27/11/2018

A importância de fazer perguntas

AUTOR:Henrique Lima - 274 visitas

A IMPORTÂNCIA DE FAZER PERGUNTAS

Durante o período em que estive na Espanha estudando no mestrado em direito, dentre tantas outras valiosas experiências, uma chamou minha atenção e pretendo utilizá-la como introdução para algo que hoje considero valioso.

Havia momentos em que participávamos de seminários em um auditório no qual também assistiam às explanações os alunos de outras turmas, tais como as do doutorado daquela instituição. Além das valiosas lições dos professores, percebi uma interessante peculiaridade na postura dos alunos europeus no que diz respeito ao ato de questionar.

Lembro-me de que certos alunos, quando formulavam suas perguntas, no começo me geravam certo incômodo, porque primeiramente faziam uma explanação sobre algumas ideias – às vezes longa – para só então introduzir a pergunta. Além disso, outro ponto que me causava desconforto, era que, ao fazerem o questionamento, por vezes contrariavam o professor e, apesar de não alterarem o tom da voz, mas por conta dessa atitude, eu tinha a (falsa) sensação de que estavam sendo ofensivos. Contrariando por diversas vezes os posicionamentos do professor, mas de modo muito inteligente, revelavam inconsistências na abordagem deste. E eu, em minha perspectiva, considerava aquilo no mínimo deselegante.

Para minha surpresa, contudo, não percebia qualquer incômodo do professor e a atitude deste era, a partir das colocações do aluno, se fosse o caso, melhorar o discurso – clareando a exposição ou aprofundando o tema –, ou corrigir eventuais incoerências.

Com o tempo, percebi que esse era o padrão que se esperava dos alunos, ou seja, não uma atitude passiva, mas contributiva e criticamente construtiva. Passei, então, a observar mais atentamente esse “fenômeno”. Quando tínhamos aulas apenas da nossa turma e acontecia de não fazermos questionamentos ao professor, notava uma decepção em seu rosto. Isso ficou muito nítido, por exemplo, com um professor italiano – o jurista Pierluigi Chiassone –, da Universidade de Gênova. Contudo, por vezes, após a insistência de alguns, formulávamos perguntas, mas não tão elaboradas como aquelas feitas pelos colegas de outras nações.

A partir dessas experiências, decidi me empenhar em, sempre que possível, fazer alguma indagação ao professor ou palestrante. Dentre os vários benefícios que logo de início notei, percebi de imediato que o nível de concentração acerca do tema aumenta consideravelmente, pois, para fazer uma pergunta contextualizada, é preciso atenção a tudo que foi transmitido. Porém, confesso que não é agradável sair da zona de conforto, fugir da condição de passividade e correr o risco de perguntar alguma “besteira”. Entretanto, os ganhos são imensos e as aulas e palestras passam a ter um “sabor diferente”.

O rabino chefe da Grã-Bretanha, Lorde Jonathan Sacks, escreveu que o judaísmo é uma religião baseada em fazer perguntas. Afirma que “no judaísmo a ausência de perguntas não é um sinal de fé, mas de falta de profundidade”. Ele relata o interessante testemunho do judeu, Isidor Issac Rabi, ganhador do Nobel de física em 1944, que se dedicou, entre outros, a estudos relacionados à ressonância magnética e, dessa forma, auxiliou no desenvolvimento da “cavidade de magnetron”, utilizada tanto nos radares, como em fornos de micro-ondas (Wikipedia), duas invenções tão úteis e presentes em nosso dia a dia, quanto populares atualmente. Relata o rabino:

 
O físico judeu ganhador do Nobel, Isidore Rabi, explicou certa vez como sua mãe o levou a ser cientista: “Todas as outras crianças, ao chegarem da escola, ouviam a seguinte pergunta: ‘O que você aprendeu hoje?’ Minha mãe, porém, costumava perguntar: ‘Isinho, você fez uma boa pergunta hoje?’. Na ieshivá (escola judaica), local onde se estuda o Talmud, o melhor elogio que um professor pode dar a um aluno é dizer “Du fregst a gutte kasha” – “você levantou uma boa questão”.
 
Mais adiante, assevera:

 
... apesar de a Torá estar repleta de mandamentos – 613 no total –, não existe nenhuma palavra bíblica que significa ‘obedecer’. Em vez disso, a Torá utiliza a palavra shemá, que significa ‘ouvir e escutar, refletir, internalizar e responder’. Deus não quer obediência cega, mas uma resposta que seja fruto da compreensão.
 
Assim, compreendemos que nosso Criador não quer uma fé “cega e ignorante” e não quer que obedeçamos como se fôssemos seres autômatos. Ao contrário, Ele quer que a obediência seja o resultado prático proveniente de nossa atenta reflexão e profundo entendimento acerca de Seus mandamentos para a nossa vida.

Quando estive em Jerusalém, pude observar isso. No Muro das Lamentações, na lateral inferior esquerda, há um espaço destinado a leituras, orações e estudos. Logo na entrada, há uma grande mesa onde, na ponta, vi o que parecia ser um rabino e, sentados ao redor, vários alunos e estudiosos que lá debatiam. Como falavam hebraico, por óbvio que nada entendi, mas creio que pela reverência ao local, o tema deveria ser a Torá, a qual equivale aos cinco primeiros livros da Bíblia cristã.

No cristianismo não é diferente. Apesar de existirem cristãos que possuem a errônea crença de que, em assuntos de fé, quanto menos souberem, melhor, e que, por isso, deixam até mesmo de estudar a Bíblia ou a teologia, a realidade é que o apóstolo Pedro recomendou o contrário disso. Isto é, ele orientou que estivéssemos sempre preparados para dar os argumentos racionais de nossa fé: “... Estejam sempre preparados para responder a qualquer pessoa que pedir a razão da esperança que há em vocês” (1Pe 3:15).

Óbvio, como já dito, que levantar questionamentos não é fácil. Sempre ficamos com dúvidas se aquela é realmente “uma boa pergunta”, duvidamos de nosso conhecimento, nos questionamos se não passaremos por “burros” por não termos conseguido compreender o que o professor expôs, ou até corremos o risco de sermos considerados inconvenientes, tal como considerei inicialmente aqueles alunos.

Enfim, com este singelo texto, espero ter demonstrado a importância do hábito de levantar questionamentos, pois ajuda melhorar até mesmo o processo de aprendizagem e faz com que o aprendiz se torne coautor na construção do conhecimento. Muitas vezes, o intuito da pergunta não é “tirar uma dúvida”, mas contribuir para o aperfeiçoamento da ideia inicialmente exposta. Assim, o ato de “perguntar” não deve ser visto como desconfiança, tampouco como descrédito, mas, ao contrário, como um genuíno interesse no tema abordado.

HENRIQUE LIMA. Advogado (www.henriquelima.com.br). Mestre em direito pela Universidade de Girona – Espanha e pós-graduado em Direito Constitucional, Civil, do Consumidor, do Trabalho e de Família. Autor de livros e artigos jurídicos.

 
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COMENTÁRIOS

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Evanir Carvalho dos Santos
Muito interessante o texto, por um bom tempo, eu tive dificuldade para me colocar, fazendo perguntas, medo da exposição, de críticas, mas hoje também percebo o quanto é relevante! Obrigada Dr. Henrique por compartilhar tão valioso conhecimento.
29/11/2018

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