemosune), não deixes tua mão esquerda saber o que faz a direita.
Para que a tua obra de caridade (eleemosune) fique em secreto: e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará. (Mateus 6:1-4, BKJ)


Quando os religiosos da época se surpreenderam porque Jesus não se lavara conforme a tradição da época, Ele os repreendeu dizendo, entre outras coisas: “Portanto, dai ao necessitado do que está dentro do prato, e vereis que tudo vos será purificado.” (Lucas 11:41). O interessante é que a expressão “dai ao necessitado” também é traduzida por esmolas e, no original, é a mesma “eleemosune”, que Ele mais uma vez nos orienta a fazer.

Após contar a parábola do Rico Insensato, Jesus nos ensina a como guardar os nossos recursos num lugar seguro e eterno:

 “Vendei os vossos bens e ajudai os que não têm recursos (...)” (Lucas 12:33, BKJ). Em outras versões, assim traduziram: “Vendei os vossos bens e dai esmola (...)”. Mas qual é a palavra no original? Eleemosune, ou seja, obras de misericórdia com os carentes.

Um dos textos mais importantes acerca da necessidade da prática das boas obras é a carta do apóstolo Tiago. Ele faz uma comparação chocante ao declarar que crer em Deus, até os demônios creem, e talvez até mais que nós, pois chegam a tremer diante da existência d’Ele! Entretanto, o que nos distingue dos demônios é que podemos, justamente, praticar boas obras, nas quais se incluem fazer o bem, ajudar o próximo, ser benção na vida das pessoas, dar comida a quem tem fome, vestir os que precisam; atitudes que esses espíritos malignos não podem, pois o propósito deles já está definido: matar, roubar e destruir.

Se um irmão ou uma irmã estiverem necessitados de roupa e passando privação do alimento de cada dia, e qualquer dentre vós lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos e comei até satisfazer-vos”, porém sem lhe dar alguma ajuda concreta, de que adianta isso? Desse mesmo modo em relação a fé: por si só, se não for acompanhada de obras, está morta.
Entretanto, alguém poderá afirmar: “Tu tens fé, e eu tenho as obras; mostre-me tua fé sem obras, e eu te demonstrarei minha fé mediante as obras que realizo.” Crês, tu, na existência de um só Deus? Fazes bem! Até mesmo os demônios creem e tremem! (Tiago 2:15-19)


Na sua carta a Timóteo, o apóstolo Paulo orienta seu discípulo a ordenar aos ricos que pratiquem as boas obras e, consequentemente, alcançarão a verdadeira vida.

Ordene aos que são ricos no presente mundo que não sejam arrogantes, nem ponham sua esperança na incerteza da riqueza, mas em Deus, que de tudo nos provê ricamente, para a nossa satisfação. Ordene-lhes que pratiquem o bem, sejam ricos em boas obras, generosos e prontos para repartir. Dessa forma, eles acumularão um tesouro para si mesmos, um firme fundamento para a era que há de vir, e assim alcançarão a verdadeira vida. (1 Timóteo 6:17-19)


Da mesma forma escreveu a Tito, dizendo que Jesus Cristo se entregou por nós para nos libertar da iniquidade e para purificar para si um povo especial, que tinha ou que deve ter, a seguinte característica: ser “zeloso de boas obras”.

Ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às concupiscências mundanas, vivamos neste presente século sóbria, e justa, e piamente, Aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo; O qual se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras. (Tito 2:12-14)


Ainda nessa mesma carta, ele lembra que Deus não se moveu em amor e bondade aos homens por causa dos atos de justiça que praticavam, mas por pura misericórdia. Entretanto, ele orienta que Tito “afirme categoricamente essas coisas” com o seguinte objetivo: “para que os que creem em Deus se empenhem na prática de boas obras. Tais coisas são excelentes e úteis aos homens.”

Mas quando se manifestaram a bondade e o amor pelos homens da parte de Deus, nosso Salvador, não por causa de atos de justiça por nós praticados, mas devido à sua misericórdia, ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós generosamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador. Ele o fez a fim de que, justificados por sua graça, nos tornemos seus herdeiros, tendo a esperança da vida eterna.

Fiel é esta palavra, e quero que você afirme categoricamente essas coisas, para que os que creem em Deus se empenhem na prática de boas obras. Tais coisas são excelentes e úteis aos homens. (Tito 3:4-8)


Perceba que Paulo pede não apenas um envolvimento superficial com as boas obras, mas um empenho, uma dedicação, uma atenção especial. Pensando na realidade das igrejas evangélicas hoje, é triste ver que, em muitas delas, o ministério ou departamento de ação social recebe apenas uma ínfima parte dos recursos e da atenção; às vezes mais como um alívio para o incômodo da consciência do que como um efetivo empenho.

Em Apocalipse 19:8, revela-se do que é feito o linho fino do vestido usado pela Noiva de Cristo, a Igreja: “O linho fino são os atos justos dos santos”. No original, “atos justos” ou “atos de justiça” são descritos como dikaioma, que significa tudo aquilo que está de acordo com a Justiça Divina, envolvendo todas as obras aprovadas aos olhos de Deus. E dentro dessas boas obras é certo que se inclui a caridade, que é o socorro aos necessitados, tal como fez o Bom Samaritano e como deveria ter feito o Rico com relação a Lázaro.

Mais adiante, na mesma Carta a Tito, Paulo relaciona a falta da prática das boas obras com a improdutividade no reino: “Quanto aos nossos, que aprendam a dedicar-se à prática de boas obras, a fim de que supram as necessidades diárias e não sejam improdutivos”. (Tito 3:14)

Essa orientação que Paulo transmite o que ele próprio recebeu daqueles que eram considerados colunas do Evangelho, ou seja, Tiago, Pedro e João, quando, após o abençoarem a continuar pregando a nós, os gentios de outrora, fizeram uma recomendação: “(...) que não nos esquecêssemos dos pobres...” (Gl. 2:10). Alerta fundamental, válido para todos os tempos e que ecoou nas palavras de Hudson Taylor, célebre missionário que viveu de 1832 a 1905 e fundou a Missão no Interior da China, foi o seguinte: “Imploro que considerem a causa destes pobres, e que o Senhor lhes dê entendimento”.

Nos livros de Reis, há relatos de vários reis que tentaram fazer o que é justo e reto aos olhos de Deus, mesmo com um histórico de seus antecessores praticarem por dezenas ou centenas de anos tudo o que é abominável. Porém, chama a minha atenção quando a bíblia coloca um “porém”, “contudo”, “entretanto”, “todavia” em suas histórias. Fizeram tudo certo, porém continuaram com algum pecado, consciente ou não. Foi assim com Asa (I Reis 15:14), Josafá (I Reis 22:43), Joás (II Reis 12:2-3), Amazias (II Reis 14:4), Azarias (II Reis 15:4) e Jotão (II Reis 15:35). Trazendo essas lições para os dias atuais, acredito que o Senhor vê que estamos tentando praticar atitudes corretas, tais como a adoração, o dízimo, as ofertas, o cuidado com as famílias e a não adoração de imagens. Entretanto, na história da maioria das Igrejas Evangélicas, haverá sempre um “porém”, algo assim: “Fizeram o que é certo aos olhos do Senhor, contudo, continuaram não ajudando os pobres e os necessitados.”

Até esse momento, procurei esclarecer o conceito de tsedacá, o princípio celestial sobre o qual está embasada, seus fundamentos nos ensinamentos de Jesus e sua obrigatoriedade também para os cristãos, ainda que sujeitos à aliança do Novo Testamento. Doravante trataremos dos detalhes de como praticar tão importante mandamento.
 
 


V – QUEM DEVE PRATICAR TSEDACÁ

A resposta a essa pergunta é naturalmente resumida em uma palavra: todos! Fôssemos pessoas que simplesmente obedecêssemos às ordens de Deus, sem questionar, sem resistir, sem procrastinar, tal como o patriarca Abraão, seria tudo mais fácil. Porém, esta não é a realidade para a maioria de nós e, por isso, precisamos detalhar a resposta.

O amparo aos necessitados não é um mandamento apenas para quem tem recursos financeiros sobrando, pelo contrário, todos, dentro de suas capacidades, devem cumpri-lo. Para Deus, a quantidade de dinheiro que doamos é, por si só, irrelevante. Prova disso é que aquela pequena oferta da viúva pobre foi considerada de imenso valor, porque demonstrava o grande desprendimento dela em favor do reino dos céus. Na contabilidade d’Ele, a quantia dada não é analisada de maneira isolada, mas tendo por base a capacidade econômica do doador.

Cada pessoa, mesmo uma pobre que obtém o seu sustento da tsedacá, é obrigada a dar tsedacá de acordo com a sua capacidade. (...) Mesmo que ela só possa dar uma quantia pequena, ela não deve deter-se, pois essa pequena quantia que ela dá equivale a uma grande quantia dada por um homem rico.


Quem não tem recursos “sobrando” não pode se esconder atrás desse fato para deixar de prestar assistência aos pobres, pois é seu dever administrar bem aquilo que Yahweh lhe confiou, incluindo o dever de não viver no limite financeiro, tampouco acima dele.

Mas não somente o rico é obrigado a dar Tsedacá. A Lei aplica-se igualmente a todos, rico ou pobre. Mesmo um pedinte que vive de Tsedacá deve também dar Tsedacá. Até um jovem que recebe mesada de seu pai deve doar uma parte como Tsedacá.


O pastor Craig Hill, presidente da Family Foundations International, prega acerca da necessidade de termos “margens” em nossa vida, o que inclui tempo e dinheiro. Ele relata um teste feito numa universidade americana com alguns alunos, em que foi colocada no caminho cotidiano deles uma pessoa em estado de necessidade evidente. Observou-se que apenas os estudantes com margem de tempo para se comprometer é que prestaram ajuda. O Bom Samaritano provavelmente também tinha em sua vida margem de tempo e de dinheiro.

Veremos num capítulo mais adiante que uma das consequências da tsedacá é a abundância de bênçãos, inclusive materiais. Eu sei que Deus faz milagres e pode enriquecer qualquer pessoa, pois ele é Todo Poderoso e, se houver propósito para isso, Ele o fará. Mas o Pai também utiliza os meios naturais para agir, mesmo porque tudo no Universo é regido por princípios que Ele estabeleceu. Aqui a pregação do Pr. Craig Hill faz ainda mais sentido: para uma pessoa praticar tsedacá, ela precisará ter “margens”, vivendo abaixo de suas capacidades financeiras e, para isso, ela deverá, no mínimo, ser boa administradora daquilo que lhe foi confiado.

No livro “Cinco Segredos da Riqueza que 96% das Pessoas Não Sabem”, o Pr. Craig usa como “pano de fundo” um pai que procura ensinar ao filho princípios financeiros bíblicos que apenas 4% da população pratica e, por isso, são prósperas. Logo no começo do livro, o pai explica ao filho que é preciso separar os recursos de sua mesada semanal de R$ 20,00 em potes, isto é, compartimentos, e os valores destinados a cada um não podem ser utilizados para fins diferentes. O primeiro pote é o do dízimo, entregue à igreja para a propagação da palavra e da obra de Deus. O segundo pote é o das “Ofertas”, destinadas aos necessitados. O terceiro, das “Economias”, que seriam reservas para uma eventual necessidade futura. O quarto, dos “Investimentos”, para a aquisição daquilo que posa gerar mais recursos; e o quinto, dos “Gastos”, para custear as despesas gerais. Nos quatro primeiros potes o pai ensinou o filho a colocar 10%, ou seja, uma nota de R$ 2,00 no caso daquele jovem, e para o quinto pote, a destinar o restante do dinheiro. Nesse livro, o que nos interessa especificamente é o segundo pote, acerca do qual aquele pai explicou:

Nós sempre gostamos de ter dinheiro disponível para dá-lo a pessoas que necessitam de misericórdia, que viveram uma tragédia ou foram vítimas de algum desastre. Deus ama as pessoas, e nós queremos ter algum dinheiro disponível para ajudar os necessitados.


Tudo isso comunga perfeitamente com a informação que há no livro “O milionário mora ao lado”, resultado do trabalho dos professores Thomas J. Stanley e William D. Danko, que pesquisaram durante vinte anos os hábitos e segredos dos ricaços americanos. Uma das primeiras características apontadas é: “Eles vivem muito abaixo dos seus meios”. Ou seja, ninguém enriquece gastando mais ou tudo que ganha. Quando aprendermos a controlar o impulso consumista com o intuito de ter margens para praticar caridade, estaremos em condições de também fazer investimentos que nos trarão prosperidade. Vejo isso como um círculo virtuoso: equilíbrio financeiro <-> margens <-> ajuda aos pobres <-> prosperidade material.

Com o ponto de vista acima, não quero condicionar o agir de Deus à necessidade de qualquer modelo mental ou padrão de conduta. Na época de John Wesley, era a filosofia que permeava as pregações e impedia o povo de ter a fé focada unicamente no poder de Deus. Nos tempos atuais, creio que esse terrível papel está nas mãos da psicologia, então o Senhor me guarde de fomentar essa perniciosa realidade. Assim, a palavra de Deus nos garantindo que haverá bênçãos nos é suficiente, independentemente de qualquer lógica ou psicologia. Aliás, é até bom que não haja explicação racional, porque, assim, nossa crença estará firmada unicamente na palavra d’Ele.

A sabedoria judaica ensina que as pessoas que estão percebendo sinais de dificuldades financeiras ou observando a diminuição de seus recursos, ao contrário de restringir as ofertas de tsedacá, devem continuar a fazê-las. Isso agrada a Deus por demonstrar que a confiança não está no dinheiro, mas N’Ele:

Um conselho impressionante. Aquele que observa os seus recursos diminuírem precisa utilizá-lo para dar tsedacá, demonstrando, assim, que não deposita a sua confiança em seu dinheiro, mas somente no Santo, Bendito seja. E tal mérito atrairá benção, e ele terá sucesso em tudo o que fizer.


Em uma de suas palestras, o rabino David Weitman conta que deixar de dar tsedacá quando se percebe dificuldades econômicas é semelhante a beber água do mar no momento da sede: inicialmente pode até parecer uma boa ideia, mas logo a situação estará pior do que antes. Conta também que é igual apagar fogo com palha, no primeiro instante parece resolver, mas percebe-se logo que é uma péssima decisão.

A prática de dar tsedacá é ensinada como um presente de Deus para o homem, uma oportunidade para agirmos com os pobres da maneira como queremos que Ele aja conosco, ou seja, com bênçãos generosas: “Foi ensinado que quando o santo único, Bendito Seja, ama um homem ele lhe envia um presente na forma de um pobre, para que o amado possa realizar uma boa ação (... )”

No Novo Testamento, não há qualquer referência que sustente que apenas quem tem recursos financeiros em abundância deve dar assistência aos necessitados. Pelo contrário, aos abastados, o apóstolo Paulo diz que devem ser igualmente ricos em boas obras (1 Timóteo 6:17-19), ou seja, na proporção daquilo que Deus lhes confiou. Mas até mesmo das viúvas são exigidas boas obras. Obviamente que, nesse caso, o envolvimento será muito mais pessoal e de tempo do que de dinheiro, mas é impossível dizer que não existe qualquer despesa, ainda que seja o desgaste da roupa ou dos calçados.

Enfim, tudo na proporção do que se tem.

Não seja inscrita como viúva nenhuma que tenha menos de sessenta anos, e só a que tenha sido mulher de um só marido, aprovada com testemunho de boas obras, se criou filhos, se exercitou hospitalidade, se lavou os pés aos santos, se socorreu os atribulados, se praticou toda sorte de boas obras. (1 Timóteo 5:9-10)


George Whitefield, evangelista do século XVIII, em seu sermão “O Grande Dever da Caridade”, após se dirigir aos ricos e aos religiosos, também exorta os pobres a se ajudarem:

Exorto-vos a vós, que sois pobres, a serdes caridosos uns para com os outros. E se Deus incitar alguém para aliviar-vos, não façais mau uso do que sua providência, através das mãos de alguns cristãos, tem vos concedido: sede sempre humildes e esperai no Senhor; não murmureis nem vos queixei, se virdes alguém sendo atendido e não vós, continuai esperando no Senhor, e ajudai uns aos outros, segundo vossas possibilidades, de tempos em tempos.


Na igreja na qual congrego, há uma viúva chamada Maria. Pouco tempo depois de casada, com dois filhos pequenos, ela perdeu o marido. Criou os filhos e, após alguns anos, sua filha, enquanto cursava a faculdade de Arquitetura, faleceu. Restou-lhe o filho, mas, passados mais alguns anos, ele foi vítima de violência para roubarem sua motocicleta e também morreu. A irmã Maria ficou só. Hoje ela tem 75 anos de idade, vive da renda do benefício de prestação continuada da LOAS (Lei Orgânica da Assistência Social) e recebe ajuda da igreja para gastos com alimentação, aluguel e medicamentos. Para se alimentar, compra uma refeição pronta e consome metade no almoço e o restante guarda para o jantar. Em que pese essas dificuldades, sei que pratica boas obras e quando um pedinte lhe bate à porta, não recusa dar-lhe o que sobrou do almoço, apesar de o alimento estar reservado para seu jantar.
 


 
VI – QUEM PODE RECEBER TSEDACÁ

Se Jesus estivesse à sua frente e você buscasse orientação sobre o questionamento acima, talvez indagasse: “Senhor, a quem devo dar? A quem devo emprestar?”. Então, a resposta d’Ele seria: “Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.” (Mt. 5:42), ou seja, ajude sempre. Sei, entretanto, que esse padrão de conduta às vezes não é possível, porque vivemos numa época em que as carências parecem tantas, que os recursos são insuficientes para atender a todos. Por isso, alguns parâmetros são justificáveis para evitar a injustiça de ajudarmos demasiadamente determinada pessoa e, consequentemente, deixarmos de atender outra que precisa daquilo que é mais básico; como alimentos, roupas, agasalhos ou medicamentos. Em outras palavras, movidos por falta de sabedoria, ou por emoção, ajudamos quem já saiu da condição de “necessitado”, em detrimento daquele que realmente precisa.

Em consonância com isso, vemos que o apóstolo Paulo estabelece alguns requisitos para que as viúvas possam ser inscritas naquilo que podemos considerar hoje a “Ação Social” da Igreja. Revela a necessidade de a Igreja não ser sobrecarregada a ponto de não ter como sustentar as que “deveras são viúvas”. Isso revela que, diante da limitação dos recursos, é importante fixar diretrizes para evitar que deixemos de atender os verdadeiros necessitados por má distribuição do dinheiro disponível. Antes de estabelecermos critérios, vale relembrar alguns princípios para que não ocorra de as atitudes transmitirem a mensagem de não-amor ao próximo e, assim, causar danos não só a quem pede, mas inclusive a quem deveria dar. Portanto, a dica é: não seja rigoroso, criterioso ou exigente, lembre-se de que Deus usará contigo o mesmo padrão que você utiliza com quem lhe pede auxílio. É você quem moldará a lente que o Senhor usará contigo. Os rabinos ensinam:

No céu, o comportamento com as pessoas é “medida por medida”. Se alguém for escrupuloso e exigente, somente dando tsedacá a indivíduos que mereçam, o Céu apenas lhe concederá Suas bênçãos caso ele as mereça. (...)


Endurecer o coração com demasiadas exigências para que alguém se enquadre no seu conceito de “carente” é absolutamente contrário ao que diz a Bíblia, visto que ela nos orienta a agir com liberalidade. Dureza de coração e generosidade são atitudes inconciliáveis. O salmista disse: “Oh, não volte envergonhado o aflito; louvem o teu nome o aflito e o necessitado”. Quando o aflito volta envergonhado? Quando ele pede e você diz não. E quando teu nome é louvado por ele? Quando você diz sim. Cuidado ao julgar se determinada pessoa está verdadeiramente precisando ou não de ajuda. Se errar, você será o maior prejudicado por conta da injusta medida que estabeleceu e que será usada em seu próprio julgamento.

Quando nós não julgamos a pessoa pobre, Hashem também não nos julga. Aquele que dá ao pobre sem se preocupar se este é, ou não, um pecador, recebe fartura do céu, sem que seja averiguado se ele merece tal fartura. (Brit Olam al Sefer Chassadim le Ha Chida, Chessed le Avraham) E quando o indivíduo precisa de algum tipo de salvação, mas não possui méritos, do céu enviam a ele uma pessoa pobre que também não possui mérito algum, de forma que, por meio da ajuda que dará a ela, tal indivíduo também seja auxiliado do céu. (Extraído de Tsemach David)


Se é para existir algum requisito para ajuda, o critério nunca pode ser se é ou não pecador, mas apenas, e com cuidado, se está na condição de necessitado ou não. Justificar restritos requisitos, sob a alegação de que existem enganadores que pedem ajuda indevidamente, é algo perigoso. Até mesmo eles são usados em favor da nossa “salvação”, pois a verdade é que nem sempre prestamos o auxílio, seja por dureza do nosso coração, ou por não termos administrado corretamente aquilo que Deus nos deu, impedindo-nos de sermos socorro naquele momento. Por isso, é conveniente que alguns sejam assim, porque se todos fossem realmente necessitados e nós falhássemos na ajuda, estaríamos em falta com Deus.

Nós devemos agradecer aos impostores, já que se não fosse pelos impostores entre os pobres, se qualquer um destes implorasse a uma pessoa e esta recusasse a ajudá-lo, tal pessoa incorreria imediatamente na pena de morte, pois está escrito ‘e ele clama a Hashem contra você, e será pecado’.


Até o momento, nesse capítulo, foram demonstrados princípios úteis para nortear de maneira genérica a prática de ajudar os pobres. Existem, porém, situações específicas como, por exemplo, quando quem carece não encontra aquele que pode ajudar, seja por causa da localização onde mora, da comunidade onde congrega, do local de trabalho, mas também por receio, vergonha ou qualquer outro motivo. Nesse caso, o princípio se refere ao doador ter liberdade de escolher para quem destinar os recursos reservados para as obras de assistência.

Com base em Deuteronômio 15:7, o judaísmo indica uma ordem que ajuda a estabelecermos a prioridade entre as pessoas que devem receber. Mas é importante ressaltar que essa lista deve ser relativizada quando houver necessidades que são mais urgentes do que outras. Por exemplo: algum parente distante estaria longe na ordem de preferência, mas se ele precisa de alimentos, roupas, agasalhos ou remédios, deve ser socorrido prioritariamente, já que se trata de preservar a vida e a dignidade humana. Assim, transcrevo-a conforme está indicada na obra “As Leis de Tsedacá e Maasser”, do rabino Shimon Taub:
  1. Próprio doador;
  2. Esposa e filhos pequenos;
  3. Rabino que ensinou sem cobrar pagamento;
  4. Pais;
  5. Avós;
  6. Filhos adultos;
  7. Rabino que ensinou e foi pago;
  8. Netos;
  9. Irmãos e irmãs;
  10. Tios e tias - do lado paterno;
  11. Tios e tias - do lado materno;
  12. Primos - do lado paterno;
  13. Primos - do lado materno;
  14. Demais parentes;
  15. Esposa divorciada;
  16. Amigos íntimos;
  17. Vizinhos;
  18. Pessoas da mesma cidade;
  19. Pessoas que moram em Jerusalém;
  20. Pessoas que moram nas demais cidades de Érets Ysrael; e
  21. Pessoas que moram em outras cidades de Érets Ysrael.

O importante é que o leitor perceba os princípios envolvidos. A prioridade é a sua própria sobrevivência e de seu núcleo familiar, logo em seguida, a dos parentes mais próximos e até dos mais remotos, seguidos pelos amigos que fazem parte de seu círculo mais íntimo até os mais distantes. Com a parábola do Bom Samaritano, Jesus atacou justamente essas regras ao revelar que a misericórdia deve ser praticada universalmente, simplesmente porque todos fomos feitos à imagem e semelhança do Pai. O apóstolo Paulo orienta que “façamos o bem a todos” (Gálatas 6:10), porém, como a limitação de recursos financeiros e de tempo infelizmente é uma realidade, porque poucos são os que verdadeiramente colaboram com algo que vai além das migalhas que sobram, então a preferência deve ser aos domésticos na fé, isto é, aos irmãos em Cristo. Mas “preferencialmente” é bem diferente de “exclusivamente”, motivo pelo qual a assistência também deve ser praticada em favor de outros que estejam fora daquilo que se entende por “família da fé”.

Quando se fala em garantir a “sobrevivência”, trata-se de prover aquilo que é necessário para a preservação da vida, tais como alimentos, tratamento médico e roupas. Mas isso deve ser interpretado restritivamente, para evitar de usar os recursos com algo que ultrapasse o indispensável e, com isso, deixar de ajudar os outros. Por exemplo, proporcionando aos parentes próximos sofisticada alimentação, roupas ou tratamento de saúde, enquanto outras pessoas carecem daquilo que é mais básico. Talvez um bom critério aqui seria considerar que, no aspecto da alimentação, o que ultrapassa uma boa cesta-básica é supérfluo. Quanto a roupas, deve-se proporcionar o necessário para evitar o frio e a falta de dignidade. Por tratamento de saúde, deve-se garantir os medicamentos, tratamentos cirúrgicos e ambulatoriais não disponibilizados pelo SUS - Sistema Único de Saúde - (no caso do Brasil), ou no máximo um plano de saúde básico necessário para preservação da dignidade.

Entretanto, caso alguém queira proporcionar ao familiar mais do que o realmente necessário, é evidente que pode fazê-lo, não deverá, contudo, considerar como tsedacá, devendo também fazer as contribuições aos mais pobres. Deve-se entender que aquele recurso pertence a Deus e que Ele tem um compromisso com os marginalizados da sociedade, não podendo a pessoa privilegiar os familiares que não se encontram na condição de “pobre”, ou ajudando com mais do que é necessário, enquanto outros padecem de alimentos. Você deve ser apenas o bom administrador e fazer aquilo que está na vontade do Pai e não na sua.

Volto para a parábola do Bom Samaritano. Perto do viajante machucado passou um sacerdote e um levita. Eram pessoas que guardavam os mandamentos da Lei Judaica, dentre eles a tsedacá. Então, por que não ajudaram? Segundo essas “listas”, aquele viajante estava num dos últimos lugares na escala de prioridades e por isso os religiosos se sentiram liberados da obrigação de socorrê-lo. Foram regras semelhantes a essas, seguidas “religiosamente”, que levaram Jesus a ser enfático em atacar a atitude de se esconder atrás de normas humanas para deixar de exercer a misericórdia e o amor ao próximo.

Fui ministrado acerca dessa parábola de uma maneira inusitada. Senti a direção de Deus em ofertar determinado bem, uma motocicleta, e comecei a pedir orientação acerca de quem deveria recebê-la. Na época, chegou ao meu conhecimento a dificuldade que um pastor muito querido estava encontrando em seu trabalho missionário no sertão nordestino. Seu veículo estava sempre apresentando problemas e dificultando o trabalho de levar suprimento, material e pessoal para aquela região, assolada pela seca e pela fome. Senti que aquele era o destino da oferta, porque conseguiria adquirir um veículo mais resistente e apropriado. Mas, como ainda não havia recebido a revelação sobre a parábola do Bom Samaritano, demorei algumas semanas até entregá-la, porque pensava: “Tem muita gente precisando na minha cidade, há tanta necessidade aqui, não posso enviar para tão longe. Os irmãos de lá é que devem ajudá-lo, as regras da tsedacá são claras nesse sentido”. Por outro lado, não me sentia à vontade para destiná-la para outro local. Assim, esperei.

Naqueles dias, estava levando meus filhos à escola e no DVD do carro era exibido um vídeo do personagem infantil “Midinho - O pequeno missionário”, contando sobre o Bom Samaritano. Foi então que a “ficha caiu”. Entendi que estava fazendo o mesmo que aqueles religiosos, ainda que bem-intencionado. Assim, logo entreguei a oferta àquele trabalho missionário e assistencial, com a certeza de que aquela era a vontade de Deus. Sei que, com isso, Ele quis me libertar dessas regras e dar-me o entendimento para hoje compartilhá-lo e usá-lo como alerta quanto às nossas “listas de prioridades”, a fim de não nos tornarmos frios e legalistas.
 
 
 
 
VII – COMO DAR TSEDACÁ

O princípio que rege a forma de dar tsedacá é “não envergonhar o pobre”, pois já está sendo afligido e não devemos aumentar seu sofrimento. O Provérbio 14:31 diz: “O que oprime o pobre insulta aquele que o criou, mas o que se compadece do necessitado O honra.” Além do mais, o Salmo 109:31 afirma que Deus está ao lado direito do pobre: “(...) Ele se põe à direita do pobre, para salvá-lo daqueles que o caluniam”. Inclusive, esse é o motivo pelo qual entre alguns judeus havia o costume de se levantar quando um pobre se aproximava, em respeito à Yahweh, que está ao lado direito dele.

Como já visto, o Salmo 74:21 recomenda: “Oh, não volte envergonhado o oprimido; louvem o teu nome o aflito e o necessitado.” Em qual situação o oprimido voltará envergonhado? Quando pedir ajuda e não a receber, ou quando a receber, mas o doador agir de maneira que ele se sinta ainda mais diminuído. Por isso o ideal é dizer a ele “muito obrigado” por ter aceitado sua ajuda.

É proibido reprovar severamente ou levantar a voz para uma pessoa carente, pois o seu coração está partido e humilhado; eis que [Salmos 51:19] declara: “Um coração partido e humilhado, Deus não desprezará.” Ai daquele que envergonha os pobres! Ao contrário, devemos ser como pais para eles, demonstrando-lhes compaixão e falando-lhes, conforme [lyov 29:16] explica: “Eu sou um pai para o destituído.”


O cuidado para não causar constrangimento é tão importante que na doutrina judaica relata-se que alguns grandes sábios do Talmud “(...) embalavam moedas em um lençol e as carregavam nos seus ombros, para que os pobres fossem até eles e as pegassem, de forma que não ficassem envergonhados;”

Doravante detalharemos algumas regras e, nesse assunto, o filósofo judaico Maimônides é referência:
O Rambam, Maimônides (1135-1204), um dos grandes codificadores da Lei Judaica, estabeleceu uma hierarquia de 8 pontos para esta mitsvá:

 

O Rambam, Maimônides (1135-1204), um dos grandes codificadores da Lei Judaica, estabeleceu uma hierarquia de 8 pontos para esta mitsvá:

  1. Dar um presente, emprestar dinheiro, aceitar como sócio ou arrumar trabalho para alguém, antes que ele precise pedir caridade;
  2. Fazer caridade com um pobre, onde ambos o doador e o destinatário não sabem a identidade um do outro;
  1. O doador sabe quem é o destinatário, mas este não sabe quem é o doador;
  2. O destinatário sabe quem é o doador, mas este não sabe para quem está doando;
  1. O doador faz a caridade antes mesmo de lhe ser pedida;
  2. O doador dá algo a um pobre depois de lhe ser pedido;
  3. O doador dá menos do que deveria, mas o faz de uma maneira agradável e reconfortante;
  4. O doador faz a caridade com avareza (ele sente incômodo neste ato, mas não o demonstra).

Consta no Shulchán Aruch (O Código de Leis Judaico) (Yore Dea 249:3) que, se a pessoa visivelmente demonstra desprezo, ela perde o mérito desta mitsvá.


Nos mais altos graus descritos, isto é, conceder empréstimo antes que a pessoa chegue a um estado de necessitar de ajuda, aceitá-lo como sócio em algum empreendimento ou dar-lhe um emprego, a intenção é ajudar a pessoa a se tornar autossuficiente, cumprindo o mandamento divino: “Tu o fortalecerás”. Isto para que ela nem chegue a passar pela humilhante situação da pobreza ou para tirá-la dela, poupando-a da vergonha e do constrangimento.

Disse também Rabi Abba, em nome de Rabi Shimon ben Lakish: “Aquele que empresta [dinheiro] é maior do que aquele que faz tsedacá; (Rashi: porque o pobre não fica envergonhado de tomar emprestado. Também talvez porque a pessoa geralmente empresta uma soma maior do que daria para a tsedacá, e isso deve bastar para tornar o pobre independente.) e aquele que faz uma sociedade (com um homem pobre, fornecendo-lhe o capital para que ele comercie, segundo as condições estabeleci- das. Literalmente, ‘aquele que coloca - dinheiro - em uma bolsa - comum’) é o maior de todos.” (Shabat 63a).


No livro “A arte de ser mais gente: aperfeiçoando nosso caráter”, o rabino Weitman discorre sobre essa forma mais elevada de praticar tsedacá:

“Reforçar” significa auxiliá-la de maneira que não caia e precise viver de esmola. Isto pode ser feito através de um empréstimo (sem juros), da formação de uma sociedade, ou por meio de um emprego, por exemplo. Em outras palavras, é preciso ensinar a pescar e oferecer a vara, ao invés de dar o peixe. Este é o nível mais elevado que existe.
Há, ainda, outras recomendações interessantes, extraídas do livro do rabino Shimon Taub:

 
  1. Dar com um sorriso - não demonstre desapontamento;
  2. Dar do melhor e de coração;
  3. Dar com a mão direita;
  4. Dar em pé;
  5. Não dar publicamente, para evitar constrangimento a quem recebe;
  6. O homem não pode dar para uma mulher em particular, para evitar suspeitas de relações ilícitas;
  7. Não se vangloriar; e
  8. Somente tornar público se for para encorajar outros a imitá-lo e fazer o mesmo

Sobre os cuidados de não fazer a doação publicamente e de não a entregar a uma mulher em local privado, a explicação é que, no primeiro caso, quem recebe se sentirá envergonhado. No segundo, poderão ser levantadas suspeitas sobre seu relacionamento com aquela mulher e então você será acusado de ter induzido o outro a pecar por fazer um julgamento errôneo.

Pois Deus julgará cada ato - mesmo o oculto -, quer bom, quer mau.” (Eclesiastes 12:14) Essa passagem é assim interpretada: ela se refere a uma pessoa que deu tsedacá a um homem pobre em público, para que todos vissem. Embora ela tenha feito uma boa ação, ela terá de prestar contas no mundo vindouro por ter envergonhado o receptor. O versículo também se refere a um indivíduo que deu tsedacá a uma mulher em sigilo, atrás de portas cerradas. Ele será repreendido por ter se exposto à desconfiança e ter comprometido a sua reputação. Além do mais, ele induziu ao erro aqueles que dele desconfiaram [sem justificativa], fazendo com que fossem punidos, porque o Talmud diz “Aquele que suspeita do inocente sofrerá por isso em seu próprio corpo”. Além disso, outras pessoas não acatarão as suas reprimendas, dizendo: “Você fez o que fez, e agora nos censura?


Outra forma muito apropriada é comprar algo que o necessitado esteja vendendo, ainda que com preço acima do usual, pois o objetivo é ajudá-lo, mesmo que não precise daquela mercadoria. Agindo assim, ele se sentirá capaz e incentivado a continuar se esforçando.

Há uma forma de dar que não aparenta ser tsedacá. Mesmo assim, ela sempre se mostra sublime aos olhos de Deus. Suponha que um homem pobre esteja vendendo algum produto ou livro que ninguém queira comprar e que essa pessoa compre tal mercadoria. Ou então, que o pobre esteja procurando emprego, sem que ninguém queira empregá-lo, e que essa pessoa lhe dê trabalho. Não há forma mais elevada de tsedacá.


No Evangelho de Lucas (14:12-14), Jesus disse que quando dermos um banquete não devemos convidar apenas pessoas que possam de alguma maneira nos recompensar, mas devemos, nos lembrar dos pobres, dos aleijados, dos mancos e dos cegos, que não têm como retribuir, então Deus o fará. No judaísmo, também se faz a mesma orientação e a explicação é a seguinte:

Ora, nos foi ensinado que sempre que um banquete é oferecido, o acusador (o satan) verifica se antes o anfitrião deu tsedacá e convidou as pessoas pobres para a sua casa. Se aquele constata que isso foi feito, ele parte sem entrar na casa. Do contrário, porém, ele entra na casa, avalia a festividade, e tendo em mente que a tsedacá não foi enviada aos pobres, nem qualquer um deles foi convidado para o festim, ele ascende levando acusações contra o tal anfitrião.


Devemos nos organizar para ofertar aos pobres o máximo possível de vezes. É bom evitarmos dar tudo para uma só pessoa se soubermos que determinado valor é suficiente para suprir suas necessidades, porque há outros que igualmente carecem. Precisamos administrar os recursos a fim de alcançar outros também. O mesmo se aplica a quem pretende ofertar uma única vez, ainda que num enorme valor, e depois nada mais faz. Tal como no jejum, o ideal é a disciplina. Importa estar continuamente se obrigando a se desprender, renovando em cada ato a aliança e o compromisso com Deus. Essa forma de agir é muito proveitosa para o doador, porque quanto mais vezes exerce a generosidade, mais se torna generoso. Se este for apegado ao dinheiro e tendente à avareza, a liberalidade continuada ajudará a afastar essa distorção de caráter. O rabino Weitman diz que “quanto mais vezes a pessoa repete o bom ato, mais fortemente gravará dentro de si o espírito da tsedacá.”

Dale Carnegie, autor de vários livros, entre eles “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, ao ensinar pessoas a perderem o medo de falar em público, cita o psicólogo norte americano William James, que orienta a agir confiantemente mesmo que na verdade sinta medo, pois essa atitude confiante gerará a emoção correspondente:

O mais famoso psicólogo dos Estados Unidos, Prof. William James, escreveu: “A ação parece seguir-se ao sentimento, mas, na realidade, ação e sentimento caminham juntos. Regulando a ação, que se encontra sob controle mais direto da vontade, podemos, indiretamente, regular o sentimento que não se encontra nessa mesma situação.”


Semelhante recomendação é feita pelo britânico Clive Staples Lewis, mais conhecido apenas como C. S. Lewis, considerado por muitos como o maior pensador cristão do século passado e conhecido pelo grande público como o escritor de “As Crônicas de Nárnia”. Ele orienta as pessoas que se consideram “frias” e incapazes de sentir amor ou compaixão pelo próximo:

Certas pessoas são “frias” por temperamento; isso pode ser um azar para elas, mas é tão pecaminoso quanto ter problemas de digestão - ou seja, não é pecado. Isso não lhes tira a oportunidade nem as exime do dever de aprender a caridade. A regra comum a todos nós, é perfeitamente simples. Não perca tempo perguntando se você “ama” o próximo ou não; aja como se amasse. Assim que colocamos isso em prática, descobrimos um dos maiores segredos. Quando você se comporta como se tivesse amor por alguém, logo começa a gostar dessa pessoa.


Portanto, o mandamento de assistência aos pobres e aos necessitados deve ser cumprido tendo por princípio evitar o constrangimento, pois este aumenta o sofrimento pelo qual já estão passando. Deve-se ter, também, o cuidado de administrar adequadamente os recursos, a fim de alcançar o máximo de pessoas que se encontrem nessa condição.
 
 
 
 
VIII – DAS CONTRIBUIÇÕES AOS FUNDOS DESTINADOS ÀS BOAS OBRAS, AÇÃO SOCIAL, SOLIDARIEDADE E CARIDADE

Até o momento, abordamos principalmente os casos de ajuda feitas no plano individual, ou seja, diretamente aos pobres, porém, uma maneira igualmente excelente é ofertar a instituições de caridade ou ao ministério de ação social das igrejas. Os judeus organizam o que eles chamam de “fundos de tsedacá”. Cada pessoa tem a liberdade de determinar a forma como ajudará, se diretamente a quem precisa, ou se por meio de uma instituição organizada para esse fim.

Deve a congregação dizimar para os pobres como fazia a Igreja Universal, separando 3,3% de sua renda além dos dízimos que destina ao sustento da congregação e do ministério? E em caso efetivo, deve esse dinheiro ser regido pela tesouraria da chavurah (grupo de estudo), da kehilah (igreja), da Beit (a Sinagoga) ou cada um deve gerir sua própria forma de fazer caridade?

Acredito que, caso uma organização decida, ambos os caminhos podem ser válidos. Se uma congregação dispuser de uma instituição de caridade, de apoio a moradores de rua, de recuperação de viciados em drogas, de auxílio a crianças desamparadas, apoio a missões estrangeiras em países pobres etc., ela pode decidir em assembleia que os membros acrescentem essas ofertas e que elas sejam geridas por uma comissão por ela nomeada. Mas esta não é uma obrigação. O membro também pode, como o judaísmo rabínico sugere, escolher qual família pobre ou que criança da própria congregação ele vai ajudar com os estudos ou coisa parecida. Naturalmente não vale escolher o próprio filho, pois um investimento em nossos filhos é, em última análise, um investimento em nós mesmos.


Apenas uma advertência inicial. Se na própria família existirem pessoas passando necessidades, é recomendado que o auxílio seja primeiro para estas e só depois é que se deve ofertar aos fundos destinados às boas obras. Do contrário, você estará aumentando o sofrimento de seus familiares ao saberem que auxilia os “de fora” em detrimento deles, que às vezes precisam igualmente ou até mais. O apóstolo Paulo disse: “Mas se alguém não tem cuidado dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé, e é pior do que o infiel.” (1 Timóteo 5:8)

QUANDO IGNORAMOS OS NOSSOS PARENTES POBRES, DANDO A OUTRAS PESSOAS EM VEZ DE DAR A ELES, TAL ATO NÃO SE DENOMINA “TSEDACÁ”. Um homem rico costumava doar dinheiro para o fundo de tsedacá da comunidade e pediu ao administrador do mesmo que o distribuísse entre os pobres. Ora, tal homem rico tinha um irmão pobre; na realidade, todos os seus parentes eram necessitados. O rabino disse ao homem: “O dinheiro que você distribuiu entre os pobres mediante o fundo de tsedacá não foi tsedacá. Pelo contrário, ele causou tze’akah, ‘pranto’, aos seus parentes. É bem melhor que você dê tal soma a seu irmão carente e aos seus parentes necessitados.” Sefer Chassidim 324


Se este não for o seu caso, mas você congrega numa igreja com pouca dedicação à assistência aos necessitados, poderá destinar suas contribuições a trabalhos sociais vinculados a outras igrejas, tais como casas de acolhimento a crianças em situação de risco, casas de recuperação de dependentes químicos, casas de apoio a idosos ou moradores de rua, cozinhas sociais, entre outros. No entanto, aqui vale um alerta: ao dar tsedacá, temos a obrigação de cuidar para que chegue às mãos daqueles que verdadeiramente precisam, do contrário, por nossa displicência, perderemos todo o mérito e continuaremos como se não estivéssemos cumprindo esse mandamento.

A pessoa não deve doar a um fundo de tsedacá a menos que saiba que aquele que o administra é confiável, sábio e capaz de dirigi-lo de forma apropriada, bem como Rabi Chanania bem Teradyson.


Entretanto, recomendo que o leitor analise o porquê de a igreja onde congrega não ter um ministério de ação social mais atuante. O comum é que seja justamente por falta de recursos, mas se você passar a destinar parte de sua renda para isso, certamente outras pessoas serão motivadas a se envolverem também, pois é prazeroso ajudar quem precisa. Para começar, não é necessário ter experiência ou grandes estratégias, pode-se iniciar com a distribuição de cestas básicas aos próprios membros da igreja que se enquadrarem no perfil estabelecido pela direção do ministério. Pode-se também trabalhar pelos pobres da região do entorno da igreja. Fazendo isso, as necessidades específicas da comunidade serão reveladas.

Para que o ministério da ação social da igreja funcione de maneira adequada, é bom haver um líder, alguém que organizará os trabalhos e dará as diretrizes. A reputação dele refletirá diretamente na disposição das demais pessoas em contribuir. A doutrina judaica orienta: “O tesoureiro de um fundo de tsedacá deve estar acima de qualquer suspeita, e assim a Torá declara: ‘Você estará limpo perante Deus e Israel.’ (Números 32:22)’’. Isto é: o administrador dos recursos deve ser santo perante Deus e também perante os homens, para isso, é fundamental a periódica prestação detalhada das contas, esclarecendo acerca da destinação do dinheiro.

A destinação dos recursos desses fundos segue uma ordem diferente daquela da doação direta, pois o líder não deve, em hipótese alguma, favorecer familiares ou amigos. O rabino Shimon Taub indica que os pobres de sua cidade devem ter precedência sobre os de outra e que, entre aqueles que estão passando por dificuldades, a prioridade é para os grupos mais fragilizados, tais como órfãos, idosos, viúvas, deficientes e outros.

Caso o doador dê uma destinação específica, não pode o administrador mudá-la, ainda que haja uma necessidade maior. Se a arrecadação ultrapassar a necessidade, há alguma divergência sobre o que é permitido fazer com o saldo. É possível utilizar para outras causas que sejam semelhantes, sustenta o citado rabino. Porém, devemos nos lembrar que essas regras são estabelecidas pelos homens (Mateus 15:9) e que o principal objetivo é que o dinheiro seja usado para socorrer o necessitado.

Percebo algo que frequentemente desestimula as pessoas a contribuírem: é a descontinuidade. Muitas vezes, por falta de planejamento, ou mesmo por desorganização da liderança, são iniciados projetos que não são levados adiante. Isso tem um peso muito negativo no coração daqueles que contribuíram ou que tinham a intenção de fazê-lo. Por exemplo, alguém que doou os tijolos ou o cimento para a construção de uma “cozinha social”, dificilmente voltará a colaborar se souber que a mesma não foi concluída, seja por desorganização ou mesmo por falta de foco dos responsáveis, que já partiram para “uma nova grande ideia...”. Deve-se evitar o excesso de “novidades”, procurando-se iniciar outro empreendimento apenas quando o anterior já estiver dando frutos, ou, pelo menos, caminhando nesse sentido, e o novo projeto não implicar em prejuízo para aqueles que já estão em andamento.

As possíveis situações práticas são inúmeras, por isso a importância de o administrador dos fundos ser honesto, sábio, ter reputação irrepreensível perante a comunidade, possuir capacidade administrativa e discernimento para que os recursos cheguem a quem precisa. Nisso se pode incluir o hábito de terminar os projetos iniciados. O Rei Davi diz, no Salmo 41, que a bem-aventurança é dar “atenção” ao desvalido. Em algumas traduções se diz “atender ao pobre” e em outras “considerar”.

Feliz daquele que tem consideração pelo pobre; Hashem o salvará no dia do mal (Salmos 41:2) (...) Rabi Yonah comentou: “No versículo em questão não está escrito ‘Feliz daquele que dá ao pobre’, mas ‘Feliz daquele que tem consideração pelo pobre’, que significa ‘Analise com atenção como beneficiá-lo’.”


O rabi Israel Meir HaCohen, conhecido no meio judaico como Chafets Chaim, expoente do judaísmo europeu, comenta o seguinte sobre as formas de como ajudar um necessitado:

Existem diversas maneiras de uma pessoa ajudar aos pobres. A principal coisa a fazer é estar atenta, de olhos abertos às necessidades dos outros, e assim, sem dúvida, a pessoa encontrará as maneiras de ajudá-los. Ao mesmo tempo, a própria pessoa nada terá a perder, pois estará recebendo, em retribuição, as bênçãos de Hashem.


Não basta dar o dinheiro, é necessário avaliar as necessidades e a melhor forma de ajudar, a fim de cumprir a mais meritória das formas de tsedacá: “fortalecer a mão” do pobre, tornando-o autossuficiente. Isto passa, em primeiro lugar, pela necessidade fisiológica, suprindo o que é básico para a preservação da vida e da dignidade como alimentos, roupas, agasalhos, cuidados com a saúde, moradia, mas também passa pelo reforço escolar, pelo aperfeiçoamento e pela reciclagem profissional.
 
 
 
 
IX – QUANTO DESTINAR PARA AS OBRAS SOCIAIS

Espero ter conseguido demonstrar que a assistência às pessoas em situação de risco, com carência de alimentos, roupas, agasalhos, medicamentos, moradia, reforço escolar, qualificação profissional, instrução cultural, entre outras, não é apenas uma faculdade, mas sim uma obrigação instituída por Deus para todos, principalmente para nós cristãos, a fim de que outros, vendo nossas obras, glorifiquem a nosso Pai que está nos céus. (Mt. 5:16)

Neste capítulo, vamos verificar que para essa prática se tornar realidade, Deus estabeleceu para os judeus o mandamento do dízimo trienal aos pobres. Apesar de nós cristãos vivermos no período da “graça” e de não sofrermos o peso da obrigação de cumprir essa regra, ao contrário do que pode parecer, essa liberdade resulta em responsabilidades ainda maiores, porque se é verdade que temos o amor de Cristo em nós, necessariamente seremos constrangidos a investirmos nossos recursos em favor dos despojados.

Nossa liberdade não foi conquistada a preço de sangue para cruzarmos os braços e nada, ou pouco, fazermos em favor dos que padecem, mas sim para nos sentirmos livres para realizar ainda mais, não por obrigação, mas por amor, que é a essência do cristianismo. O advogado e pregador norte-americano Charles Finney (1792 - 1875) ensina, em sua Teologia Sistemática, que “O amor é repetidas vezes reconhecido na Bíblia não só como o que constitui a verdadeira religião, mas como toda a religião. Toda forma da verdadeira religião é só uma forma de amor ou benevolência.”

As ofertas descritas no livro de Gênesis, inclusive do patriarca Abraão, mas também de Jacó, de Caim e de Abel, foram realizadas espontaneamente, segundo a generosidade de cada um. Entretanto, a partir do momento em que Deus entregou os mandamentos, acabou a espontaneidade, inclusive para nós cristãos. Explico: a Lei Mosaica revelou os anseios que estavam no coração de Deus com relação a vários assuntos e, dentre eles, há um de importância central, “a assistência aos desprezados da sociedade”. Isso era feito por obrigação e, agora na nova aliança, Deus quer que continuemos a fazer, mas porque o Espírito d’Ele, que habita em nós, constrange-nos a amar, a sermos misericordiosos e a agirmos em favor do próximo. Antes pela Lei, agora por amor. Por isso, é importante analisarmos quanto os judeus davam por obrigação para que nós possamos fazer ainda mais e sobretudo por amor. No livro de comentários bíblicos Beacon, há a seguinte observação: “Se os judeus que vivem sob a lei reconheceram a soberania de Deus na disponibilidade da renda, com muito mais disposição os cristãos devem dar regular, proporcional e alegremente, levando em conta o Dom indizível de Deus!”

Ao fazer uma extensa e muito bem elaborada série de comentários ao Sermão do Monte, John Wesley lembra que Jesus exigiu que nós fizéssemos mais do que faziam os fariseus (Mt. 5:17- 20). Ele afirma que, para isso, deveríamos primeiramente avaliar se fazemos pelo menos igual a eles, para então nos esforçarmos em fazer mais.

Mesmo assim, Jesus disse: “Se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus”. Essa é uma declaração solene que todos os cristãos deveriam considerar seriamente, com profundidade. Mas, antes de indagarmos como nossa justiça pode exceder à dos fariseus, vamos analisar se nos aproximamos deles no presente. (...)

Os fariseus mais rigorosos não se contentavam em dar apenas o dízimo. Entregavam o primeiro décimo aos sacerdotes e levitas, e ofereciam outro décimo a Deus por intermédio dos pobres. Davam esse décimo na forma de esmolas, assim como estavam acostumados a dar na forma de dízimos. Computavam esse montante com a máxima exatidão. Não ousavam guardar nenhuma parte. Sentiam que precisavam entregar tudo aquilo que pertencia a Deus. Entendiam que as esmolas eram devidas a Deus. Assim, no todo, davam de um ano para o outro um quinto de tudo que possuíam.


O rabino Shimon Taub detalha as regras que regem o assunto tsedacá e também o dízimo, que é chamado na doutrina judaica de maasser.

Quando uma pessoa sega o seu campo, antes que lhe seja permitido comer de seu produto, ela deve primeiramente separar uma parte para um Cohen, que equivale a dois por cento de sua colheita; a seguir o masser rishon (primeiro dízimo ordinário) é separado para os Leviim, que equivale a dez por cento; em seguida é a vez do maasser sheni (segundo dízimo) que é tirado para ser consumido em Jerusalém, que equivale a outros dez por cento. No ano três e no ano seis, ao invés de separar a segunda porção de dez por cento como maasser sheni, aquele montante é separado como maasser ani e é dado às pessoas pobres.


As Escrituras ordenam que entreguemos o dízimo do fruto do nosso trabalho, isto está em Levítico 27:30 e 32, em Deuteronômio 14:22, em Números, em Malaquias e em outras passagens. Vejamos o que dizem algumas delas:

Também todas as dízimas do campo, da semente do campo, do fruto das árvores, são do Senhor; santas são ao Senhor. (Lv. 27:30)
No tocante a todas as dízimas do gado e do rebanho, tudo o que passar debaixo da vara, o dízimo será santo ao Senhor. (Lv. 27:32)
Certamente darás os dízimos de todo o fruto da tua semente, que cada ano se recolher do campo. (Dt. 14:22)


Sobre as pessoas que dizem que o dízimo não deve ser entregue porque a maioria de nós não vive mais do campo ou do gado, acredito que não estão agindo em sinceridade de coração, ou vivem num engano terrível, pois devemos sempre procurar extrair o princípio por trás da regra. A norma era “semente e animais”, o princípio é o “resultado de nossos esforços”. Seria equivalente a dizer que não “crucificaremos o eu”, porque nos dias atuais não se usa a cruz como na época de Jesus; ou que não precisamos seguir os passos d’Ele, porque suas pegadas foram apagadas com o tempo.

As passagens bíblicas que fundamentam o dízimo aos pobres são, entre outras, Deuteronômio 14:28-29 e 26:12.

Ao final de cada três anos traze igualmente todos os dízimos da colheita do terceiro ano, armazenando-os em tua própria cidade. Isso para que os levitas, que não tem parte na herança contigo, os estrangeiros, os órfãos e as viúvas que vivem nas tuas cidades possam se achegar, comer e saciar-se, e para que Yahweh, teu Deus, os abençoe em todo o trabalho das tuas mãos! (Dt. 14:28-29)

No terceiro ano, ano dos dízimos, quando tiveres acabado de separar todo o dízimo da tua colheita e o tiveres dado ao levita, ao estrangeiro, ao órfão e à viúva para que comam e fiquem saciados em tuas cidades. (Dt. 26:12)


No livro de comentários bíblicos Beacon (pág. 448, CPAD), relata-se que existem duas interpretações para a passagem de Números 18:21-24, em conjunto com Deuteronômio 14:28-29. Alguns sustentam a existência de apenas um dízimo devido aos levitas – que ficam com a maior parte –, e que a cada três anos é compartilhado também com o estrangeiro, o órfão e a viúva. Mas há outra concepção bem diferente dessas passagens, a dos judeus, que entendem haver um segundo dízimo:

A concepção judaica é que as providências nestes versículos dizem respeito a um segundo dízimo além do primeiro, que, de acordo com Números 18:21-24, era dado inteiramente aos levitas. Isto significa que quase um quinto da renda é dado em dízimos, embora a maior parte do segundo dízimo, não considerando todo o terceiro ano, é consumido pelo dizimador e sua família. Esta não é só uma opinião teórica sobre a passagem, mas é uma prática entre os judeus.


Nas primícias descritas pelo rabino Shimon Taub, o princípio é honrar a Deus destinando os primeiros resultados de nossos esforços ao sacerdote, que é o Seu representante na Terra, demonstrando com isso que Ele está em primeiro lugar em nossas vidas. Há a peculiaridade de não ser indicado o valor da contribuição. Os mandamentos dizem apenas que devemos entregar os “primeiros” frutos de nosso trabalho. Por isso é que alguns rabinos sustentam ser 1/60 (1,66%), 2% ou até 1/40 (2,5%), mas sempre conforme a generosidade de cada um. Já o apóstolo Paulo é bem mais exigente e diz que devemos repartir de todos os nossos bens com quem nos ensina a Palavra (Gálatas 6:6).

As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa do Senhor teu Deus; não cozerás o cabrito no leite de sua mãe. (Ex. 34:26)

Então tomarás das primícias de todos os frutos do solo, que recolheres da terra, que te dá o Senhor teu Deus, e as porás num cesto, e irás ao lugar que escolher o Senhor teu Deus, para ali fazer habitar o seu nome. (Dt. 26:2)

Honra ao Senhor com os teus bens, e com a primeira parte de todos os teus ganhos. (Pv. 3:9)


Em outra compilação judaica de comentários ao Livro de Provérbios, feita por Adolpho Wasserman, consta a seguinte explicação quanto ao provérbio: “Honre ao Senhor com seu recurso e com os primeiros frutos de seu produto, de modo que seus celeiros se encherão com fartura, e seus tonéis transbordarão com vinho novo”.

Os rabinos estabelecem que se deve dar como terumá aos sacerdotes cerca de 1/60 a 1/40 do que se produziu, de acordo com a generosidade de cada um. Do restante, um décimo é deduzido para os levitas. Isto é conhecido como o primeiro dízimo. O segundo dízimo é separado para ser comido em Jerusalém em estado de pureza. De 3 em 3 anos o segundo dízimo deve ser dado aos pobres, para ser comido em qualquer lugar, não necessitando preservar o estado de pureza (Rashi).


Existe certa concordância acerca de três contribuições:
 
  1. para um cohen, isto é, um sacerdote, que pode variar, de 1,66% (1/60) a 2,5% (1/40), dependendo da generosidade da pessoa;
  2. 10% para os levitas, ou seja, que representam os trabalhadores do templo;
  3. 10% para ser consumido em Jerusalém e, a cada três Anos, esses 10% serão destinados aos pobres.


As duas primeiras obrigações são facilmente observadas nas igrejas evangélicas. O dízimo é amplamente ensinado e praticado também na Igreja Católica. Já a contribuição para o sacerdote, ou “primícias”, é menos comum, mas algumas pessoas a conhecem e a praticam, normalmente dividindo a renda mensal por 30 e entregando-a para uso pessoal do sacerdote. No dízimo, o objetivo é haver mantimento na Casa do Senhor; nas primícias, é honrar a Deus.

O segundo dízimo, maasser sheni, por dois anos, devia ser consumido em Jerusalém, em estado de pureza. E, no terceiro ano, ser destinado aos pobres. Diluindo essa obrigação, é fácil concluir que, no mínimo, 3,33% de nosso rendimento deve ser entregue para o socorro aos necessitados.

Se trata aqui de um dízimo doado irregularmente de acordo com o ciclo de sete anos que concluía com o ano sabático. Só que diferentemente do maasser sheni, o segundo dízimo, que era dado no primeiro, no segundo, no quarto, no quinto e no sétimo ano, o maasser ani, o dízimo dos pobres, era dado no terceiro e no sexto ano. Isso resultava numa média menor, da ordem de 3,3%.

Antes de prosseguirmos convém citar que o judaísmo rabínico entende que a prática de dizimar é uma faca encostada na garganta de nosso egoísmo. É importante ressaltar que os argumentos tecidos por cristãos de que o dízimo envolve apenas produtos do campo não tem a ver com o judaísmo. Este sempre entendeu que colheita e renda são frutos das bênçãos de Adonay.


Porém, a doutrina judaica sustenta que para a tsedacá deve ser destinado no mínimo 10%, e não os 3,33%. A explicação desse percentual ser mais elevado é que aqueles dízimos que não seriam mais consumidos em Jerusalém nos dois primeiros anos deveriam ter novo destino: os pobres. Concordo que esta é, indiscutivelmente, uma prática de grande mérito, entretanto, entendo que não pode ser vista como uma obrigação decorrente da Lei dada por Deus, pois é apenas uma faculdade.

Dito isso, voltemos ao que nos prende agora, o maasser ani, que durante a época do templo os judeus deviam dar aos pobres separando 10% de suas rendas trienalmente (média de 3,3% ao ano). Hoje os judeus decidiram aumentar para 10% ao ano a fim de não ficarem em falta com o Criador, de quem se consideram sócios, já que antes tinham de dar 10% anual para o templo, além dos 3,3% em média para os pobres.

Não podemos confundir tsedacá com o dízimo dos pobres. São duas práticas intimamente relacionadas, chegando quase a se confundirem, mas que são diferentes por conta de seus fundamentos. Tsedacá é o ato de ajudar nas necessidades dos vulneráveis da sociedade. Normalmente demanda dinheiro, mas às vezes apenas tempo e esforço pessoal, como, por exemplo, viabilizar um emprego ou auxiliar num empreendimento que fará com que haja autossuficiência, isto é, “fortalecendo a mão”. O dízimo trienal aos pobres, por outro lado, é o ato de compartilhar com eles parte do dinheiro que Deus proveu. Quando se dá esse dízimo e se cuida para que chegue às mãos de quem realmente precisa, automaticamente também se está cumprindo a tsedacá.

No judaísmo, não há divergências de que praticar tsedacá é um mandamento estabelecido por Deus. Entretanto, o mesmo não ocorre com a entrega do dízimo aos pobres, pois há discussões sobre a sua obrigatoriedade. É certo que para cumprir tsedacá geralmente se desembolsa dinheiro, porém, a quantia poderá variar conforme a necessidade. As explicações abaixo esclarecem esses posicionamentos:

A maioria das autoridades são de opinião que maasser kessafim é apenas um min’hag (costume) que foi aceito por algumas pessoas e, assim, cabe a cada indivíduo determinar a si próprio se quer, ou não, dar maasser.
No entanto, no caso em que haja pessoas pobres diante do indivíduo, ou se alguém conhece pessoas necessitadas, então ele está obrigado a dar pelo menos o mínimo de um décimo como tsedacá, tal como já explicado anteriormente no Capítulo Um.


Com tanta pobreza e com tantas pessoas padecendo por falta de alimentos, roupas, medicamentos e outras inúmeras carências, não podemos sinceramente afirmar que não sabemos da existência de pessoas passando por dificuldades, o que, segundo o ensinamento transcrito acima, torna obrigatória a entrega mínima de 10%. Sobre as pessoas que resistem em entregar esse dízimo, o rabino Eliezer Shemtov faz uma interessante observação:

Há quem veja a tsedacá como um imposto, ou como um ônus do qual tentam se safar com o mínimo possível. Mas eu sempre disse que há outra maneira de encará-la: Deus te dá 90% de comissão para administrar 10% de tsedacá... Até que eu mencionei isto a meu amigo Michel Cohen, que me disse estar errado com os números. É claro que aquele que fica com 90% de tudo daquilo que possui, na verdade recebe 900% daquilo que dá...


Assim como o judaísmo indica esse mínimo a ser destinado para a tsedacá, também há a orientação do máximo de 20%. O rabino Shimon Taub explica que esse teto de contribuição se originou durante um dos exílios da Suprema Corte Judaica, quando foram reeditadas algumas leis que haviam sido esquecidas. Uma dessas leis era a definição do limite, cujo objetivo era evitar o empobrecimento do judeu. Mas ele aponta exceções:
 
  1. Antes de a pessoa morrer: desde que esteja assegurada a provisão da família mais próxima, quando estiver próximo do falecimento (diríamos até em testamento);
  2. Os que são muito ricos ou que possuem renda estável: por causa da improvável possibilidade de tornarem-se pobres;
  3. Quando pessoas carentes estão à sua frente; para suprir necessidades básicas e quando há risco à vida por falta de alimentos, pois a vida deve ter prioridade absoluta;
  4. Para patrocinar instituições de ensino de Torá e estudiosos de Torá: a justificativa é que a transmissão dos conhecimentos da verdade de Deus é fundamental para a humanidade;
  5. Resgatando Cativos: além de permitido, é até louvável socorrer pessoas nessas situações;
  6. Dinheiro Imerecido: no caso de sorteios, loterias, premiações;
  7. Expiação por um pecado: sustenta-se que o mau decreto (diríamos maldição) decorrente de um pecado pode ser afastado por três ações: (1) arrependimento; (2) orações e (3) caridade. Por isso, com esse objetivo pode-se ultrapassar o limite; e
  8. Aqueles que desperdiçam dinheiro: se essas pessoas não são bons mordomos do dinheiro que Deus lhes confia, podem ultrapassar o limite de 20%, porque se fossem bons administradores sobrariam mais recursos para ajuda aos que precisam.

Vimos, então, o dever dos judeus de compartilhar no mínimo 3,33% da renda com os necessitados. Não há dúvidas de que nós, cristãos, estamos livres da lei, porém, o que não concordo é usarem essa verdade como desculpa para pouco ou nada fazer.

Jesus não nos desobrigou da lei para que abandonemos proveitosas práticas, tais como a oração, o jejum, a caridade (ou boas obras) e o perdão. A Lei não nos obriga a elas, mas o amor de Cristo deve nos constranger a fazê-las. O ato de destinar parte de nossos ganhos para o auxílio aos pobres, além de cumprir a vontade divina de que os vulneráveis sejam cuidados, ainda será útil para nossa alma e para nosso desprendimento dos bens materiais. Ambrósio de Milão, que viveu no século IV, considerado pai espiritual de Agostinho, no sermão “Nada mais valioso para a alma cristã do que a misericórdia”, afirma:

A misericórdia também é boa coisa, porque torna as pessoas perfeitas, no que imitam o Pai perfeito. Nada agracia a alma cristã tanto quanto a misericórdia; primeiramente, em relação aos pobres, como partícipes contigo no produto da natureza, que gera os frutos da terra para o uso de todos. Assim, dá liberalmente o que tens para os pobres, e ajuda teu irmão e companheiro. Tu dás uma moeda; aquele a quem ajudas, recebe vida. Tu dás dinheiro, mas representa tudo ao que recebe. Para tal pessoa, teu denário constitui-se em tudo o que possui.

Com relação a isto, a pessoa a quem ajudas concede mais a ti do que tu para ela, o teu bem pode depender dela. Quando vestes ao nu, vestes a ti mesmo com justiça. Quando trazes um estrangeiro para debaixo de teu teto, quando dás apoio ao necessitado, aquela pessoa adquire a amizade dos santos e habitação eterna para ti (Lucas 19.9).


Jesus disse que nós, cristãos, devemos fazer mais do que faziam os religiosos daquela época, por isso é obvio que será necessário destinarmos maior parte de nossas rendas do que eles destinavam. Para John Wesley, o caminho mais seguro sobre o quanto dar é o seguinte: “Não juntem tesouros na terra, mas deem tudo que puderem; ou seja, tudo que tiverem” ou, ainda, “E, se você tem algum desejo de escapar da condenação do inferno, dê tudo que puder; caso contrário eu não tenho mais esperança na sua salvação do que aquela de Judas Iscariote”. Sem dúvida que é uma orientação bastante estreita, mas vale a pena ler um texto em que ele detalha mais esse entendimento:

Vocês dão tudo que podem? Vocês que recebem cinco mil libras por ano e gastam apenas duas mil, vocês dão três mil de volta para Deus? Se não, vocês certamente roubam a Deus naquelas três mil. Vocês que receberam duas mil, e gastaram apenas um, deram a Deus as outras mil? Se não, vocês roubaram a ele exatamente na mesma quantia. “Mas eu não posso fazer o que eu quero com o meu dinheiro?”. Aqui está o fundamento de seu engano. Ele não é de vocês. Ele não pode ser, exceto se vocês forem o Senhor dos céus e terra. “De qualquer forma, eu devo providenciar para meus filhos”.

Certamente. Mas como? Tornando-os ricos? Então, vocês provavelmente farão deles ateus, como alguns de vocês já fizeram. “O que eu devo fazer, então?”. Senhores, falem aos corações deles! Ou o pregador fala em vão. Deixem a eles o suficiente para viveram, e não em indolência e luxúria, mas através do esforço honesto. E se vocês não têm filhos, sob qual princípio bíblico ou racional vocês podem deixar uma moeda atrás de si, mais do que aquilo que será gasto em seu enterro? Eu peço que considerem, no que vocês são melhores com relação ao que deixarem atrás de si? O que significa, se vocês deixarem dez mil libras, ou dez mil pares de sapatos e botas? Ó, não deixem coisa alguma atrás de si! Enviem tudo que vocês têm antes de seguirem para um mundo melhor! Emprestem; emprestem tudo ao Senhor, e lhes será pago novamente! Existe algum perigo de que esta verdade Dele falhará? Ela está fixada, como os pilares do céu.


Podemos considerar o caminho acima como a conduta “ideal” com relação a finanças, e não tenho dúvidas de que é bastante difícil vivê-la, entretanto, para pelo menos caminhar nesse alvo, devemos começar a viver o princípio da tsedacá, ainda que fazendo só o mínimo, porque, à medida que seguimos nesse propósito, Deus vai nos dando cada vez mais graça e desprendimento do dinheiro. Outra interessante opinião acerca do quanto compartilhar com os necessitados é a de C. S. Lewis, um ponto de vista peculiar sobre aquilo que Jesus espera de nós nesse assunto:

Eu não acredito que seja possível estabelecer o que devemos dar em termos quantitativos. Temo que a única regra segura seja de dar mais do que sobra. Em outras palavras, se as nossas despesas com conforto, luxos e diversão são equivalentes ao padrão do mundo entre os que ganham o mesmo tanto que nós, provavelmente estamos dando muito pouco. Se as nossas doações não nos causarem aperto ou embaraço, devo dizer que elas são demasiado pequenas. Então deve haver coisas que gostamos de fazer, mas não podemos por causa das nossas despesas com caridade. Estou me referindo agora à “caridade” no sentido comum. Casos particulares de necessidades e aflições vividas pelos próprios parentes, amigos, vizinhos ou empregados, que Deus, por assim dizer, nos força a notar, podem exigir mais ainda: até mesmo para debilitar ou pôr em risco a nossa própria posição.


Nunca podemos esquecer o princípio básico da tsedacá, de que o dinheiro não nos pertence, mas que somos meros mordomos do Dono do Universo, ao qual prestaremos contas do que fizemos com o que nos foi confiado. Wesley insiste: “’Mas eu não posso fazer o que eu quero com o meu dinheiro?’. Aqui está o fundamento de seu engano. Ele não é de vocês. Ele não pode ser, exceto se vocês forem o Senhor dos céus e terra.” Thimoty Keller também aborda de maneira clara essa ideia:

O mordomo de um grande patrimônio tinha uma vida confortável e aproveitava os frutos de seu trabalho, porém jamais cometia o erro de achar que a riqueza sob seus cuidados lhe pertencia. Sua incumbência era gerenciá-la de modo que agradasse o proprietário e fosse justo com os outros servos.


O leitor deve ter notado que existem vários parâmetros possíveis a seguir. Pode se basear no Antigo Testamento e entregar o mínimo de 3,33%. Pode seguir o conselho dos rabinos e dar de 10 a 20%. Pode fazer aquilo que John Wesley orientou: ganhar o máximo, gastar o mínimo e dar todo o restante. Ou pode, ainda, seguir a orientação de C. S. Lewis e dar não apenas o que está sobrando, mas o que nos obriga a sacrificar parte de nosso conforto por amor ao próximo. Qualquer que seja o caminho que seguirmos, não podemos esquecer a “generosidade” a qual nos lembra Jonathan Edwards: “Deus nos dá a direção de como devemos dar em tal caso, fartura e de bom grado. Devemos dar generosamente e suficientemente para a necessidade do pobre”. Apenas um caminho não encontra fundamento na palavra de Deus: a inércia. Essa omissão em “pôr a mão no bolso” em favor dos pobres é um dos desdobramentos da avareza, conhecida como pecado capital, porque dela se originam outros.

Enfim, procurei deixar evidente a obrigação de dedicarmos parte daquilo que conquistamos com a inteligência, a vivacidade, a energia, a capacidade e o talento que Deus nos proveu para beneficiar os vulneráveis. Novamente uso as palavras de John Wesley: “Vocês não sabem que Deus os incumbiu (além de comprar o necessário para suas famílias) de alimentarem o faminto, vestirem o nu, ajudarem o estranho, a viúva, o órfão, com aquele dinheiro; e, na verdade, até onde for, aliviarem as necessidades de toda a humanidade?”. Se chamamos o auxílio aos necessitados de tsedacá, de caridade, de filantropia, de boas obras ou de obras de misericórdia, pouco importa, porque a essência daquilo que está no coração de Deus é o que nos interessa. E Ele almeja tanto isso, que faz algo único: Põe-nos à prova!
 
 
 

X – CONSEQUÊNCIA: “ATÉ QUE SEUS LÁBIOS SE CANSEM DE FALAR BASTA”

O apóstolo Paulo foi bem claro ao afirmar que aqueles que buscam ficar ricos “caem em tentação, em armadilhas e em muitas vontades loucas e nocivas” (I Tm. 6:9), por isso, esse desejo não deve estar no coração de qualquer pessoa, muito menos no coração dos cristãos, que anseiam passar a eternidade no Reino dos Céus. Deus conhece minha intenção e sabe que não almejo usar Sua palavra para incentivar a busca pelo enriquecimento, mas que meu sonho é ver todos destinando parte de seus ganhos para o auxílio aos desvalidos, demonstrando, com isso, o amor a Cristo.

O dinheiro, por si mesmo, é neutro e pode ser benção ou maldição, depende de quem está no comando. Clemente de Alexandria, considerado um dos mais eruditos cristãos e que viveu no século II d.C., ao discorrer sobre “Quem é o rico que deverá ser salvo?”, afirma: “A riqueza em si mesma não é boa nem má, e, sendo inculpável, não deve ser responsabilizada, mas sim aquele que tem o poder de usá-la bem ou mal, pela razão de sua própria escolha voluntária”.

Praticamente todas as pessoas sabem que a Bíblia expõe o dever de cada um ajudar o próximo, mas raras são as que efetivamente doam algo que vai além de quantias que quase nada representam dentro de seus orçamentos. Normalmente estão aprisionadas pelo medo e pela falta de fé de que Deus cumprirá o que prometeu. Thimoty Keller assim descreve o problema:

Podemos argumentar seguramente que o problema de nossa sociedade não é as pessoas desconhecerem que devem partilhar com os outros e ajudar os pobres. A maioria sabe disso e crê que deve ser assim. O problema verdadeiro é que, embora saibam, não têm motivação suficiente para colocar a mão na massa. Portanto, a grande questão é como motivar as pessoas a socorrer os famintos e pobres deste mundo.


Parece existir uma “barreira” que faz com que, apesar de reconhecerem o dever, não consigam sair da inércia. Keller, citado acima, entende que falta “motivação”. Jonathan Edwards afirma que a dificuldade ocorre porque “(...) o homem é regulado apenas por um princípio de amor-próprio (...)”, o que faz com que o ato de dar seja muito difícil por ser “(...) muito contrário à natureza corrupta (...)” do ser humano, que é movido pelo egoísmo. George Whitefield faz queixa semelhante:

Nada é mais valioso e louvável, e ainda assim, nenhum dever é menos praticado que o da caridade. Muitas vezes fingimos preocupação e pena pela miséria e sofrimento de nossos semelhantes, mas raramente lamentamos a condição o suficiente para aliviá-los de acordo com nossas possibilidades; mas a menos que o assistamos com o que possam ter em necessidade, tanto para o corpo, quanto para a alma, todos os nossos desejos não serão mais que palavras sem valor. (...) Se houver amor verdadeiro, haverá caridade; haverá um esforço para socorrer, ajudar, e aliviar de acordo com a possibilidade com que Deus nos abençoou.


Com a intenção de nos motivar a assistir os pobres, Deus fez promessas de bênçãos a quem agir em favor deles. Para Ele, não há qualquer problema em prosperar quem agir dessa maneira, pois nos conhece intimamente. Ele sabe que se formos assíduos na prática da ajuda aos necessitados, brotarão naturalmente em nosso espírito as virtudes do amor e da compaixão, e, consequentemente, estas nos causarão um crescente desapego ao dinheiro. Já vimos que os sentimentos caminham ao lado das ações.

O objetivo desse livro não é pregar prosperidade, porém, não posso ocultar que Deus estabeleceu princípios que, se praticados, gerarão as respectivas consequências. No caso da tsedacá, há fartura de promessas de bênçãos, inclusive materiais.

Inicialmente resisti à ideia de compartilhar esses ensinamentos, pois tinha medo de ser confundido com os pregadores da prosperidade, que buscam se beneficiar com a exploração da fé. Porém, Deus me levou a entender, primeiramente, que minha fonte de renda não deriva de qualquer atividade religiosa, mas da advocacia, a qual exerço diuturnamente há anos. Em segundo lugar, o entendimento de que o objetivo não é que quaisquer recursos sejam entreguem às igrejas, mas o foco é que cheguem às mãos e às mesas dos necessitados.

Então, para mim, foi de especial importância me basear, além da bíblia, também em pregadores “clássicos” que, pelos testemunhos de vida, demonstraram não ter qualquer interesse em acumular tesouros terrenos. Nesse sentido, um cristão como Jonathan Edwards ganha importantíssimo destaque.

Segundo informação da “Kairos Journal”, ele pregou o sermão denominado “O dever de caridade aos pobres” em 1733, o qual foi dirigido a um público que na época desfrutava das benesses do crescimento econômico e também das bênçãos espirituais do evangelho. Jonathan queria levar os ouvintes ao autoexame, repreendendo-os por se dizerem cristãos e ao mesmo tempo deixarem de praticar o mandamento divino da assistência aos pobres. Mas, apesar de ser uma repreensão, ele não omitiu a existência de recompensas terrenas e também no mundo vindouro.

Segundo, se você der aos necessitados, ainda que apenas como uma virtude moral, você estará no caminho de muitos ganhos nos interesses temporais. Os que dão como um exercício de graciosa caridade, estão no caminho de serem prósperos tanto aqui como no mundo vindouro (...).


Edwards baseou essa mensagem diretamente naquilo que está determinado em Deuteronômio 15.7-11:

Quando entre ti houver algum pobre, de teus irmãos, em alguma das tuas portas, na terra que o Senhor teu Deus te dá, não endurecerás o teu coração, nem fecharás a tua mão a teu irmão que for pobre;
Antes lhe abrirás de todo a tua mão, e livremente lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade.
Guarda-te, que não haja palavra perversa no teu coração, dizendo: Vai-se aproximando o sétimo ano, o ano da remissão; e que o teu olho seja maligno para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada; e que ele clame contra ti ao Senhor, e que haja em ti pecado.
Livremente lhe darás, e que o teu coração não seja maligno, quando lhe deres; pois por esta causa te abençoará o Senhor teu Deus em toda a tua obra, e em tudo o que puseres a tua mão.
Pois nunca deixará de haver pobre na terra; pelo que te ordeno, dizendo: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado, e para o teu pobre na tua terra. (Deuteronômio 15:7-11)


Deus faz a promessa que, se trienalmente destinarmos aos carentes o dízimo de nossas rendas, Ele nos abençoará em tudo que fizermos.

Ao fim de três anos tirarás todos os dízimos da tua colheita no mesmo ano, e os recolherás dentro das tuas portas; Então virá o levita (pois nem parte nem herança tem contigo), e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva, que estão dentro das tuas portas, e comerão, e fartar-se-ão; para que o Senhor teu Deus te abençoe em toda a obra que as tuas mãos fizerem. (Dt. 14:28-29)


O Salmo 41:1-2 é muito contundente em afirmar que aquele que atender ao desvalido, Deus fará feliz e abençoado aqui na terra:

Bem-aventurado é aquele que atende ao pobre; o SENHOR o livrará no dia do mal.


O Senhor o livrará, e o conservará em vida; será abençoado na terra, e tu não o entregarás à vontade de seus inimigos.


Da mesma forma, o Salmo 112 afirma que haverá riqueza e prosperidade na casa daquele que, dentre outras atitudes, espalha e é generoso com os carentes.

Louvai ao SENHOR. Bem-aventurado o homem que teme ao SENHOR, que em seus mandamentos tem grande prazer.
A sua semente será poderosa na terra; a geração dos retos será abençoada. Prosperidade e riquezas haverá na sua casa, e a sua justiça permanece para sempre.
Aos justos nasce luz nas trevas; ele é piedoso, misericordioso e justo.
O homem bom se compadece, e empresta; disporá as suas coisas com juízo;
Porque nunca será abalado; o justo estará em memória eterna.
Não temerá maus rumores; o seu coração está firme, confiando no Senhor.
O seu coração está bem confirmado, ele não temerá, até que veja o seu desejo sobre os seus inimigos.
Ele espalhou, deu aos necessitados; a sua justiça permanece para sempre, e a sua força se exaltará em glória. O ímpio o verá, e se entristecerá; rangerá os dentes, e se consumirá; o desejo dos ímpios perecerá. (Salmos 112:1-10).


O rei Salomão afirma que “Quem é generoso será abençoado, pois reparte o seu pão com o pobre.” (Pv. 22:9), reafirma que “Quem dá com generosidade, vê suas riquezas se multiplicarem (...),” (Pv. 11:24) e insiste novamente que “O generoso sempre prosperará; quem oferece ajuda ao necessitado, conforto receberá” (Pv. 11:25).

A bíblia vincula a situação de “tudo ir bem na vida” de alguém, ao fato dessa pessoa considerar a situação do aflito e do necessitado, e que isso sim é conhecer a Deus: “Julgou a causa do necessitado e do pobre; e assim, tudo lhe transcorria de modo agradável. E, afinal, não é isso que significa conhecer-me? Afirma o Eterno.” (Jr 22:16, BKJ). A fartura, mesmo onde haja dificuldades e crises, é assegurada àqueles que ajudam os que têm fome e buscam satisfazer seus anseios:

Se com renúncia própria beneficiares os que têm fome e buscares satisfazer o anseio dos aflitos, então, naturalmente, a tua luz despontará nas trevas e a tua noite será como o meio-dia.
Yahweh será o teu guia continuamente e te assegurará a fartura, mesmo em terra árida; ele revigorará os teus ossos e tu serás como um jardim regado, como uma fonte generosa e borbulhante cujas águas nunca se esgotam. (Isaías 58:10-11, BKJ)


Ambrósio de Milão também afirmou: “Serás certamente abençoado se nenhum pobre se afastar de tua casa com as mãos vazias. E ninguém será mais abençoado do que aquele que atende as necessidades do pobre e o sofrimento dos fracos e indigentes”.

A benção não se restringe apenas a ter prosperidade material e espiritual, mas também se refere a deixar de perder, servindo a prática de tsedacá como ferramenta de conservação daquilo que se conquistou. Jonathan Edwards afirma: “Você pode confiar na sua própria sabedoria para a prosperidade futura. Mas se Deus ordenar a adversidade, ela virá”. Por isso, disse o investidor e filantropo Sir John Templeton: “O melhor investimento, com o menor risco e o maior dividendo, é repartir”. Os sábios da Torá ensinam que a tsedacá, juntamente com o arrependimento e com as orações, “anula maus decretos”. Não é sem motivo que Daniel orientou o rei Nabucodonosor a praticar a misericórdia com os pobres para afastar as consequências da iniquidade que praticou:

Portanto, ó rei, aceita o meu conselho e põe termo, pela justiça, em teus pecados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres; e talvez se prolongue a tua tranquilidade. (Daniel 4:27)


Enfim, não é em uma passagem isolada que Deus garante prosperidade, bênção e fartura para os que ajudam os pobres. Também não é fruto de uma rebuscada interpretação teológica, muito pelo contrário, é algo escancarado nas Escrituras. Na verdade, é apenas a evidência do princípio da reciprocidade, pois da mesma maneira que se formos benção na vida daqueles que necessitam, Deus será na nossa. Se a medida do Pai para conosco será larga e abundante ou estreita e escassa, quem decidirá somos nós. Jesus ordenou que déssemos para que também recebêssemos e ensinou que a medida que usarmos, será conosco usada.

Daí sempre, e recebereis sobre o vosso colo uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante; generosamente vos darão. Portanto, à medida que usares para medir o teu próximo, essa será usada para vos medir. (Lc. 6:38 BKJ)

Não é à toa e muito menos sem base bíblica, que os sábios da Lei Judaica insistem que aquele que pratica tsedacá ficará rico e de uma maneira muito excelente, porque também haverá o agradável contentamento e satisfação com aquilo que Deus nos confiou.

O dito de nossos sábios “Asser bishvil she titasher” — “Dê o dízimo para que você enriqueça” — não se refere à riqueza material, mas à qualidade de ter todas as necessidades atendidas, de modo que nada falte. Pois esse é o aspecto principal da riqueza, que pertence ao lado da Kedushá, conforme está escrito: “Quem é rico? Aquele que está contente com a sua porção.” (Pirkei Avot 4:1) Meor Enaim, Parashat Re’eh.


O rei Salomão, conhecedor da natureza humana, sabia que a busca pelo dinheiro pode se tornar infinita e insaciável, por isso escreveu: “Quem ama o dinheiro jamais terá o suficiente; quem ama as riquezas jamais ficará satisfeito com os seus rendimentos. Isso também não faz sentido”. (Eclesiastes 5:10). Da mesma forma, disse o filósofo grego Sócrates: “quem não está satisfeito com o que tem, não ficará satisfeito com o que não tem”. Portanto, sentir satisfação com aquilo que se tem é, sem dúvidas, uma dádiva divina. John Wesley também nos dá sua opinião:
 

E o mais verdadeiro, como o ateu observa: Crescit amor nummi, quantum ipsa pecúnia crescit, — “Assim como o dinheiro cresce, assim o amor ao dinheiro aumenta na mesma proporção”. Da mesma forma que na hidropisia [acumulação anormal de líquido seroso nos tecidos], quanto mais você bebe, mais tem sede; assim será, até que esta sede insaciável mergulhe vocês no fogo que jamais será extinto!


Na vida de cada pessoa, há uma necessidade que só pode ser preenchida pela presença de Deus e somente com ela sentiremos paz e satisfação. Mas, infelizmente, muitos perdem tempo inutilmente procurando a saciedade em lugares errados, como nas drogas, no álcool, nos bens materiais, no consumismo, no intelectualismo, etc. Faço aqui um paralelo com a tsedacá. Quando se diz que haverá satisfação com o que se tem, é porque, à medida que se pratica as obras de misericórdia, expressando o amor de Deus, consequentemente passa-se a conhecê-Lo e a ser cheio d’Ele.

Por meio do profeta Jeremias, Deus disse que, ao “julgarmos” a causa do aflito e do necessitado, tudo sucederá bem e que isso significa conhecê-Lo. Yahweh não está dizendo para sermos “juízes”, mas para atentarmos para a condição dos pobres e, obviamente, agirmos no sentido de corresponder às suas necessidades.

Quando fizermos isso, estaremos preenchendo com o amor d’Ele o vazio que há em nossa alma e que só Ele pode ocupar: “Julgou a causa do aflito e necessitado; então lhe sucedeu bem; porventura não é isto conhecer-me? diz o Senhor” (Jeremias 22:16).

O sentimento de insatisfação é normalmente relacionado ao egoísmo. Então, quando tiramos o foco de nós mesmos e passamos a pensar no próximo e em suas necessidades, dedicando-nos a supri-las, nossos desejos por satisfazer nosso próprio ego começam a diminuir, atraindo um dos aspectos da prometida prosperidade, que é se sentir feliz com o que se tem. Nesse sentido, Timothy Keller diz que “na perspectiva bíblica, tanto a imoralidade sexual quanto o egoísmo material são resultado de uma vida centralizada no ego, em vez de centralizada em Deus.”

O rabino Weitman lembra que o único mandamento em que Deus permite que O testemos é no caso do cumprimento da tsedacá, quando receberemos bênçãos até dizermos “basta”. Ao prefaciar a obra “As Leis de Tsedacá e Maasser”, ele reforça essa verdade:

Os nossos Sábios (Shabat 32b) adicionam: “Até que seus lábios se cansem de falar basta”. Ou ainda: “Dê o dízimo e assim irás enriquecer”, garantem nossos Sábios (Taanit 9a, Shabat 119a).


Entre os cristãos, a promessa do livro de Malaquias (3:10) é bem conhecida, porém relacionada somente ao tradicional dízimo. O que é destinado aos pobres é pouquíssimo conhecido nas igrejas cristãs, mas isso não significa que a garantia de Deus não se aplica a elas. Devemos nos lembrar que aquela mensagem foi destinada aos judeus e, quando falavam em dízimos, eles sabiam que estavam incluídos todos. Note que esse profeta fala genericamente e no plural. O rabino Taub explica que a razão de Deus permitir ao homem testá-Lo nisso é porque ele será definitivamente rico, então não há problema em prová-lo. E aponta, ainda, outro motivo:

Outra razão é que, como é geralmente muito difícil que a pessoa reparta seu dinheiro, a Torá permitiu-lhe testar Hashem no que tange a dar maasser para garantir que aquela pessoa haverá de ajudar o pobre.


Enfim, a Bíblia está repleta de passagens em que Deus garante bênçãos aos que praticarem a ajuda aos necessitados e uma de suas facetas é a prosperidade material. Porém, não aquela que traz angústia e preocupações, mas descanso e plena satisfação, porque “A benção do Senhor é que enriquece; e não traz consigo dores” (Pv. 10:22).
 
 
XI - UM EXEMPLO INTERESSANTE

Muitas pessoas começaram a praticar tsedacá após já serem ricas e, talvez, o despertamento para isso tenha surgido apenas para servir como um alívio para a consciência. Deve ser, no mínimo, incômodo viver em riqueza quando ao redor milhões morrem por falta de assistência básica e nada fazer para mudar essa realidade. Mas, mesmo nesses casos, pelo menos a prática será útil para a manutenção do que possuem. Só não pode ocorrer aquilo que C. S. Lewis disse e que já citamos acima: tendo por base a renda e o padrão de vida das outras pessoas na mesma condição, acabam repartindo apenas o que é irrisório. Proporcionalmente tão pouco que não há qualquer sacrifício aos prazeres consumistas, não demonstrando qualquer compromisso com o Reino de Deus e servindo apenas para lenitivo da consciência. Jesus se referiu a essas pessoas em Lucas 21:4: “porque todos aqueles deram daquilo que lhes sobrava; (...)”. Podem até ser em milhares ou milhões de reais, mas ainda assim ser “sobra”.

Mas existem pessoas que, mesmo sem grandes recursos, esforçam-se para praticar o amor ao próximo, sacrificando seu legítimo direito de usufruir daquilo que conquistaram. Ao assim agirem, abrem um canal para que o Céu derrame bênçãos abundantes em suas vidas também, já que Deus não mente.

No livro os segredos da mente milionária”, T. Harv Eker relata que quando se mudou para um sofisticado bairro da cidade de San Diego, imaginou que teria vizinhos esnobes e desagradáveis, mas, para sua surpresa, conheceu pessoas simpáticas e dedicadas à pratica da caridade. Um casal com o qual ele e sua esposa jantaram chamou especialmente a atenção dele, porque tinha como meta anual fazer a maior doação individual para o Hospital da Criança. O marido, médico angiologista, “doava” sua terça-feira para realizar gratuitamente cirurgias em pessoas carentes da cidade, dia em que trabalhava das 6h às 22h. Além disso, também dirigia uma organização empenhada em convencer outros médicos a adotar o “dia grátis”. Se essa prática se repete semanalmente, a oferta desse médico para as boas obras é, no mínimo, de 20% de sua renda.

O pastor Craig Hill, presidente da Family Foundations International, realiza o famoso curso “Veredas Antigas”, que é tão poderoso que muitas vidas são transformadas após ele. Inclusive, foi assim com a minha no ano de 2008. Em seu livro “Cinco Segredos da Riqueza que 96% das Pessoas Não Sabem”, ele relatou e em seguida comentou um diálogo bastante interessante de um amigo com um contador judeu. É muito elucidativo, por isso transcrevo:

Outro amigo meu, Earl Pitts, falou-me a respeito de uma conversa interessante que teve com seu contador judeu, muitos anos atrás. Depois de conversar sobre seus impostos, Earl perguntou se poderia fazer a ele uma pergunta pessoal. O contador ficou contente por poder ajudar. Então Earl perguntou:
-      Eu presumo que você tenha clientes tanto judeus
quanto cristãos. Estou certo?

  • É claro - respondeu o contador.
Diga-me honestamente - continuou Earl - quem é mais próspero? Quem tem demonstrações financeiras de maior valor: seus clientes judeus ou cristãos?
Como se poderia suspeitar, o contador deu risada e respondeu:
  • Meus clientes judeus, é claro. Aproximadamente dez por um em importância.
Então, Earl indagou:
  • Mais uma pergunta: como você mesmo é judeu, por que você acha que isso é assim? Qual a sua opinião pessoal?
O contador pensou um instante, então pegou a Bíblia de Earl, que ele levava consigo, e disse algo parecido com o seguinte:
Vocês, cristãos, tendem a viver conforme o que está na segunda parte deste livro, enquanto nós, judeus, vivemos normalmente de acordo com o que está escrito na primeira parte. Infelizmente, para os cristãos, a maioria dos princípios financeiros está na primeira parte deste livro. Assim nós, judeus, cremos nesses princípios e permanecemos neles, enquanto vocês, cristãos, parecem ignorá-los e desconsiderá-los porque são do Antigo Testamento. Mas eu creio que a fidelidade a esses princípios é o que faz as pessoas prosperarem financeiramente.
Desde que ouvi isso pela primeira vez de meu amigo Earl, já escutei, diversas vezes, explanações de amigos judeus semelhantes ao que segue: “Na verdade, eu não compreendo totalmente suas crenças cristãs, mas pelo que entendo, parece que a maioria dos cristãos tem a ideia de que podem violar os princípios básicos descritos na Bíblia e, depois, são perdoados por causa da graça de Deus por meio do sacrifício de Cristo. Assim, acreditam que tudo estará em ordem. Além do mais, parece-me que a maioria dos cristãos acha que não precisa prestar nenhuma atenção aos princípios financeiros explicados em Provérbios ou no restante do Antigo Testamento porque fazem parte da “Lei”. Como os cristãos estão ‘em Cristo’ e não mais ‘debaixo da lei’, não sentem necessidade de permanecer nesses princípios financeiros do Antigo Testamento. Ao contrário, nós, judeus, acreditamos que de fato temos que praticar e permanecer nestes princípios da Lei. Assim, na minha opinião e de acordo com a minha experiência, permanecer nos princípios financeiros bíblicos produz prosperidade muito maior do que ignorá-los e desconsiderá-los”.
Minha observação pessoal tem sido a de que muitos evangélicos e cristãos renovados gostam de estudar a Bíblia. Muitos podem lhe dizer exatamente em que parte se encontra determinada passagem e até citar o versículo para você. Entretanto, frequentemente, à medida que estudam a passagem bíblica, tais cristãos na prática violam os princípios de vida contidos nela. Por outro lado, muitos judeus não sabem apontar em que parte da Bíblia se encontra determinada passagem, mas por causa da cultura e dos ensinamentos familiares, eles inerentemente praticam o princípio contido nela.[1]
[1] HILL, Craig. Cinco segredos da riqueza que 96% das pessoas não sabem. 1ª edição. Pompéia:
Universidade da Família. 2014. p 8-9.



Um exemplo que gosto de citar é o do batista John Davison Rockefeller, seguramente um dos homens mais ricos do mundo moderno. Em valores atualizados, até o ano de 2006, ele teria algo em torno de 664 bilhões de dólares americanos, ou seja, muitas vezes mais do que os maiores bilionários da atualidade: Carlos Slim, Bill Gates, Warren Buffett, etc. Chama atenção a informação extraída do livro de Ron Chernow sobre a vida desse homem, de que, desde o humilde início de sua carreira, quando “(...) o total de seus primeiros três meses de salário foi de US$50, já era adepto da filantropia, doando 6% do que ganhava à caridade, aumentando para 10% aos vinte anos’’; e de que “A riqueza de Rockefeller cresceu junto com suas doações (...)’’.

Essa informação é confirmada por Peter J. Johnson, historiador e associado da família Rockefeller, que acrescenta que sua mãe Eliza Davidson Rockefeller “foi uma mulher muito devota, que educou os seus filhos de acordo com os preceitos cristãos’’. Ele ainda afirma o seguinte:

E uma parte significativa do seu rendimento continuou a ser dedicado ao que poderia ser denominado de “caridade” - ainda não tinha se tornado filantropia. De 1855 até 1890, ele doou quase que exclusivamente para organizações da Igreja Batista nos EUA. Isto não era incomum. As pessoas tendem a doar para as organizações das quais elas se sentem parte. Além disso, não havia muitas organizações seculares para as quais doar dinheiro.
Além de rico, JDR tinha se tornado muito famoso. Cartas pedindo assistência financeira transbordavam em seu gabinete. Haviam malas enormes cheias de cartas que o acompanhavam em diferentes lugares e ele tentava ler cada carta, avaliar o pedido, e enviar dinheiro quando oportuno. Mas foi ficando cada vez mais difícil para ele realizar este trabalho sozinho.


No livro “Como Evitar Preocupações e Começar a Viver”, no capítulo “Histórias Verdadeiras”, Dale Carnegie nos conta mais detalhes daquilo que foi feito por esse homem.

Nunca houve antes, durante toda a história, nada que se assemelhasse, sequer remotamente, à Fundação Rockefeller. É uma coisa única. Rockefeller sabia que em toda parte do mundo há generosas iniciativas de homens de visão. Fazem-se pesquisas; fundam-se universidades; médicos lutam no combate à doença - mas tais obras altruísticas morrem, demasiado frequentemente, por falta de fundos. Resolveu ajudar esses pioneiros da humanidade - não “leva-los pela mão”, mas dar-lhes algum dinheiro, ajudando-os a que se ajudassem a si próprios. Hoje, você e eu podemos agradecer a John D. Rockefeller os milagres da penicilina e de dezenas de outras descobertas que o seu dinheiro ajudou a financiar. Você pode agradecer-lhe pelo fato de seus filhos não morrerem mais de meningite cérebro-espinhal, doença que costumava matar quatro em cada cinco crianças atacadas. E pode também agradecer-lhe pelos progressos feitos quanto à malária e tuberculose, ou a gripe e difteria, e a muitas outras enfermidades que ainda afligem a humanidade.


Gosto de citá-lo porque é um dos casos de alguém que não esperou ser rico e ter dinheiro sobrando para só então compartilhar com as obras sociais. Desde que seu salário era irrisório, já praticava o princípio. Calcula-se que ele doou cerca de US$ 540 milhões e que morreu com cerca de US$ 1,4 bilhão. Numa conta superficial, nota-se que generosamente ofertou por volta de 1/3 daquilo que acumulou. Se a fortuna dele atualizada até 2006 representaria cerca de US$ 664 bilhões, então, proporcionalmente, ele distribuiu para projetos sociais em torno de US$ 256 bilhões, ou 5,12 vezes o patrimônio de Bill Gates em 2006, o homem mais rico do mundo naquele ano, segundo a Forbes. Ele frequentemente declarava se basear na orientação de John Wesley de ganhar o máximo, gastar o mínimo e doar o que pudesse.

Sei que existe muita crítica acerca do rumo espiritual que a Família Rockefeller tomou a partir dos descendentes desse patriarca, pois antes dele era uma família cristã com modestos recursos. Aparentemente, ele não conseguiu transmitir a seus filhos o mesmo temor a Deus que tinha. Por outro lado, analisando a intensidade com que a família continua fazendo doações multimilionárias e, às vezes, bilionárias, percebe-se que, pelo menos no que diz respeito às finanças, aprenderam o princípio de conservar o seu patrimônio. Ao contrário de muitos descendentes que perderam as fortunas, os Rockefeller conseguiram conservar o poderio financeiro.

Muitas são as pessoas que, independentemente de seu relacionamento com Deus, colhem os frutos de praticar um princípio que está “escancarado” nas Escrituras. John Bevere confirma: “Conheço não-cristãos que têm muito sucesso nos negócios porque costumam fazer doações para instituições de caridade. Eles estão colhendo os benefícios da Lei da plantação e da colheita, que é explanada de forma tão clara nas Escrituras.”
 

 
 
XII – PASSAGENS BÍBLICAS QUE REVELAM O CUIDADO ESPECIAL DE DEUS COM AS PESSOAS EM SITUAÇÃO DE NECESSIDADE

Aproximando-nos do final deste livro, apresento um apanhado de passagens bíblicas que demonstram o cuidado especial de Deus para com as pessoas que muitas vezes são consideradas sem valor em nossa sociedade. Se o Espírito Santo e os textos até aqui descritos ainda não foram suficientes para fazer o leitor se desapegar do dinheiro e adotar a prática de destinar parte da renda para o cuidado aos necessitados, espero que pelo menos ver as ordens e promessas de Deus reunidas ajude nesse intento.


 
  • Quando houver um pobre em teu meio, ainda que seja um só dos teus irmãos numa de tuas cidades, na terra que o SENHOR teu Deus te está doando, não endurecerás teu coração, tampouco fecharás a mão para com este teu irmão pobre; pelo contrário: abre-lhe generosamente a mão, emprestando o que lhe falta, na medida da sua necessidade. Fica atento a ti mesmo, para que não surja em teu íntimo um pensamento avarento e pagão: ‘O sétimo ano, o ano do cancelamento das dívidas, está se aproximando, e não quero ajudar o meu irmão necessitado!’ Cuidado! Ele poderá apelar ao SENHOR contra a tua pessoa, e serás culpado desse pecado. Quando lhe deres algo, não dês com má vontade, pois em resposta a esse gesto, Yahweh, teu Deus, te abençoará em todo o teu trabalho, em todo empreendimento da tua mão. Nunca deixará de haver pobres na terra; é por esse motivo que te ordeno: abre a mão em favor do teu irmão, tanto para o pobre como para o necessitado de tua terra! (Deuteronômio 15:7-11)
  •  
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  • Bem-aventurado aquele que dá atenção ao desvalido! No dia do seu infortúnio, o SENHOR o livrará. O SENHOR o protegerá e preservará sua vida; Ele o fará feliz na terra, e não o entregará à sanha dos seus inimigos. Na enfermidade, o SENHOR lhe dará pleno amparo, e da doença o restaurará. (Salmos 41:1-3)
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  • Não permitas que o oprimido se retire humilhado! Faze que o pobre e o necessitado louvem o teu nome. (Salmos 74:21)
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  • Bem-aventurado quem se compadece e empresta com generosidade. O justo jamais será grandemente abalado; não viverá temeroso, esperando más notícias: seu coração está seguro e nada temerá. Generosamente reparte o que possui com os pobres. (Salmos 112:5-9)
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  • Quem trata bem os pobres empresta ao SENHOR, e Ele o recompensará regiamente! (Provérbios 19:17)
  • Comentário: “Quando um homem ‘dá a um pobre’ graciosamente, não esperando nenhum retorno, é como se ele ‘emprestasse ao Senhor’. Então, Ele não somente ‘reembolsa o empréstimo’, mas também o amor que o homem assim confere, que significa mais que dinheiro.”[1]
  •  
  •  
  • Quem fecha os ouvidos às súplicas dos pobres, um dia também clamará e não será ouvido. (Provérbios 21:13)
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  •  
  • Quem dá aos pobres não viverá em necessidade, mas quem esconde seus olhos dos que precisam de ajuda sofrerá muitas maldições. (Provérbios 28:27)
  •  
  •  
  • O homem generoso será abençoado, porquanto reparte seu pão com o necessitado. (Provérbios 22:9)
  • Comentário: “Em contraste com aquele que busca governar os pobres e explorá-los, o que tem um olho generoso e dá do seu pão será abençoado com as bênçãos de D’us. Será abençoado porque dá aos pobres do seu pão, e continuará a dar, pois se ele prospera terá mais a lhes dar (Metsudat David).”[2]
  •  
  • Se com renúncia própria beneficiares os que têm fome e buscares satisfazer o anseio dos aflitos, então, naturalmente, a tua luz despontará nas trevas e a tua noite será como o meio-dia. Yahweh será o teu guia continuamente e te assegurará a fartura, mesmo em terra árida. Ele revigorará os teus ossos, e tu serás como um jardim regado, como uma fonte generosa e borbulhante cujas águas nunca se esgotam. (Isaías 58:10-11)
  •  
  •  
  • Por causa da opressão do necessitado e do clamor do pobre, agora me levantarei, diz o SENHOR. Eu os protegerei e salvarei a quem por isso anseia. Por causa da opressão dos pobres, e do gemido dos necessitados, levantar-me-ei agora, diz o Senhor; porei em segurança quem por ela suspira. (Salmos 12:5)
  •  
  •  
  •  Ele tem compaixão dos enfraquecidos e dos humildes, e os salva da morte! Compadecer-se-á do pobre e do aflito, e salvará as almas dos necessitados. (Salmos 72:13)
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  •  
  • Quem zomba dos pobres revela desprezo pelo Criador deles; quem se alegra com a desgraça dos outros não ficará muito tempo sem castigo. (Provérbios 17:5)
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  • Não cometerás injustiça contra nenhuma pessoa pobre, quando esta comparecer diante do tribunal. (Êxodo 23:6)
  •  
  •  
  • Oprimir o povo é ultrajar o seu Criador, mas tratar com bondade o pobre é honrar a Deus. (Provérbios 14:31)
  • Comentário: “A riqueza do rico lhe foi dada, em parte, para ajudar o pobre, e se o rico escapa a esse dever é como se ele lançasse respingos sobre a justiça e a Criação.” [3]
  •  
  •  
  • O rico e o pobre têm algo precioso em comum: o SENHOR é o Criador tanto de um quanto do outro. O rico e o pobre se encontram; a todos o Senhor os fez. (Provérbios 22:2)
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  •  
  • O homem generoso será abençoado, porquanto reparte seu pão com o necessitado. (Provérbios 22:9)
  • Comentário: “Em contraste com aquele que busca governar os pobres e explorá-los, o que tem um olho generoso e dá do seu pão será abençoado com as bênçãos de Deus. Será abençoado porque dá aos pobres do seu pão, e continuará a dar, pois se ele prospera terá mais a lhes dar (Metsudat David).”

  • [4]
  •  
  • Quem enriquece à custa de oprimir o pobre, assim como quem adula com presentes os ricos, certamente passará necessidade! O que oprime ao pobre para se engrandecer a si mesmo, ou o que dá ao rico certamente empobrecerá. (Provérbios 22:16)
  •  
  •  
  • Não explores o pobre por ser fraco, nem oprimas os necessitados no tribunal, pois o SENHOR será o Advogado deles, e despojará a vida dos que os defraudaram! (Provérbios 22:22-23)

  • Comentário: “É proibido roubar tanto o pobre como o rico,  mas roubar o pobre é particularmente odioso. Se a vítima é um rico a questão é monetária apenas, mas tratando-se de um pobre é mais que isso (Malbim).”;
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  • Coopera com os pobres e necessitados. (Provérbios 31:20)
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  • Julgou a causa do necessitado e do pobre; e assim, tudo lhe transcorria de modo agradável. E, afinal, não é isso que significa conhecer-me?” Afirma o Eterno. (Jeremias 22:16)
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  • E esta foi a malignidade de tua irmã Sodoma: ela e suas filhas eram arrogantes; tiveram fartura de alimento e viviam sem a menor preocupação; não ajudavam os pobres e os necessitados. (Ezequiel 16:49)
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  •  
  • Dá a quem te pedir e não te desvies de quem deseja que lhe emprestes algo. Ame os que o odeiam (Mateus 5:42).
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  • Pois tive fome, e me destes de comer, tive sede, e me destes de beber; fui estrangeiro, e vós me acolhestes. Quando necessitei de roupas, vós me vestistes; estive enfermo, e vós me cuidastes; estive preso, e fostes visitar- me. Então, os justos desejarão saber: ‘Mas, Senhor! Quando foi que te encontramos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te saciamos? E quando te recebemos como estrangeiro e te hospedamos? Ou necessita de roupas e te vestimos? Ou ainda, quando estiveste doente ou encarcerado e fomos ver-te?’. Então o Rei, esclarecendo-lhes responderá: ‘Com toda a certeza vos asseguro que, sempre que o fizestes para algum destes meus irmãos, mesmo que ao menor deles, a mim o fizestes’. (Mateus 25:35-40)
  •  
  •  
  • E as multidões lhe rogavam: “O que devemos fazer então?” Diante do que João as exortava: “Quem tiver duas túnicas dê uma a quem não tem nenhuma; e quem possui o que comer, da mesma maneira reparta (Lucas 3:10-11)
  •  
  •  
  • Vendei os vossos bens e ajudai os que não têm recursos; fazei para vós outros bolsos que não se gastem com o passar do tempo, tesouro acumulado nos céus que jamais se acaba, onde ladrão algum se aproxima, e nenhuma traça o poderá corroer. Por isso, onde estiverem os vossos bens mais preciosos, certamente aí também estará o vosso coração. (Lucas 12:33-34)
  •  
  •  
  • Por meio de todas as minhas realizações, tenho-vos mostrado que, mediante trabalho árduo, devemos cooperar com os necessitados, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus: ‘É mais bem-aventurado dar do que receber’”. (Atos dos Apóstolos 20:35)
  •  
  •  
  • Nós, que somos fortes, temos o dever de suportar as fraquezas dos fracos, em vez de agradar a nós mesmos. (Romanos 15:1)
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  • Aquele que roubava, não roube mais; pelo contrário, trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com quem está atravessando um período de necessidade. (Efésios 4:28)

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  • Cada um zele, não apenas por seus próprios interesses, mas igualmente pelos interesses dos outros. Cristo, sendo Deus, humilhou-se. (Filipenses 2:4)
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  • De que adianta, meus caros irmãos, alguém proclamar sua fé, se não tem obras? Acaso essa fé pode salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem necessitados de roupa e passando privação do alimento de cada dia, e qualquer dentre vós lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos e comei até satisfazer-vos”, porém sem lhe dar alguma ajuda concreta, de que adianta isso? Desse mesmo modo em relação a fé: por si só, se não for acompanhada de obras, está morta. (Tiago 2:14-17)
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  • Se alguém possuir recursos materiais e, observando seu irmão passando necessidade, não se compadecer dele, como é possível permanecer nele o amor de Deus? (1 João 3:17)
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  • Sede juízes para o desvalido e órfão, fazei justiça ao mísero e ao indigente; (Salmos 82:3)
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  • Não oprimas um assalariado pobre, necessitado, seja ele um dos teus irmãos ou um estrangeiro que mora em tua terra, em tua cidade. (Deuteronômio 24:14)
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  • Quando houver um pobre em teu meio, ainda que seja um só dos teus irmãos numa de tuas cidades, na terra que o SENHOR teu Deus te está doando, não endurecerás teu coração, tampouco fecharás a mão para com este teu irmão pobre; (Deuteronômio 15:7)
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  • E não oprimais a viúva, o órfão, o estrangeiro e o pobre; ninguém planeje no coração atitudes malignas contra o seu irmão. (Zacarias 7:10)
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  • Libertai o fraco e o pobre, livrai-os das garras dos ímpios! (Salmos 82:4)
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  • Quando segardes a messe na vossa terra, não colhereis até as extremidades da lavoura, tampouco recolhereis as espigas que caem aos vossos pés durante a colheita. Deixareis essa parte para o pobre e para estrangeiro. Eu Sou Yahweh, o SENHOR, o vosso Deus!” (Levítico 23:22)
  •  
 
[1] 1 Op cit. Pag. 136.
[2] 2 Op cit. Pag. 156.
 
[3] WASSERMAN, Adolpho [Tradutor]. O livro dos provérbios comentado. São Paulo: Maayanot,
1998. p. 101.
[4] Op cit. Pag. 156.
[5] Op cit. Pag. 159.

 
 
XIII – CONCLUSÃO

Tenho convicção de que os ensinamentos transmitidos neste livro serão bênçãos na vida de muitas pessoas, principalmente na de quem quer compreender o que Deus espera de nós com relação aos bens materiais. Muitos cristãos sofrem com um sentimento de confusão por não conseguirem interpretar adequadamente passagens bíblicas que, aparentemente, são contraditórias:

- Em todas as coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou (Rm. 8:37);

- É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha
do que um rico entrar no Reino dos céus (Mt. 19:24);

- Se obedeceres aos mandamentos de Yahweh, o teu Deus, que neste dia te ordeno, para os guardar e cumprir. Sendo assim, estareis sempre por cima, nunca por baixo. (Dt. 28:13);

- O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males (1 Tm. 6:10)

- Se ouvires a voz do Eterno, teu Deus, virão sobre ti e te acompanharão todas estas bênçãos: (Dt. 28:2);

- Não podeis servir a Deus e a Mamôn. (Mt. 6:24);

- Honra ao Senhor com teus bens e com as primícias de todos os teus rendimentos; e se encherão com fartura os teus celeiros, assim como transbordarão de vinho os teus reservatórios. (Pv. 3:9-10);

- As preocupações da vida diária, a sedução da riqueza e todas as demais ambições, agridem e sufocam a Palavra, tornando-a infrutífera. (Mc 4:19);

- Trazei, portanto, todos os dízimos ao depósito do Templo, a fim de que haja alimento em minha Casa, e provai-me nisto”, assegura o Senhor dos Exércitos, “e comprovai com vossos próprios olhos se não abrirei as comportas do céu, e se não derramarei sobre vós tantas bênçãos, quem nem conseguirei guarda-las todas (Ml 3:10);

Promessas como estas, feitas pelo Eterno, que não mente e não falha em cumprir sua palavra, podem causar temor. De um lado, elas garantem que quem for fiel em cumprir seus preceitos será abundantemente abençoado com fartura, mas, por outro lado, também afirmam que os que possuem riquezas dificilmente entrarão no Reino dos Céus. Entretanto, a contradição é apenas aparente, pois existe uma verdade que, se corretamente assimilada, faz tudo ter sentido.

Estou falando da tsedacá, ou seja, de destinar regularmente parte da renda recebida para compartilhar com aqueles que padecem de necessidades básicas. Praticá-la não é fácil, para conseguir, todo ranço de avareza deverá ser reconhecido e eliminado, o que exigirá desprendimento dos bens materiais. Porém, como já vimos, na medida em que a tsedacá se torna um hábito, os olhos deixam de ser tão focados apenas nos próprios desejos e os anseios dos pobres e dos aflitos passam a ser cada vez mais objeto da nossa atenção, gerando em nós um coração progressivamente mais misericordioso.

Quem é temente a Deus e pratica seus mandamentos deve possuir algumas qualidades que, naturalmente, atrairão uma vida de benções divinas e que, se houver propósito d’Ele, incluir-se-á a prosperidade material. Assim, deverá ser zeloso com o trabalho, com o cônjuge, com os filhos, com os compromissos com o Reino de Deus, ter uma vida reta com o dinheiro praticando os princípios estabelecidos pelo Senhor para cada área da vida.

Se para a pessoa que possui temor d’Ele, o Pai Celestial confiar a prosperidade financeira, em algum momento poderá ocorrer um conflito interno, por medo de estar caminhando para o inferno justamente em razão de estar colhendo os frutos daquelas sementes lançadas com sua fidelidade com os dízimos, a tsedacá, as ofertas e as primícias. Portanto, a maneira de não deixar as bênçãos se tornarem maldição é aumentar a oferta aos pobres na mesma proporção que crescerem as rendas.

Como vimos nos textos acima, não se trata de compartilhar apenas uma esmola (no sentido pejorativo de quantia irrisória), mas algo que nos custe, que signifique algum sacrifício de nosso conforto. Outro aspecto importante é que essa prática de destinar recursos para suprir a necessidade dos miseráveis e dos aflitos deve ser constante, ou, pelo menos, na mesma periodicidade da renda. Se esta é recebida mensal, semanal ou diariamente, que a distribuição aos necessitados seja de igual forma. Não basta apenas “de vez em quando” ajudar alguém que precisa ou algum trabalho social, mas deve-se ter isso como estilo de vida, o que o apóstolo Paulo chamou de ser “ricos em boas obras”.

Sobre o “quanto” compartilhar com os necessitados, vimos que existem vários parâmetros e que, para os cristãos, libertos da Lei Mosaica, mas sujeitos aos ensinamentos de Cristo, é impossível determinar um percentual fixo. Jesus disse que devemos exceder em muito os escribas e os fariseus no cumprimento da vontade de Deus. O ideal é começar fazendo mais do que o mínimo. Às pessoas que me procuram pedindo orientação, a minha sugestão é que se façam as seguintes contribuições, calculadas sobre a renda: a) 10%  para a Igreja (seja ela qual for), para a manutenção e ampliação da obra; b) 3,33% como primícias (como honra ao Eterno) devendo ser entregue para quem exerce a função de sacerdote sobre sua vida; c) destine parte relevante de sua renda para os pobres, podendo ser para a ação social da igreja, para algum orfanato, casa de abrigo, asilo, casa de recuperação, cestas básicas etc.; d) esteja sempre disponível em ajudar os que pedem ajuda.

Quanto à “parte para os pobres”, isto é, a alínea “c”, acima indicada, minha visão é que o mínimo estabelecido por Deus é de 3,33%, mas que muitos rabinos aumentaram para 10% pelos motivos que já explicamos. Para os cristãos, que são, ou pelo menos deveriam ser, desapegados dos bens materiais, a contribuição tem que ser superior à mínima. Sei que é difícil e que, para quase todos, exigir-se-ão mudanças na organização familiar. Por isso, aos que me pedem esclarecimentos, digo para começarem compartilhando com os necessitados 5% e ir aumentando à medida que conseguirem, seja por estarem sendo abençoados, ou mesmo por estarem se desapegando das coisas desse mundo. Isto porque, a prática de ajudar os que padecem tem o incrível efeito de gerar no íntimo a vontade de fazê-lo cada vez mais.

Praticar a ajuda aos pobres faz brotar no coração um amor pelos que padecem; e a vontade de trabalhar, de conquistar, de ser vencedor na profissão, ganha outra dimensão, pois a vida recebe novo sentido. Se antes de se praticar tsedacá havia algum temor de ter dinheiro, agora começa-se a sonhar com o que seria possível fazer em favor dos pobres se houvesse mais recursos. O sonho de ser provedor de alguns trabalhos sociais passa a permear o coração: manter casas de abrigo para crianças em situação de risco social; cozinhas sociais para moradores de rua e trabalhadores de baixa renda; projetos que proporcionem reforço escolar para crianças carentes; prover bolsas de estudo; são tantas as possibilidades e é tão prazeroso ver vidas sendo alcançadas, que a vontade é ser cada vez mais generoso.

O hábito de praticar a tsedacá também terá o efeito de dar paz e alegria para desfrutar daquilo que Deus lhe confiou e afastará o peso decorrente das pregações fundamentadas numa visão franciscana do evangelho, que apenas servem como um antídoto da maléfica teologia da prosperidade, mas que, não representam a verdade bíblica sobre o assunto. A revelação da tsedacá fará com que se compreenda que o pecado do Homem Rico não foi o de viver uma vida confortável, mas o de deixar de ajudar Lázaro, que sofria e estava à sua porta padecendo por falta de compaixão e misericórdia. Todas as bênçãos descritas tanto no Antigo como no Novo Testamento serão compreendidas.

A promessa de que “... não pode haver felicidade para o homem a não ser a de alegrar-se e fazer o bem durante toda sua vida” (Ec. 3:12) será cumprida na vida de quem pratica tsedacá, porque “... devemos cooperar com os necessitados”, lembrando as palavras do próprio Senhor Jesus: É mais bem-aventurado dar do que receber” (Atos 20:35).  Isto porque, o Filho de Deus tem toda a condição, poder e vontade de cumprir aquilo que prometeu: “Dai sempre, e recebereis sobre o vosso colo uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante; generosamente vos darão. Portanto, à medida que usares para medir o teu próximo, essa mesma será usada para vos medir.” (Lc. 6:38). Amém.
 

 
 
XIV – REFERÊNCIAS
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Op cit. Pag. 159.

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