29/01/2018

O "viver no automático" e a infelicidade na advocacia

AUTOR:Henrique Lima - 40 visitas

O “VIVER NO AUTOMÁTICO” E A INFELICIDADE NA ADVOCACIA
Por Henrique Lima (www.henriquelima.com.br)
 
Lendo uma matéria chamada “Porque sabotamos a Felicidade no Trabalho”, da revista Harvard Business Review (set/2017), escrito por Annie Mckee, onde a autora trata da autossabotagem que muitos cometem em suas próprias carreiras, e de assuntos como estresse e felicidade no ambiente de trabalho, percebi que no ambiente da advocacia vivemos dramas parecidos.

No artigo, a pesquisadora Annie Mckee aborda a infelicidade que, em algum momento, pode atingir até mesmo os profissionais de alta performance.

Os fatores externos, causadores do estresse, geralmente são identificados como decorrentes da política, da velocidade das mudanças e das incertezas do mundo. Muito semelhante com o que vivemos no ambiente jurídico, onde estes três fatores também nos atormentam.

Infelizmente não temos condições de controlar as circunstâncias externas, pelo que deveríamos tentar nos adaptar e ter esperança num por vir melhor.

Interessante que a autora indica condutas, sobre as quais temos pleno controle, e que causam não apenas o estresse, mas a infelicidade na carreira profissional, são elas: ambição desmedida; armadilha do dever; e trabalho em excesso. Tudo isso, no começo, pode revelar-se muito proveitoso, mas a longo prazo pode sabotar, ou autossabotar uma carreira promissora.

A “ambição” no início é fundamental, explica ela, pois serve como combustível para a pessoa “pagar o preço” e chegar onde pretende. Sem ambição, sonhos e desejos, ficam no marasmo e na mediocridade profissional. Por outro lado, essa mesma ambição pode levar ao isolamento dos colegas e colaboradores, pois estes podem ter, desde a simples inveja, até o desinteresse de estar próximo de alguém que sempre quer estar em primeiro lugar, que enxerga os outros como meros degraus para o seu sucesso.

A “armadilha do dever” ocorre quando o profissional afeta seu estilo, personalidade, vida pessoal e tudo aquilo que o torna quem ele é, para “rezar a cartilha” do certo e do errado. Aceita trabalhar numa empresa onde deve usar um tipo de roupa, falar de um determinado modo, ter uma determinada orientação sexual, gostar de determinados hobbies etc., e tudo isso acaba por afrontar sua essência. Esta “oportunidade” pode até parecer vantajosa no começo, mas o futuro cobrará a fatura com a infelicidade de viver algo e de um modo que não se é.

Evidente a impossibilidade de uma vida onde se faz tudo o que quer, porém, é importante uma auto avaliação para saber até que ponto aquelas concessões estão afetando ou poderão afetar sua felicidade.

Outra armadilha apontada pela autora é o “excesso de horas extras”. Aparentemente trabalhar mais horas por dia, além de demonstrar maior dedicação, ainda seduz com a promessa de que a pessoa terá um dia mais tranquilo, porque “todos os emails foram lidos”, “todos os prazos foram adiantados”, ou seja, as tarefas estão “em ordem”. Entretanto, pode ser apenas uma ilusão, primeiro porque o trabalho, isto é, os problemas a serem resolvidos nunca acabarão. E segundo porque, se a pessoa é competente, quanto mais trabalhos bem concluídos, novos desafios surgirão. E existe um limite para o corpo. Imperceptivelmente os pensamentos ficarão mais lentos, a disposição física diminui e, quando se percebe, a produtividade ficará prejudicada.

Enfim, são três modos de pensar, reagir e agir que podem destilar seu veneno de maneira lenta, mas eficiente, e quando se percebe a infelicidade se instalou. E se até os executivos e os altos empregados de grandes corporações podem sofrer com isso, que se dirá de nós, “pobres” advogados, geralmente sem qualquer preparo no que diz respeito à carreira e às escolhas profissionais, de modo que passamos a vida apenas “tocando” os processos e esperando o próximo final de semana, feriado ou recesso para tentar fazer algo para aliviar a tensão, contudo, voltando ao trabalho, tudo transcorre no automático, sem nos retirarmos para momentos de reflexão pessoal e profissional.

É imprescindível aos profissionais do direito que, de tempos em tempos, façam retiros (não necessariamente físicos), isolando-se em seus pensamentos e reflexões para avaliar onde o seu estilo de vida e suas escolhas o estão levando. “É nesse lugar que realmente quero chegar?”; “Quero realmente ser advogado?”; “Estou buscando desenvolver as habilidades que a profissão exige?”; “Qual o tamanho da minha ambição?”; “As habilidades exigidas pela profissão são naturais para mim ou exigem um sacrifício desproporcional da minha essência?”. São muitas as reflexões que precisam ser feitas periodicamente. Precisamos estar alertas acerca do perigo de viver no “automático”. Quando se percebe já é sexta, já chegou o fim do mês, do ano, já se passaram cinco, dez anos de “formado” e aqueles sonhos que ainda estão lá dentro nem sequer começaram a se tornar realidade e, sinceramente, da maneira como a vida está, nem há perspectiva de um dia se concretizarem.

Falo da advocacia por ver, constantemente, que esse “viver o cotidiano” leva a uma existência de sonhos esquecidos ou, pelo menos, diminuídos para se ajustar à realidade (ou a mediocridade de ser só mais um), com o objetivo de minimizar a frustração da não realização, quase sempre por culpa da própria pessoa. Creio que esta é uma realidade em muitas outras profissões, pois se trata de um reflexo do estilo de vida que nos é imposto principalmente pelo consumismo, e que aceitamos em troca dos pequenos momentos de prazer desfrutados no ato de comprar, onde não temos tempo para retirarmo-nos para pensar (ainda que dentro de nosso próprio quarto), para avaliar como está nossa vida, e que depois leva muitos a amargarem em consultórios, que exigirão tempo, o qual, se no começo tivesse sido utilizado para pensar, provavelmente agora seria desfrutado com o protagonismo de uma vida diferente.
 
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