09/07/2018

Comentários acerca da obra "Sobre a Brevidade da Vida" do filósofo Sêneca (4 a.C. a 65 d.C.)

AUTOR:Henrique Lima - 480 visitas

COMENTÁRIOS ACERCA DA OBRA “SOBRE A BREVIDADE DA VIDA” DO FILÓSOFO SÊNECA (4 a.C. a 65 d.C.)
Escrito por Henrique Lima (www.henriquelima.com.br)
 
Incrível como alguns problemas humanos continuam sendo os mesmos. Mudam a aparência externa e alguns detalhes, mas permanece intacta a essência de nossas angústias. Por meio da leitura de obras consideradas clássicas, percebemos que estamos geralmente em busca das mesmas coisas, respostas e soluções que as gerações passadas, apesar de as vezes usarmos nomes diferentes. Coberto de razão estava o Rei Salomão quando lamentou: “Gerações vêm e gerações vão, mas a terra permanece para sempre.” (Ec 1:4) e “O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol.” (Ec 1:9).

Pois bem, o objetivo deste texto é comentar sobre a obra de Sêneca (Lúcio Anneo Sêneca – 4 a.C. a 65 d.C.) que, dentre outras várias atividades, foi tutor do pequeno L. Domitius, que mais tarde se tornou o famoso imperador Nero. Apesar de escrito há cerca de 2000 anos, seus textos são de uma contemporaneidade espantosa, por tratar de assuntos que ainda hoje se mostram importantes.

“Sobre a brevidade da vida” tem como ponto central a discussão daquilo que seu título deixa claro: a forma como aproveitamos ou desperdiçamos o tempo de vida que nos foi generosamente concedido.

Sêneca sustenta que temos uma existência “proveitosa” quando voltamos nossa atenção para as coisas importantes, que são aquelas que farão a diferença em favor do mundo no qual vivemos, quando contribuímos para a melhoria da vida das pessoas ao nosso redor. Do contrário, quando nos envolvemos com coisas fúteis, estamos desperdiçando aquilo que temos de mais valioso, que é o “tempo”. Sêneca afirma que o tempo é único bem acerca do qual as pessoas deveriam ser avarentas.

Como cada pessoa é atraída pela própria concupiscência (no sentido de “desejo forte”), Sêneca exemplifica algumas “fraquezas” que fazem o homem desperdiçar seus dias em atitudes que de nada serão proveitosas:

 
- “... a insaciável ganância domina um...”;
- “... outro, desperdiça sua energia em trabalhos supérfluos...”;
- “... um encharca-se de vinho...”;
- “... outro fica entorpecido pela inércia...”;
- “... um está sempre preocupado com a opinião alheia...”;
- “... outro, por um irreprimido desejo de comercializar...”;
- “... também há os que se ocupam invejando o destino alheio e desprezando o seu próprio...”;
- “... a grande maioria, sem nenhum objetivo, lança-se a novos propósitos levianamente, encontrando apenas desgosto.”;
- “... desperdiçaram a vida em jogos de xadrez, de bola, ou bronzeando-se ao sol..

 
Ele chama a atenção para o devastador efeito dos vícios, que tira a liberdade e impede que o homem observe como está sua vida, para onde está caminhando. Não apenas o vício da forma como é mais popularmente conhecido nos dias de hoje, isto é, a prisão causada por substâncias tóxicas, mas também o que surge de um tipo de postura que aprisiona a um cotidiano sem objetivo.

Sobre o desperdício do tempo, exorta: “Vamos, faz o cálculo da tua existência.”, e continua: “Conta quanto deste tempo foi tirado por um credor, uma amante, pelo poder, por um cliente. Quanto tempo foi tirado pelas brigas conjugais...”, então conclui: “Verás que tens menos anos do que contas”, “Não te envergonhas de destinar para ti somente resquícios da vida e reservar para a meditação apenas a idade que já não é produtiva?”.

Mas o que Sêneca quer que façamos? Qual o objetivo de palavras tão duras? A essência de sua exortação é para que não nos tornemos ocupados demais com coisas supérfluas. Mas o que é supérfluo? Ele não deixa claro, mas é perceptível que se insurge contra uma existência sem reflexão, de pessoas que simplesmente “vão vivendo” sem parar para analisar o que de útil estão fazendo para si próprio e para o bem comum.

Faço aqui um pequeno parêntese. Quem me conhece sabe que gosto de buscar conhecimento na literatura judaica. Creio que o povo judeu possui um entendimento muito claro das coisas de Deus, acerca de nossa existência e propósito. Entendem que as pessoas serão recompensadas no Mundo Vindouro de acordo com as ações que praticaram durante a experiência terrena. Mas, voltando para a questão do cuidado com o desperdício de tempo (que é a temática central da obra de Sêneca), cito uma parábola judáica bastante pertinente, extraída do livro “Ensinando com Parábolas” – Parábolas do Chafets Chaim (Editora Maayanot, 2003, p. 23, volume I):


“Um momento perdido na feira.
 
Era uma vez um homem abastado cuja única fonte de renda era proveniente das taxas de avaliação que ganhava nas feiras mais importantes e que se realizavam a cada década. Naquela época, todos os nobres do país acorriam à feira para adquirir suas pedras preciosas. Este homem era um perito avaliador de pedras preciosas e tinha a reputação de ser um profissional altamente confiável; por isso, todos procuravam contratar os seus serviços na avaliação de suas jóias, pagando-lhe generosamente. Durante o decurso da feira, ele era capaz de amealhar uma pequena fortuna, que lhe permitia viver bem até a feira seguinte.

Durante os anos entre uma feira e outra, o homem somente pensava na próxima feira a ser realizada, sabendo que ele estaria ali para ganhar o seu sustento.

Quando o grande dia finalmente chegava, ele ficava radiante. Com que empenho ele trabalhava durante os dias de feira! Em outros tempos, ele estava afeto às comidas, às bebidas e aos divertimentos dos ricos, mas, durante os dias de feira, ele reservava um mínimo de tempo para beber e para comer, de forma a não perder tempo em seu trabalho. Muitas vezes, ele até se esquecia de comer.

Se alguém lhe perguntasse sobre aquele seu comportamento peculiar, ele responderia: ‘Esperei por muitos anos para que a Providência me concedesse esta oportunidade, pois eu agora tenho a chance de ganhar um bom dinheiro num curto espaço de tempo. As jóias que os meus clientes compram encontrarão seu lugar nas coroas da realeza. Eu poderei desfrutar dos rendimentos ao longo dos próximos dez anos. Quem pode garantir que eu terei outra chance como esta? Acredite, se eu aguentasse ficar se beber e comer nada, eu certamente o faria. Tal como são as coisas, por menor que fosse o tempo para que eu pudesse comer e beber, eu estaria perdendo algum ganho em potencial.’

Aconteceu de aquele homem ter um filho, ao qual ele repassou o seu negócio. Ao início da feira seguinte, também ele, o filho, começou ganhar algum dinheiro. No entanto, este não seguiu totalmente o exemplo dado por seu pai, de dedicar-se totalmente aos negócios. Ao invés disso, ele passava um longo tempo deliciando-se com finas iguarias, excursões e festas.

O pai advertia-o: ‘Não se esqueça o quanto você tem esperado por esta feira. Todos os dias você ansiava por este dia. Eis que agora ele chegou e, em vez de você empenhar-se ao máximo em seu trabalho, você desperdiça o seu tempo em banalidades e futilidade. Quem sabe quando acontecerá uma próxima feira de tamanha magnitude ou, até mesmo, se haverá uma outra? Então, o que fará você?’”
(...)

 
Permita-me esclarecer o que quero dizer com esta palavra:

Todas as almas que jamais nasceram foram trazidas à existência no início da Criação. Desde então, elas têm sido armazenadas na morada de Deus. (...)

As Sagradas Escrituras nos dizem que quando as almas dos justos ascendem deste mundo, elas são adornadas nas magníficas vestes que foram adquiridas através de seu estudo da Palavra de Deus e das boas ações. Quando as almas que ainda estão nas Alturas vêem, um enorme anseio é despertado nelas para descerem a este mundo a fim de que elas, também, possam receber aquela recompensa. A partir de então, elas não param de perguntar: ‘Quando é que chegará a minha vez de entrar neste mundo?’; elas entendem que existem grandes ganhos a serem colhidos neste mundo – podendo-se conseguir a glória eterna.”

Enfim, Sêneca chama nossa atenção para não desperdiçarmos nossa existência com futilidades, mas nos dedicarmos ao que é proveitoso. Mas, o que é “proveitoso”? Digo: aquilo que é Eterno. Segundo a sabedoria judaica, precisamos investir tempo a duas questões principais:
 
1 - estudar, conhecer e meditar na Palavra de Deus – pois quanto mais fazemos isso, mais corrigimos nossas ações e, assim, tornamo-nos mais próximos daquilo que Ele espera de nós e

2 – praticar boas atitudes – pois receberemos nossa recompensa eterna (galardão) segundo aquilo que fizemos.

Reflita no que tem dedicado seu tempo. Eis dois singelos temas para meditar:
 
a) sua profissão envolve algo que ajuda melhorar a vida das pessoas diretamente envolvidas e também da sociedade em geral ou é algo que só beneficia você e quem lhe é próximo? Qual é sua motivação mais íntima: a ganância, a satisfação e prazeres pessoais ou realmente tornar este mundo pelo menos um pouco melhor com aquilo que você faz? O que você pesquisa, estuda, desenvolve etc., é para o bem das pessoas?

b) você é generoso em compartilhar com os necessitados o que de bom o Eterno lhe deu para ser mordomo, ou só divide “sobras”?

Seja sincero, pois Quem vai te julgar conhece seus mais íntimos pensamentos e motivações. Ele não erra.

Ao final, para aqueles que ouvem seus conselhos, Sêneca conclui: “Por mais curta que seja, é mais que suficiente, de maneira que, ao chegar o último dia, o homem sábio não hesitará em ir para a morte com tranquilidade”.

 
REDES SOCIAIS

COMENTÁRIOS

Todos os campos são obrigatórios

MAIS ARTIGOS

A importância de fazer perguntas

A IMPORTÂNCIA DE FAZER PERGUNTAS Durante o período em que estive na Espanha estudando no mestrado em direito, dentre tantas outras valiosas experiências, uma chamou minha atenção e pretendo utilizá-la como introdução para algo...

27/11/2018 LEIA MAIS

Sobre a Obra de Schopenhauer, "A arte de Escrever"

SOBRE A OBRA DE SCHOPENHAUER, “A ARTE DE ESCREVER”.   I - Arthur Schopenhauer foi um filósofo alemão que viveu entre 1788 e 1860. Costuma-se apontar que sua principal obra foi “O mundo como vontade e...

06/11/2018 LEIA MAIS

Poucos, Mas que Fazem Toda Diferença

POUCOS, MAS QUE FAZEM TODA DIFERENÇA Por Henrique Lima (www.henriquelima.com.br) Por várias vezes, sem muita reflexão, já repeti um pensamento comum de que “os jovens de hoje são piores do que os de ‘minha’...

16/04/2018 LEIA MAIS

Considerações Acerca da Obra "Tratado Sobre a Intolerância", de Voltaire

CONSIDERAÇÕES ACERCA DA OBRA “TRATADO SOBRE A INTOLERÂNCIA”, DE VOLTAIRE Por Henrique Lima (www.henriquelima.com.br)   Começo dizendo que é espetacularmente belo o “Tratado...

28/02/2018 LEIA MAIS

FALE COMIGO

Site desenvolvido por:

Chamar no WhatsApp