06/11/2018

Sobre a Obra de Schopenhauer, "A arte de Escrever"

AUTOR:Henrique Lima - 39 visitas

SOBRE A OBRA DE SCHOPENHAUER, “A ARTE DE ESCREVER”.
 
I -

Arthur Schopenhauer foi um filósofo alemão que viveu entre 1788 e 1860. Costuma-se apontar que sua principal obra foi “O mundo como vontade e representação”, mas escreveu vários livros interessantes como, por exemplo: “Sobre a visão e as cores”; “A arte de se fazer respeitar”; “A arte de insultar”; “A arte de ter razão”; “A arte de ser feliz”; “A arte de lidar com as mulheres” etc.

Nesta ocasião, abordarei a obra “A arte de escrever”.
 
II -

Trata-se de uma obra que reúne cinco textos escrito por ele: (1) sobre a erudição e os eruditos; (2) pensar por si mesmo; (3) sobre a escrita e o estilo; (4) sobre a leitura e os livros e (5) sobre a linguagem e as palavras.

Durante minha leitura, destaquei alguns textos que considerei dotados de profundos ensinamentos, úteis não apenas para a “arte de escrever”, propriamente dita, mas para a vida em geral e especialmente para o ato de se comunicar. São esses conteúdos que pretendo compartilhar com o leitor.
 
III -

Ele inicia criticando a falta de verdadeiro interesse tanto dos professores como dos alunos, com a busca e o aperfeiçoamento do conhecimento:
 
Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes.
 
Afirma que, em sua época, as pessoas estavam mais preocupadas em obter “informação” do que “instrução”, que são coisas diferentes, pois a informação é um mero instrumento para a instrução. Aduz que o excesso na busca por informações acabava prejudicando a formação do “pensamento próprio”.
 
IV –

Considera que a grande maioria dos estudiosos, dos eruditos, jamais chegará a colaborar com algo grandioso para a sociedade e, especialmente, para o conhecimento humano, porque usam a ciência apenas como um meio para ganhar dinheiro e não como um fim em si mesmo. Para ele, “... só chegará a elaborar novas e grandes concepções fundamentais aquele que tenha suas próprias ideias como objetivo direto de seus estudos, sem se preocupar com as ideias dos outros”.

 Constata que algumas pessoas se tornam “especialistas eruditos”, isto é, possuem um conhecimento profundo num determinado assunto, mas, fora dele, são ignorantes, tais como um operário que passou a vida inteira movendo determinada alavanca. Quem pretende ser um verdadeiro filósofo, precisa conhecer as mais diferentes áreas do conhecimento humano, por isso, os espíritos de primeira grandeza jamais devem procurar ser “especialistas eruditos”, mas ter uma visão holística das ciências humanas.
 
V -

Para a melhoria no ensino universitário, ele pontua curiosas sugestões, algumas são:
  - não deveriam aceitar estudantes com menos de vinte anos de idade;
  - no primeiro ano do curso, deveriam estudar apenas filosofia;
  - os três cursos superiores são: teologia, direito e medicina;
  - no ensino médio, deveriam estudar especialmente a língua materna, história, línguas antigas e matemática;

Mas como as instituições se preocupam mais com a quantidade de alunos, do que com a qualidade, reconhece que essas propostas não seriam aceitas.
 
VI –

Compara uma grande biblioteca, com muitos livros, mas desorganizada, a uma pessoa que tem muito conhecimento mas que não são acompanhados de “pensamentos próprios”. O conhecimento precisa ser acompanhado de profunda reflexão para que seja bem assimilado.

Afirma que o método mais eficiente para nunca chegar a ter as próprias idéias é “pegar um livro nas mãos a cada minuto livre”.

Os gênios, os grandes pensadores da humanidade, são aqueles que se detiveram em ler “diretamente no livro do mundo”, no sentido de que é inútil para os grandes pensamentos a mera leitura de livros (que caracteriza o filósofo livresco), sem uma verdadeira reflexão sobre as questões da vida (que característica do filósofo verdadeiro).

Reconhece, contudo, que não é possível ter pensamentos próprios a todo momento, então é necessária a leitura nas demais horas porque com esses pensamentos alheios se “alimenta o espírito com materiais, a medida que um outro pensa por nós”.

Alerta para o fato de que a “mera experiência não pode substituir o pensamento”, porque a “pura empiria está para o pensamento como o ato de comer está para a digestão e assimilação”. Não pode a boca acreditar que sustenta sozinha o corpo.

Ressalta a importância de escrever os pensamentos, pois “o mais belo pensamento corre o perigo de ser irremediavelmente esquecido quando não é escrito”.
 
VII –
 
Sobre a escrita e o estilo, começa explicando que “existem dois tipos de escritores: aqueles que escrevem em função do assunto e os que escrevem por escrever”.

Os primeiros, escrevem porque tiveram pensamentos. Os outros, só porque precisam de dinheiro.

Aduz ser um erro acreditar que o que foi escrito por último é mais verdadeiro do que aquilo que foi escrito anteriormente, porque “as cabeças pensantes, os homens que avaliam corretamente as coisas são apenas exceções”. Por isso que afirma que o “curso da ciência muitas vezes é um retrocesso”.
 
VIII –
 
Sobre as cabeças banais, Schopenhauer afirma que procuram esconder sua banalidade através de frases “forçadas, difíceis, com neologismos e frases prolixas”, porque “gostariam de expor o pensamento de modo a lhe dar uma aparência erudita e profunda, para que as pessoas achem que há, por trás deles, mais do que percebem no momento”. Por isso é que se leem frases inteiras em que não se disse nada.

Cita Horácio (309 d.C) que ensina: “o saber é o princípio e a fonte para se escrever bem”.

Assevera que “não há nada mais fácil do que escrever de tal maneira que ninguém entenda; em compensação, nada mais difícil do que expressar pensamentos significativos de modo que todos os compreendam”.

Por isso é que o pensador autêntico se esforça “para dar a seus pensamentos a expressão mais pura, clara, segura e concisa possível”, porque a simplicidade  sempre foi a marca do gênio.
Esses, aliás, optam pela expressão “mais concreta porque ela expõe o assunto à claridade, que constitui a fonte de toda evidência”, enquanto que os escritores menos preparados “escolhem, em todos os casos, a expressão mais abstrata”.

Ataca, também, a prolixidade e todo o entrelaçamento de observações no ato de escrever, sendo preferível deixar de fora do texto algo que seria importante incluir, do que inserir algo inútil, pois “é preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor”.

Cita Voltaire no sentido de que “o segredo para ser entediante, é dizer tudo”.

Considera sinal de mediocridade o ato de usar muitas palavras para dizer poucas coisas, sendo que o contrário, isto é, falar muito usando poucas palavras, é indicativo de uma mente superior.

Porém, chama atenção para não confundir “cortar palavras” com “pensar de modo conciso”, assim, para se comunicar de modo claro, não se deve economizar as palavras necessárias.

E isso não só nas palavras, mas até mesmo na pontuação, porque o mal uso, ou o uso deficiente, tem como primeira consequência “que se torna necessário ler cada frase duas vezes”.

Orienta que os textos devem ser escritos não como “se recitasse um monólogo”, mas procurando “estabelecer um diálogo, e na verdade um diálogo no qual é preciso se expressar de modo ainda mais claro, já que não se ouvem as perguntas do interlocutor”.

Na arte de escrever, o escritor deveria agir como um arquiteto que primeiro esboça um detalhado projeto, mas, ao contrário, a maioria o faz como se estivesse jogando dominó, a consequência é que poucos sabem onde querem chegar com o texto.

Aduz que só se consegue ter um pensamento claro de cada vez, por isso, ao escrevê-los, deve-se usar o encadeamento mais lógico e natural possível, sem “frases longas, pesadas, entrecruzadas” que acabam exigindo que o leitor precise ficar memorizando informações na esperança de que ao final da frase algo seja comunicado, porque “recebe muita coisa para decorar, antes de obter algo para entender”.

Para ele, a “preferência das cabeças triviais por essa maneira de escrever” tem como consequência “produzir a aparência de que o escritor possui mais profundidade e inteligência do que o leitor”, porque impede esse de compreender algo imediatamente, exigindo desse esforço e tempo para entender aquilo que se escreveu.
 
IX –
 
Ao tratar sobre a “Leitura e os Livros”, pondera que os “ricos que são ignorantes vivem apenas em função de seus prazeres”, por isso devem ser repreendidos por não buscar aquilo que lhes conferiria maior valor.

Alerta para a necessária cautela no uso do tempo que temos disponível para leitura. Por isso aconselha que “para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta, o tempo e a energia são limitados.”.

Compartilha que é agradecido porque ainda na juventude se deparou com o belo epigrama de A. W. Schlegel e que lhe serviu de estrela guia: “Leiam com afinco os antigos, os verdadeiros e autênticos; o que os modernos dizem sobre eles não significa muito”.
 
X –
 
Sobre o fato de algumas pessoas pensarem ser inútil ler porque quem lê não consegue guardar tudo que já leu, explica que “o espírito guarda o que lhe interessa, ou seja, o que diz respeito a seu sistema de pensamentos ou o que se adapta a suas finalidades”, por isso “exigir que alguém tivesse guardado tudo aquilo que já leu é o mesmo que exigir que ele ainda carregasse tudo aquilo que já comeu”. Então faz uma bela conclusão: “Ele viveu do alimento corporalmente e do que leu, espiritualmente, e foi assim que se tornou o que é.”.
 
XI –
 
Por fim, ele expõe algo bem interessante sobre a diferença entre a pessoa do escritor e sua obra. Creio que muitas pessoas, após a leitura de alguns livros, de tão bons que eram, já pararam para imaginar como seria aquele autor, como seria conviver ou ter alguns momentos com ele, então Schopenhauer traz a seguinte revelação:
 
As obras são a quintessência de um espírito: em consequência disso, por maior que seja o espírito, elas terão sempre uma riqueza de conteúdo maior do que a possibilitada pelo contato com o autor e substituirão sua companhia no que é essencial, aliás, na verdade a superam de longe e a deixam para trás. Até os escritos de uma cabeça mediana podem ser instrutivos, divertidos e dignos de leitura, exatamente porque são a quintessência, o resultado, o fruto de todo o seu pensamento e estudo. Isso explica por que é possível ler livros de pessoas em cuja companhia não encontraríamos nenhuma satisfação, e também é por esse motivo que a cultura espiritual elevada nos leva gradativamente a encontrar prazer apenas nos livros, não mais nos homens.”.
 
X –
 
Espero que tenha conseguido transmitir um pouco da grandeza que há nessa obra e no pensamento de Schopenhauer a ponto de estimular o leitor a ler diretamente na fonte. Evidente que ele trata de muitos outros assuntos, como, por exemplo, alguns aspectos das línguas antigas e das modernas. Mas o que abordei acima foi o que mais me chamou atenção e que, segundo meu filtro subjetivo, pode ser útil para as pessoas que possuem prazer tanto na leitura como na arte de escrever.
 
HENRIQUE LIMA. Advogado (www.henriquelima.com.br). Mestre em direito pela Universidade de Girona – Espanha e pós-graduado em Direito Constitucional, Civil, do Consumidor, do Trabalho e de Família. Autor de livros e artigos jurídicos.
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